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Em condições insalubres, moradores da Mangueira resistem contra remoções

Famílias da Vila do Metrô, ao lado da comunidade da Mangueira, reclamam que não têm para onde ir, convivendo com lixo, ratos e esgoto a céu aberto

9 jan 2014
14h00
atualizado às 14h40
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O portão é estreito, e cercado por entulhos. Passado este obstáculo, rapidamente se nota que o esgoto corre a céu aberto e o lixo se mistura aos escombros das casas já demolidas. Ratos percorrem livremente o ambiente enquanto crianças descalças, inerentes ao drama local, brincam em meio ao caos, ao mesmo tempo em que famílias, mesmo diante de um cenário insalubre, preparam o almoço ali mesmo, nas vielas onde o mau cheiro impera.

Esta é a rotina dos moradores da Vila do Metrô, uma comunidade criada há cerca de três décadas ao lado da linha de trem da Supervia, na estação Mangueira, bem próxima à favela mais famosa, cuja escola de samba é uma das mais conhecidas do Rio de Janeiro. Desde o início da semana, os confrontos com o Batalhão de Choque da Polícia Militar tornaram-se constantes.

Barricadas foram montadas, protestos violentos proliferaram e o clima de tensão permanece. A pergunta que atormenta boa parte dos moradores de lá é uma só: para onde é que eu vou levar meus filhos, meus familiares, o que eu vou fazer da minha vida? “Não sei o que eu vou fazer. Vou entregar na mão de Deus”, relata a moradora que se identificou apenas como Taís.

Aos 18 anos e com dois filhos para cuidar e alimentar, ela reclama que a Prefeitura do Rio de Janeiro, via secretaria municipal de Habitação, ofereceu apenas um abrigo. “Nem me falaram para onde nos levariam”. De acordo com o relato de moradores ouvidos pela reportagem do Terra, um total de 18 famílias ainda estariam sem destino, desde que as demolições efetivas das casas da comunidade tiveram início na última terça-feira.

“Me deram dois dias para eu arrumar minhas coisas e sair. Você tem ideia do que é viver numa casa onde picharam um número? É como se ela estivesse marcada para morrer. Quer dizer, marcada para cair”, diz Taís, com o semblante triste, obviamente. “Tem gente que não está em casa e pode chegar e encontrar tudo derrubado. A gente não sabe o que fazer. Sair a gente não quer”, completa.

O mesmo drama vive o técnico de manutenção de uma rede de supermercados, Edmílson Souza Silva. “Pode pegar meu nome inteiro que eu não tenho medo”, avisa. “Vim da Paraíba há três anos, consegui emprego, tenho minha casa e agora eles querem me tirar daqui”, reclama. Ele afirma que a prefeitura não quer alocar ele e sua esposa para outra casa, pois ele não teria título de propriedade, uma vez que ficou com a residência de um casal de amigos que deixou o local.

“Não sei o que fazer, mas vandalismo eu não faço. O que eu posso fazer é dar a minha palavra”, explica ainda, antes de voltar a reclamar da truculência dos policiais. “O Choque chegou passando por cima de tudo, de mulher grávida, criança. Eles não têm dó. Tem gente sem documento, roupa, nada, porque as máquinas passaram por cima de tudo e as pessoas perderam”.

Moradores deixam suas casas na Vila do Metrô, na Mangueira, Rio de Janeiro
Moradores deixam suas casas na Vila do Metrô, na Mangueira, Rio de Janeiro
Foto: Daniel Ramalho / Terra

A Prefeitura informou em nota que iniciou a operação de derrubada das casas na terça à noite a fim de reordenar o espaço e criar um polo automotivo na Mangueira. Segundo a secretaria municipal de Habitação, todas as 662 famílias que viviam na Favela do Metrô-Mangueira receberam imóveis por meio do Programa Minha Casa, Minha Vida, a maioria sendo reassentada nos condomínios Mangueira I e Mangueira II, ao lado da comunidade. Ainda segundo a prefeitura, a negociação com as famílias foi iniciada em 2010 e o reassentamento foi concluído em dezembro de 2013 e os moradores teriam recusado a oferta e invadido as casas remanescentes.

Os moradores locais, atentos ao noticiário – eles montaram uma espécie de base em frente ao portão de entrada e assistem a tudo o que os telejornais reproduzem sobre o caso – prometem resistir. Nesta manhã, de acordo com concessionária Metrô Rio, eles teriam atirado objetos na linha férrea e a circulação das composições da Linha 2 foi interrompida por 12 minutos.

Na última terça-feira, bombas de efeito moral e spray de pimenta foram utilizados contra os moradores pela PM. Três manifestantes foram detidos por desacato. Bem ao lado da Vila do Metrô, em protesto, comerciantes da Mangueira fecharam o comércio contra as remoções que, ao que tudo indica, vão acontecer cedo ou tarde para a construção do polo automotivo, que promete ainda retirar também as oficinas da avenida Radial Oeste.

Dona Maria das Nevez, há uma década morando no local, se arrepende de ter votado no prefeito Eduardo Paes. “Por que um carro não me atropelou antes de eu votar nele? Ele não tem coração, não tem nada. Não ama o próximo. Quando ele quer o nosso voto, aí, sim, vem até aqui e abraça todo mundo”, disse revoltada.

Fonte: Terra
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