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Após mortes de bispo e padres pelo vírus, Igreja começa a retomar missas em alguns Estados

Desde o início da pandemia, um bispo, cinco sacerdotes e duas freiras que atuavam em paróquias de todo o País morreram com a covid-19

13 mai 2020
13h12
atualizado às 19h57
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SOROCABA - Depois de quase dois meses de celebrações sem povo, devido ao coronavírus, a Igreja Católica do Brasil começa a retomar as missas com a presença de fiéis. Uma decisão do arcebispo de Goiânia, d. Washington Cruz, divulgada nesta segunda-feira (11), permitiu que as missas fossem celebradas já no último domingo (10) com lotação parcial das igrejas, condicionadas às medidas para reduzir o risco à população e aos padres. As novas regras levam em conta decreto do governo de Goiás liberando o funcionamento de igrejas e templos. A Arquidiocese de Florianópolis também retomou as missas.

Desde o início da pandemia, mesmo com as atividades presenciais suspensas, um bispo, cinco sacerdotes e duas freiras que atuavam em paróquias de todo o país morreram com a covid-19. Houve ainda, vários casos de hospitalização devido ao vírus. Por recomendação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), as missas e celebrações presenciais foram suspensas. Para proteção dos bispos idosos, a assembleia nacional da CNBB marcada para abril, foi adiada para agosto.

A retomada acontece em estados onde o governo baixou decretos adotando a medida provisória do presidente Jair Bolsonaro que incluiu cultos e missas na lista de atividades essenciais. Em Goiás, paróquias vinculadas à arquidiocese de Goiânia já celebram as missas com público presente. Para evitar aglomeração, os fiéis devem se manter a dois metros de distância entre si e apenas 30% da capacidade da igreja está sendo ocupada. A temperatura corporal de quem chega é medida na entrada e não é admitido o ingresso de pessoas do grupo de risco, com mais de 60 anos ou menores de 12 anos.

Missas voltaram a ter presença de público, mas lotação incompleta e distanciamento, em Goiânia (GO)
Missas voltaram a ter presença de público, mas lotação incompleta e distanciamento, em Goiânia (GO)
Foto: Arquidiocese de Goiânia / Divulgação / Estadão

O padre Rodrigo de Castro, reitor do Santuário Sagrada Família, em Goiânia, conta que, no domingo, celebrou missas com os fiéis presentes e intervalos de duas horas para higienizar a igreja. "Celebrei em todos os horários possíveis, às 3 horas da madrugada, 6 da manhã, 9, 12, 15, 18 e a última, às 21 horas. Devo repetir o mesmo esquema no próximo domingo", disse. O santuário tem capacidade para 3.500 pessoas, mas estão sendo admitidas 380. Durante a semana, os devotos retiram na secretaria um bilhete com o lugar marcado. Após cada missa, segundo o padre, são mobilizadas 25 pessoas para higienizar bancos.

Na entrada, os fiéis têm os calçados limpos com um jato de desinfetante e passam pelo sensor de temperatura. "Tivemos de comprar o pulverizador e o medidor de temperatura. Nas paróquias menores, os padres não estão conseguindo celebrar missas porque não dispõem desses equipamentos. Para se ter uma ideia, o preço do medidor, que era de R$ 28, agora custa até R$ 500. É complicado, mas os nosso fiéis estão colaborando."

O Santuário Nossa Senhora de Fátima, em Florianópolis (SC), celebrava o dia da padroeira, nesta quarta-feira (13), com missas presenciais às 9, 12, 15 e 19 horas. "As missas são abertas à comunidade, mas com restrições, seguindo as medidas decretadas pela Secretaria da Saúde do Estado. A missa da noite será solene e contará com os momentos marcantes da celebração da primeira aparição de Nossa Senhora aos pastorinho, como a procissão luminosa e a consagração à Fátima", disse o pároco, padre Mário Raimondi.

A devota Maria de Fátima Campos, que ajudava na venda de pastel, empadão e cuca, feitos para ajudar a paróquia, assistiu a missa da manhã e passou a atender pessoas da comunidade que retiravam os produtos no estacionamento do santuário. "Eu não deixei de assistir as missas que são transmitidas pela internet, mas estar aqui na igreja é outra coisa e eu sentia muita falta." O Santuário de Azambuja, em Brusque, no interior, suspendeu a procissão e festejos externos da Festa de Nossa Senhora de Caravaggio, durante este mês, mas manteve as celebrações litúrgicas dentro da igreja, com lotação reduzida.

No interior de São Paulo, em Quintana, o padre Edson de Oliveira contou com colaboradores para colocar fotos dos frequentadores assíduos nos bancos da igreja, durante a missa transmitida pela internet. "As reações foram muito positivas e as pessoas que não podem estar aqui presencialmente se sentem reconfortadas", disse.

Monsenhor Rubião Peixoto, de 84 anos, é saudado ao deixar o hospital, após se recuperar da covid-19, em Maceió (AL)
Monsenhor Rubião Peixoto, de 84 anos, é saudado ao deixar o hospital, após se recuperar da covid-19, em Maceió (AL)
Foto: Arquidiocese de Maceió / Divulgação / Estadão

PROTEÇÃO

Mesmo com os cuidados tomados pelas dioceses, com base em orientação da CNBB, o coronavírus causou baixas no próprio clero. O arcebispo emérito da Paraíba, d. Aldo Pagotto, é o único óbito confirmado pela covid-19 no episcopado brasileiro. O religioso travava luta contra o câncer desde 2017 e faleceu no dia 14 de abril último, aos 70 anos, em um hospital particular de Fortaleza (CE). O corpo foi sepultado no mausoléu do Santuário de São Benedito, na capital cearense, seguindo as restrições sanitárias. Conforme a CNBB, outro bispo contraiu o vírus, mas se recuperou. Ele não teve o nome divulgado.

