PUBLICIDADE

Do Brás aos Jardins: a rotina de perrengues, looks e assédios das influenciadoras de moda autônomas

Por trás do glamour das redes sociais, modelos independentes fazem sozinhas o trabalho de uma agência inteira em um mercado popular que só cresce

13 out 2021 22h01
ver comentários
Publicidade

Às 7h da manhã, Natalia Fernanda acorda em sua casa em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e começa a se maquiar. Em seguida, é hora de a jovem de 27 anos juntar malas de roupas, barraca dobrável, mochilas com acessórios e cruzar São Paulo até o Jardim Anália Franco, na zona leste, onde vai passar as quatro horas seguintes fotografando cerca de 30 looks nas calçadas do bairro nobre. Ela, assim como centenas de outras meninas que são influenciadoras de moda para marcas do Brás, encara uma rotina de perrengues que incluem a própria produção, assédio nas ruas e condições precárias de trabalho… dificuldades que se escondem por trás do glamour nas redes sociais.

"Sempre trabalhei sozinha. Dificilmente tem modelo no Brás com agência, a maioria das meninas é independente mesmo. Tento cronometrar minha semana, mas sempre muda de cabeça pra baixo porque as coleções têm um giro muito rápido", conta Nati, nome artístico que exibe em seu perfil no Instagram, onde contabiliza mais de 147 mil seguidores.

Faz três anos que a modelo começou a trabalhar com marcas do Brás, um dos maiores e principais pólos têxteis do País e da América Latina. Dos mil cartões que imprimiu quando decidiu ingressar na carreira, distribuiu mais de 500, indo de loja em loja, oferecendo diretamente o serviço para até cem lojistas por dia, todos organizados em uma planilha que ela montou. Logo, Nati começou a ser chamada para fazer o "presencial", quando as meninas passam até sete horas "em cima do salto", exibindo os looks ao longo do dia no próprio estabelecimento.

"Quando comecei, não sabia de nada, não tinha uma visão", conta Nati. Hoje, são os lojistas que a procuram, alguns clientes fiéis que a acompanham desde o início, entre marcas de beachwear, sportswear e festas. Hoje, ela cobra por hora o que recebia em um dia de "presencial".

O pagamento das modelos é feito com base em cada look que entregam. Para cada dia de externa, elas fotografam de 10 a 50 combinações de roupa. Menos que isso, dizem, não vale a pena o esforço. O preço da foto pode variar de R$ 30 a R$ 90, apesar de a média estar mais entre R$ 50 e R$ 70 para a maioria das meninas.

O valor exato do trabalho é determinado pelo que elas "agregam" às imagens. Aí, entram fatores como a locação escolhida para o ensaio, a qualidade do equipamento do fotógrafo, número de seguidores das modelos e até os acessórios que acompanham as roupas - as influenciadoras "maiores", por exemplo, mesclam as peças com cintos, bolsas,sapatos e óculos de maisons internacionais, como Prada, Gucci e Yves Saint Laurent.

Trabalho autônomo e autoestima

A grande maioria das influenciadoras de moda que trabalham com marcas do Brás precisam desempenhar mil e uma funções, quase como uma agência de uma pessoa só. São elas que buscam os fotógrafos, cuidam do próprio agenciamento, assessoria, relação com as marcas, cuidam do controle financeiro, da edição das imagens, do cabelo, da maquiagem e da produção dos looks. Ah, e são elas que decidem quais acessórios vão entrar na foto e passam as roupas que vão vestir para que a peça não apareça amarrotada.

"Sempre quis fazer esse trabalho, mas não sabia o caminho. Coloquei meu material em agências, mandei fotos pras lojas, mas não sabia como esse mundo gira. Aí, uma amiga que trabalha com isso me deu o 'caminho das pedras'", conta Meire Vasconcellos. Aos 37 anos, a assistente social encara o trabalho de modelo plus size no Brás como um complemento da renda ao qual se dedica dois dias por semana desde novembro de 2020.

Além do dinheiro, Meire explica que outro atrativo do trabalho é o impacto em sua autoestima. "Foi muito difícil me aceitar como gordinha, porque sempre quis ser magra. Comecei a tomar remédio para emagrecer aos 18 anos, já fiz dieta do chá e fiquei 20 dias sem comer sólido", lembra. "Poder trabalhar, me ver bonita e mostrar que também posso me vestir bem, da forma como estou, agrega ao meu amor próprio."

Ao contrário do que acontece nas maiores e principais grifes e passarelas de moda mainstream do Brasil e do mundo, o plus size é um nicho que cresce e avança a passos largos entre as marcas do Brás. Meire estima que pelo menos umas 4 mil lojas já se dediquem ao público e garante que só não faz mais fotos por falta de tempo. "Se eu trabalhasse só com isso, teria bastante campo."

Conhecer o caminho das pedras

A demanda e oferta de modelos para marcas do Brás é tão grande que às vezes fica difícil conseguir um fotógrafo disponível para as "externas". As meninas que se dedicam exclusivamente à função, costumam dividir os mesmos profissionais e vão juntas para as mesmas locações em calçadas, fachadas, estabelecimentos e shoppings de bairros nobres da capital paulista, principalmente nos Jardins, onde montam barracas improvisadas para se trocarem. Enquanto uma muda o look, a outra faz as fotos.

