Brasil volta às urnas dividido entre legado de Lula e o projeto de ruptura da família Bolsonaro
Em um pleito acirrado que reflete a polarização do país, Lula e Flávio Bolsonaro disputam a presidência em um segundo turno marcado pelo empate técnico nas pesquisas. Enquanto o petista tenta reverter a desvantagem do primeiro turno focando em seu legado social, defesa da democracia e benefícios populares, o senador aposta no antipetismo, no descontentamento com o custo de vida e no apoio do Centrão para retomar o poder para sua família, em uma eleição decisiva para os rumos internos e externos do Brasil.
Em pleito que promete ser acirrado, eleitores vão escolher entre projetos antagônicos. Lula tenta superar desvantagem e conquistar um quarto mandato, enquanto Flávio Bolsonaro busca revanche após derrota do pai em 2022.O Brasil volta às urnas neste domingo (25/10) para decidir quem comandará o país pelos próximos quatro anos: o longevo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de esquerda e em busca de um quarto mandato, ou o senador Flávio Bolsonaro (PL), primogênito do ex-presidente Jair Bolsonaro que busca uma revanche e levar sua dinastia de extrema direita de volta ao poder após a derrota de 2022.
Além de reunir os mesmos sobrenomes da eleição passada, o segundo turno marca mais uma vez um confronto decisivo entre dois projetos que não poderiam ser mais antagônicos.
De um lado, Lula apostou mais uma vez na nostalgia de medidas de proteção social criadas nos seus governos anteriores, com a adição de apelos à defesa da soberania. Já Flávio, repetindo a estratégia usada por seu pai, apostou na rejeição ao PT em parte da sociedade brasileira e numa agenda de confronto com instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF), explorando ainda temas como aumento do custo de vida.
Após liderar o primeiro turno e ser embalado pela onda de direita que varreu o Congresso e governos estaduais, Flávio Bolsonaro optou, num primeiro momento, por uma estratégia reativa, evitando exposição e em boa parte terceirizando a mobilização para aliados do PL que foram eleitos ou reeleitos no primeiro turno.
Já a campanha de Lula, após a decepção com o resultado da primeira rodada, passou as últimas três semanas mobilizando sua base e ampliando sua presença digital para tentar reverter a desvantagem, uma missão árdua, dado o histórico das eleições presidenciais brasileiras desde a redemocratização, que nunca registraram uma virada na segunda rodada.
Ambas as campanhas ocorreram sob a sombra da crise ética e funcional do Judiciário, a eclosão de escândalos de corrupção, tensões geopolíticas e até mesmo acusações de interferência externa, tanto dos EUA quanto gigantes de tecnologia americanas. A tensão se refletiu na própria Justiça Eleitoral, que foi palco de um atropelo de decisões, com o próprio presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, sendo acusado de agir para beneficiar Flávio Bolsonaro.
O resultado da eleição também vai influenciar o papel ocupado pelo Brasil no mundo. Uma eventual vitória de Lula no maior país da América do Sul seria vista com alívio tanto por países da Europa, que se reaproximaram do Brasil após a era Jair Bolsonaro, quanto para defensores do multilateralismo e de causas ambientais. Já a chegada de Flávio Bolsonaro ao Planalto, além de provocar alarme entre ambientalistas, deve redirecionar o Brasil em direção aos EUA de Donald Trump, a exemplo de outros países da região, como a Argentina de Javier Milei e a Colômbia de Abelardo de la Espriella.
O cenário na véspera do pleito
Pesquisas indicam que o pleito deve ser acirrado, com os dois candidatos aparecendo constantemente em empate técnico, apontando um cenário imprevisível, embora Flávio apareça em boa parte dos levantamentos em vantagem numérica.
No primeiro turno, em 4 de outubro, o senador do PL ficou à frente do presidente Lula, conseguindo 47,03% dos votos, contra 45,16% do petista, uma diferença de apenas 1,87 ponto.
Levantamentos divulgados na véspera sugerem que esse pode ser o segundo turno mais acirrado desde a redemocratização. No Datafolha divulgado sábado, Flávio somou 51% dos votos válidos contra 49% de Lula, uma situação de empate, considerando a margem de erro de dois pontos. Já uma pesquisa Nexus divulgada no mesmo dia apontou Flávio com 50,5% sobre 49,5% de Lula, com a margem de erro de 2,2 pontos.
Lula tenta manter seu projeto vivo
O segundo turno de 2026 ocorre poucos dias antes do sétimo aniversário da libertação de Lula da sede da Polícia Federal em Curitiba, onde o petista permaneceu 580 dias preso. Solto, Lula protagonizaria, pouco menos de três anos depois, uma das reviravoltas políticas mais dramáticas da história brasileira, ao derrotar em 2022 o então presidente Jair Bolsonaro e conquistar um terceiro mandato.
Sob Lula a partir de 2023, vários indicadores econômicos do Brasil mostraram sinais de melhora após declínio no fim da gestão Jair Bolsonaro. O país registrou números recordes de empregabilidade, assim como os menores níveis de pobreza e extrema pobreza da série histórica (desde 2012).
No entanto, apesar da melhora, houve a persistência de um sentimento negativo entre muitos eleitores em relação ao custo de vida, de forma semelhante ao que ocorreu com o ex-presidente democrata Joe Biden nos EUA em 2024, cujo partido acabou sendo derrotado nas urnas no mesmo ano, e ainda por cima para um rival que havia sido superado na eleição anterior: Donald Trump.