O padre Roberto Carlos Vieira Nunes, do Rio Grande do Norte, faleceu no dia 4 de abril, em Recife (PE), dois dias após completar 54 anos. Ele exercia o sacerdócio em paróquias da Diocese de Olinda e Recife. No dia 4 de maio, a arquidiocese de Manaus comunicou o falecimento do padre diocesano Cairo Gama, de 41 anos. Ele estava internado desde o dia 22 de abril em hospital particular, em tratamento pela infecção do novo coronavírus.

No interior de São Paulo, a diocese de São José do Rio Preto divulgou nota informando o falecimento do Frei Bruno, nome religioso do noviço Paulo Fernando de Campos Meneses, de 36 anos, que morreu no último dia 9, em Jaci, interior de São Paulo. Ele estava internado desde o dia 23 de abril, após contrair o vírus. O óbito foi confirmado pelo Hospital de Base de Rio Preto. O frade atuava em casas de acolhimento aos moradores de rua.

No dia 27 de março, a arquidiocese de Goiânia (GO) comunicou o falecimento do padre Francesco Nisoli, de 71 anos, em Cremona, na Itália, após contrair o coronavírus. Ele havia retornado para a cidade do norte italiano após servir durante 30 anos a Igreja brasileira, em paróquias de Goiás. O padre José Bosmans, que atuava na diocese de Palmas-Francisco Beltrão, no Paraná, morreu da covid-19, no dia 17 de abril, na Bélgica, seu país de origem.

Missa é celebrada em sistema 'drive-in', em Olímpia, interior de São Paulo
Missa é celebrada em sistema 'drive-in', em Olímpia, interior de São Paulo
Foto: LupoiPhoto / Divulgação / Estadão

A freira católica Jandira Rosa Chagas, de 78 anos, morreu em Paraisópolis (MG), onde atuava à frente da Casa da Criança. O óbito aconteceu no fim de março, mas o exame confirmando a infecção pelo coronavírus só saiu no dia 10 de abril. A freira Edite Terezinha Bortolini, de Garibaldi, na Serra Gaúcha, morreu aos 81 anos na província de Vicenza, na Itália. Ela integrava a congregação Passionistas de São Paulo da Cruz e foi diagnosticada com o vírus.

RECUPERAÇÃO

No dia 30 de abril, a arquidiocese de Maceió divulgou nota comunicando a recuperação do monsenhor Rubião Lins Peixoto, de 84 anos, após 25 dias de internação devido ao coronavírus. Um vídeo divulgado no site oficial mostrou a saída do monsenhor do hospital, saudado pela equipe médica e funcionários.

Oito frades do Convento e Santuário São Francisco, no centro de São Paulo, contraíram o vírus em abril. Dois deles precisaram de internação, mas estão recuperados, segundo nota da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. Somente um franciscano ainda está em quarentena. Conforme a nota, os frades voltaram às atividades religiosas internas, inclusive a celebração de missas não presenciais, transmitidas pelas redes sociais.

AGENDA

CNBB informou que os bispos e padres são orientados a adotar medidas para preservar a própria integridade, sem abrir mão do papel de protagonismo que a Igreja deve ter diante da pandemia, sobretudo no atendimento aos mais vulneráveis. Cada diocese tem autonomia para decidir sobre as celebrações, levando em conta as leis e realidades locais.

Nesta terça-feira (12), foi organizada uma agenda com os bispos do Brasil para discutir as especificidades do avanço do coronavírus em cada estado e as ações da Igreja "em realidades distantes, com estados com maior quantidade de casos, avanço sobre pobres e periferias". De acordo com o secretário-geral e bispo do Rio de Janeiro, d. Joel Portella Amado, o objetivo da iniciativa é conhecer o que está sendo feito pela Igreja e reforçar as ações em cada localidade.

Para o médico infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), as medidas de controle adotadas em espaços fechados, como as anunciadas pelas igrejas, otimizam a prevenção da transmissão tanto por gotículas como por contato. "Na visão técnica dos cuidados tomados nesse espaço, a chance de transmissão é muito pequena. Mas há dois problemas: o primeiro, é quem vai fiscalizar. Já vimos que em outros espaços, como o comércio, a fiscalização não é efetiva. O segundo é que favorece o deslocamento das pessoas e os contatos fora do ambiente. Quem garante que as pessoas que se conhecem não terão contato na frente da igreja?"

Conforme o infectologista, é possível racionalizar a retomada dessas atividades em cidades com baixo número de casos, mas não em locais onde a situação epidemiológica é ruim. "Se fosse na Suécia, eu não teria dúvida de que iria funcionar, mas aqui é mais complicado."

A virologista Giliane de Souza Trindade, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) vê como "um risco" a retomada de celebrações religiosas presenciais pelo potencial de produzir aglomerações. "Todas as medidas que a OMS (Organização Mundial de Saúde) preconiza, como uso de máscaras, álcool gel, distanciamento de dois metros, em conjunto ajudam a minimizar o risco de transmissão, mas não quer dizer que sejam 100% efetivas para evitar o contágio."

No interior de uma igreja ou templo, só o fato de as pessoas compartilharem o mesmo banco aumenta o fator de risco. "Não é o momento certo para isso. Chegamos a ter mais de 800 mortes em 24 horas. Houve quebra nas medidas que estão sendo tomadas, por isso estamos na faixa ascendente da doença. Não sabemos sequer usar as máscaras direito, pois a gente mexe de forma errada nelas. Além do que, muitas igrejas, sobretudo as pentecostais, já têm aglomerações. Para ir de casa à universidade, cruzo a cidade de Belo Horizonte e tenho visto isso o tempo todo."

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Estadão
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