"A gente contrata o fotógrafo vendo o trabalho com outras meninas", explica Meire. "São eles, fotógrafos, que sugerem os locais da rua, onde não tem confusão nem dá rolo. A gente vai na onda deles."

Um deles é Alexandre Danjó, que está desde o ano passado trabalhando nesse meio e entrou no mercado incentivado pela cunhada, que também é modelo do Brás e passou a ter dificuldade para achar profissionais disponíveis que pudessem acompanhá-la. Aos 44 anos, ele investiu: fez curso de fotografia, comprou equipamento e hoje conta que já trabalhou com mais de 30 meninas e faz até três sessões por semana, com duas ou três meninas por vez. A prioridade, agora, é sua mulher, que também acabou se tornando modelo plus size.

Na indústria tradicional da moda, os fotógrafos costumam receber o cachê por campanha ou diária, a depender do tamanho da grife e do profissional. Já no universo do Brás, o pagamento também é feito por cada look que clicam e o dinheiro vem diretamente das modelos, não das marcas. Danjó, que também tem um trabalho "oficial" na maioria dos dias, conta que consegue tirar até R$ 5 mil por mês com o bico.

Outro diferencial é que, ao contrário das grifes grandes que também estão no Brás, a rotina das influenciadoras e dos fotógrafos que trabalham com marcas populares é totalmente imprevisível, graças ao grande fluxo de novas coleções que chegam às vezes duas ou três vezes por semana. Até no caso dos profissionais mais tradicionais que trabalham com agências e fazem sessões oficiais de catálogo em estúdio, o volume costuma ser de 18 campanhas por ano.

"A campanha de Natal, por exemplo, já está clicada desde o mês passado. A do Dia das Crianças, fizemos em junho", conta Mario Lopes, fotógrafo que trabalha com marcas maiores do Brás há três anos. Nesses casos, a equipe inteira conta com pelo menos 15 pessoas e pode chegar a 45, entre stylists, maquiadores, produtores, diretor criativo, assistentes de foto, vídeo e modelos.

"Como não tenho estúdio próprio, faço todas as fotos como externas. Inclusive, as lojas [populares] do Brás gostam desse tipo de foto e pedem que seja assim", explica Danjó. A preferência por clicar essas imagens em bairros nobres como Jardins e Jardim Europa é por eles serem "mais elitizados" e, logo, com um "aspecto mais bonito".

Assédio acontece com frequência

Mesmo sabendo quais são os locais mais tranquilos para fotografar as externas, ocupar as calçadas da elite paulistana com barracas, araras, espelho e modelos é algo nem sempre bem-vindo pelos moradores e comerciantes. "Já fomos expulsos de algumas ruas, já jogaram água na gente, chamaram a polícia… Sem falar no pessoal que sai xingando, do nada", conta Danjó.

"Normalmente, dependendo da situação, a gente acaba até saindo para evitar problema, porque atrapalha e as modelos ficam desestabilizadas", explica. "As pessoas às vezes não gostam das barraquinhas na calçada. Eu tento orientar as meninas que, se a pessoa chegar com educação, aí a gente tem que acatar e respeitar."

Outro fator que costuma "desorientar" as modelos é o assédio que, mesmo nos bairros nobres, elas sofrem ao posar na rua. Na sessão externa que a reportagem acompanhou com Nati, a maioria dos motoristas que passavam por ela diminuíram a velocidade e fizeram sinais enquanto a modelo posava na fachada de um bistrô. As cantadas e as importunações seguiram no dia seguinte, quando ela foi devolver os looks no Brás.

Para Nati, esse nem é o pior dos problemas. "O pior perrengue? Pra mim, é segurar o xixi. Às vezes passo o dia todo sem fazer, mas prefiro esperar, porque fazer na rua não dá." Mas tem gente que faz? "Já ouvi boatos que sim", ri

Sobre os assédios, entretanto, ela conta que já aprendeu a lidar, mesmo que não devesse. "Isso acontece direto, tanto dos carros como de motoqueiros passando, pessoas a pé. Muitas vezes mexem, gritam e querem chamar atenção. Quando faltam muito com respeito, falam e vão embora, mas eu finjo que não ouvi porque não dá pra absorver tudo", conta Nati. Hoje, a fotógrafa com quem ela mais trabalha é a própria namorada, a colombiana Mafê Gutierrez, de 21 anos.

"Respeito muito ela, então preciso protegê-la e cuidar dela como mulher, mas como fotógrafa também. Não sou uma pessoa de procurar briga, então muitas vezes fico calado. Mas peço 'por favor, respeita'. É o que merecemos, todos", reclama Mafê. Nati conta que já orientou a namorada a não absorver os assédios: "Falei pra ela não se preocupar porque é normal, infelizmente. Se você for brigar com todo mundo, vai sair daqui sem voz."

Estadão
Publicidade
Publicidade