Com Lula se aproximando dos 81 anos, esta agora pode ser a última eleição presidencial com o nome do petista nas urnas. Na campanha de 2026, Lula apostou mais uma vez no seu legado e biografia. Apesar de ter largado na frente nas pesquisas, o primeiro turno se mostrou mais difícil para o petista. Em relação ao primeiro turno de 2022, Lula perdeu cerca de 3,4 milhões de votos.
Após o choque inicial, a campanha do petista colocou em marcha uma nova estratégia de reorganização que envolveu eventos com contato direto com a população, como atos de rua para reanimar a base, deixando de lado comícios mais tradicionais e encontros fechados.
A campanha ainda passou a fazer uso mais intenso das redes sociais para agitar eleitores e criticar Flávio Bolsonaro, com o deputado André Janones (Rede-MG) ganhando espaço na estratégia.
Lula também redobrou anúncios de benefícios para a população, como subsídios para combustíveis, uma ampliação do Pé-de-Meia para universitários, desonerações e perdão de dívidas, entre outras medidas. Em debates, Lula ainda tentou explorar escândalos de Flávio e propôs que os dois candidatos abrissem seus sigilos, além de falar em defesa da soberania e da democracia. No último debate na Globo, Lula sintetizou como vê o que está em jogo:
"Ou a gente mantém a democracia funcionando, ou a gente vai ter um miliciano governando esse país dentro do Palácio do Planalto, o que não é bom para ninguém. Não faça essa experiência", advertiu.
A estratégia parece ter dado fôlego para a campanha, segundo pesquisas. Mas persistiram dificuldades. Lula viu boa parte dos partidos do Centrão declarando apoio a Flávio, e se limitou a conseguir angariar suporte de apenas parte do MDB, com dez diretórios, todos no Norte e Nordeste.
Com pesquisas mostrando o eleitorado de cada candidato cristalizado (no caso de Flávio, 94% dos seus eleitores dizem que não vão mudar o voto), o desafio de Lula no segundo turno se tornou atrair a diminuta parcela de indecisos e tentar buscar eleitores que não votaram na primeira rodada. Historicamente, o cenário não é favorável a Lula, mas uma inédita virada não seria algo atípico numa carreira política já marcada por reviravoltas dramáticas.
Flávio em busca de levar de recuperar a Presidência para sua dinastia
Embalado por uma onda de direita que varreu o Congresso na primeira rodada, Flávio Bolsonaro entrou no segundo turno como candidato favorito a vencer a eleição. Com 45 anos, o senador inicialmente se lançou à Presidência no ano passado no que parecia uma mera manobra política que ainda abriria caminho para outra candidatura de oposição ao PT.
Mas Flávio rapidamente foi bem-sucedido em herdar boa parte do capital político do pai, Jair Bolsonaro, e se cacifar como o principal desafiante da candidatura à reeleição de Lula.
Na contagem de votos do primeiro turno, Flávio obteve mais de quatro pontos percentuais a mais em relação a Jair Bolsonaro em 2022, que chegara ao fim da primeira rodada daquela eleição com 43,2%.
Liderando uma campanha revanchista após a derrocada e desmoralização de Jair, que não se reelegeu e ainda acabou preso e condenado por uma tentativa de golpe, Flávio prometeu "fazer justiça" pelo pai e falou várias vezes em anistiar os envolvidos no ataque golpista de 8 de janeiro de 2023.
Intercalando ataques ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio também focou sua campanha em críticas ao custo de vida, ao preço dos alimentos e à corrupção, além de prometer "uma guerra" contra o que chamou de "narcoterrorismo", imitando outras figuras da extrema direita latino-americana, como salvadorenho Nayib Bukele. "Lula prometeu picanha e entregou abóbora", disse Flávio no último debate. Apesar das críticas à economia, especialistas apontam que os planos do candidato para a área são vagos.
No segundo turno, Flávio ainda garantiu apoios de vários partidos do Centrão e de candidatos nanicos derrotados no primeiro turno.
A candidatura não foi livre de tumultos. Já na pré-campanha Flávio se viu diretamente envolvido no escândalo do Banco Master, após a revelação de áudios e mensagens que mostraram o senador negociando o repasse de mais uma centena de milhões de reais com o banqueiro e fraudador Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
Outras situações de tensão ocorreram, como um desentendimento público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que esteve ausente de boa parte da campanha do presidenciável. As articulações da família Bolsonaro junto ao governo Trump também levaram em alguns momentos Flávio a ficar na defensiva. Na reta final, Flávio ainda foi alvo de questionamentos envolvendo suas relações com o advogado Willer Tomaz, um aliado pessoal que está sendo investigado por envolvimento no escândalo do INSS e por suspeita de lavar dinheiro com bets. Velhos temas como a relação do senador com milicianos, PMs acusados de homicídio e posicionamentos passados contra o Bolsa-Família também ressurgiram.
Em resposta, Flávio adotou uma postura de negação ou de ignorar completamente as acusações, chegando até mesmo a tentar colar em Lula escândalos como o do Master. A postura de candidato "Teflon", na qual escândalos não parecem grudar de forma decisiva, levou Flávio a manter a força eleitoral na reta final da campanha. Se eleito, Flávio vai assumir um Planalto com mais força do que seu pai teve em 2018, turbinado por uma bancada recorde de deputados e senadores.
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