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Brasil

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Brasil segura aprovação de indicado de Trump para embaixador e país pode ficar sem representante até a eleição

30 jul 2026 - 08h15
(atualizado às 09h13)
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O governo brasileiro tem retido, há semanas, a aprovação formal ‌necessária para nomeação do próximo embaixador dos Estados Unidos, em uma nova etapa da disputa com o Departamento de Estado que pode deixar o Brasil sem o embaixador norte-americano até as eleições.

Daniel Perez, um deputado estadual da Flórida e aliado do secretário de Estado, Marco Rubio, foi indicado pelo presidente Donald Trump em 1º de Junho, e sua nomeação foi anunciada antes mesmo de se buscar a aprovação do Brasil, uma prática diplomática conhecida como "agrèment", disseram quatro pessoas familiarizadas com o assunto.

Previsto na Convenção de Viena, que rege as regras da diplomacia, o processo do ⁠agrèment costuma ser mantido em sigilo por protocolo diplomático, até que o anfitrião aceite a indicação do embaixador.

A quebra desse protocolo foi vista como ‌desrespeitosa, ainda que não tenha sido um desrespeito apenas com o Brasil -- o governo Trump teria agido da mesma forma com outros países. O pedido foi enviado à Brasília cerca de 10 dias depois do anúncio, e está sendo analisado desde então pelas autoridades brasileiras.

De acordo com ‌as fontes brasileiras ouvidas pela Reuters, essa análise não tem prazo para terminar e depende ‌da decisão do Brasil. Uma das fontes disse que a decisão pode não ser tomada até a eleição de outubro.

"Nós não estamos ⁠dizendo que não vamos dar o agrèment, mas não tem prazo. Nem a Convenção de Viena determina prazo. Cabe ao país anfitrião decidir", disse uma das fontes.

Ainda que sem agrèment, o governo norte-americano deu sequência à indicação de Perez, que já passou por uma sabatina no Comitê de Relações Exteriores do Senado dos EUA, e precisa agora ter seu nome aprovado em plenário, outra quebra de protocolo que irritou o governo brasileiro.

Do outro lado, nos últimos dias algumas autoridades do governo Trump também têm demonstrado crescente irritação com o que interpretam como protelação por parte do ‌Brasil, segundo duas fontes. Uma delas acrescentou, sem dar mais detalhes, que o governo poderá tomar medidas punitivas contra o Brasil já no final da ‌semana, caso a questão não seja resolvida em ⁠breve.

As ameaças não chegaram ainda ao ⁠governo brasileiro, disseram as fontes brasileiras, mas não vai mudar a postura do governo. "Nós não vamos lidar com isso na base da ameaça", disse uma dessas ⁠fontes, lembrando que os EUA ficaram um ano e meio sem embaixador no Brasil, mas ‌decidiram pela nomeação justamente no período eleitoral.

Ainda ‌que não manifestado diretamente, o governo brasileiro não tem pressa em aceitar no país durante o processo eleitoral um aliado de Rubio em um momento em que o Departamento de Estado é visto como o principal foco de apoio ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa pelo Planalto, nos EUA, e origem de tentativas de interferência no processo eleitoral.

Depois ⁠de uma breve lua de mel, com o bom relacionamento entre Lula e Trump, a relação entre os dois países se deteriorou nos últimos meses, e o governo brasileiro identifica em Rubio a origem das pressões contra o país.

Questionado, o Ministério das Relações Exteriores afirmou que não comentaria o assunto, "pois o processo está protegido pelo princípio de confidencialidade estabelecido na Convenção de Viena".

O Departamento de Estado não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.

RELAÇÕES TENSAS, ELEIÇÃO CONTURBADA

O impasse sobre o embaixador vem se somar a ‌semanas de deterioração na relação entre os dois países e a disputa sobre a relação com os EUA deve surgir como um dos temas centrais na eleição.

A soberania nacional tornou-se um dos principais lemas da campanha de Lula na busca por seu quarto mandato não consecutivo ⁠na eleição de outubro. Já Flávio Bolsonaro, tem procurado retratar Trump como um aliado fundamental.

Em junho, o Departamento de Estado designou duas facções do crime organizado brasileiro como organizações terroristas, apesar da oposição do governo brasileiro.

Este mês, Washington impôs uma tarifa de 25% sobre diversos produtos brasileiros, alegando o que descreveu como práticas comerciais desleais, em uma medida classificada pelo Brasil como injusta e arbitrária. Na semana passada, anunciou uma tarifa adicional de 12,5% relacionada a preocupações com trabalho forçado.

Dias depois, dois integrantes do governo brasileiro disseram à Reuters que o Brasil negou pedidos de visto para duas autoridades norte-americanas que planejavam viajar ao país para, segundo as fontes brasileiras, questionar a integridade do sistema eleitoral.

Lula classificou as recentes tarifas de Washington sobre produtos brasileiros como resultado de uma "conspiração" entre os Bolsonaro e Trump. As pesquisas mostram Lula com uma vantagem pequena, mas constante, sobre Flávio Bolsonaro.

Em sua audiência no comitê parlamentar neste mês, Perez disse aos senadores que a eleição brasileira de outubro seria uma das primeiras prioridades caso sua nomeação seja confirmada, afirmando que os Estados Unidos deveriam apoiar as condições para eleições livres e justas, ao mesmo tempo que fortaleceriam a cooperação comercial e de segurança com Brasília.

"Temos, de fato, um superávit comercial com o Brasil, mas, mesmo assim", disse Perez, "há alguns setores com uma lacuna significativa", referindo-se aos setores de energia e agricultura.

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