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'Brasil é acontecimento antropológico': autor premiado da experiência pós-colonial lança 4 obras na Flup

Patrick Chamoiseau, escritor martinicano nascido em 1953 em Fort-de-France, é uma das vozes mais inventivas e humanistas da literatura contemporânea. Autor de obras como Texaco, Solibo, o Magnífico e Escrever em país dominado, recebeu o Goncourt, o mais prestigioso prêmio literário da França, e explora a "crioulidade", a memória antilhana e a experiência pós-colonial. Herdeiro intelectual de Édouard Glissant, ele esteve na Flup, onde falou sobre literatura, Brasil e o legado caribenho.

23 nov 2025 - 11h06
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Márcia Bechara, enviada especial da RFI ao Rio de Janeiro

Herdeiro intelectual de Edouard Glissant e um dos maiores escritores da contemporaneidade, Patrick Chamoiseau posa para a RFI ao lado do Viaduto de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro, em 21 de novembro de 2025.
Herdeiro intelectual de Edouard Glissant e um dos maiores escritores da contemporaneidade, Patrick Chamoiseau posa para a RFI ao lado do Viaduto de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro, em 21 de novembro de 2025.
Foto: © Marcia Bechara / RFI / RFI

No meio do burburinho da praça central de Madureira, em frente ao viaduto, entre o som da bateria da Nova Geração da Portela e a programação da Flup 2025 que se espalhava pelo espaço da Cufa Madureira e pelo bar Zê Ene, entre sucessivas disputas de slam, Patrick Chamoiseau, que lança quatro traduções para o português de suas obras simultaneamente na Flup (Festa Literária das Periferias), falou à RFI, depois da mesa que participou ao lado de Conceição Evaristo na sexta-feira (21). O ambiente não poderia ser mais legítimo ou mais propício para discutir alguns de seus temas centrais, como a crioulidade e o pós-colonialismo.

Instigado a comentar a célebre frase de Machado de Assis, na qual o escritor brasileiro distinguia entre um "Brasil real", que apreciava, e um "Brasil oficial", que detestava por ser caricatural, Chamoiseau reagiu de imediato: "Ah, sim, claro". O grande relato colonial minorou a África, os povos ameríndios, o mundo vivo. Só contou a presença ocidental. Mas o real do Brasil é mil vezes mais complexo do que essa realidade oficial".

A força do real X discurso colonial

Para Chamoiseau, é justamente por se aproximar dessa complexidade que a literatura se torna revolucionária: "A literatura vai em direção ao real. O real é todas as possibilidades, todas as histórias individuais, todas as presenças africanas, europeias e ameríndias."

"Um escritor é um artista da linguagem. Ele produz a partir das línguas do lugar em que vive. Um escritor é também uma biblioteca", avaliou, comparando a figura do escritor a um xamã: "O escritor é como um feiticeiro. Ele enfrenta o mundo e revela dimensões do real que escapam às visões dominantes". 

"O xamã se colocava diante do real do mundo porque o Homo sapiens tinha duas possibilidades: ele vivia diante de uma realidade — uma realidade construída por uma cultura, valores, deuses, uma determinada visão do mundo. Isso gerava uma cultura, e o Homo sapiens habitava essa realidade. Mas ao lado de cada realidade cultural ou civilizatória existe o real", detalhou. 

"É uma complexidade extraordinária que o discurso colonial, essa realidade dominante, não consegue expressar", diz Chamoiseau. "O poeta percebe todas as presenças, percebe a totalidade do vivo. E quando escreve, escreve com sua biblioteca, mas também com uma poética — isto é, com a sensibilidade às presenças que o cercam. E essas presenças são humanas, claro, todos os povos brasileiros; mas também as presenças do mundo vivo. O poeta sente as outras presenças, inclusive as não humanas".

O Brasil é um acontecimento antropológico. É um surgimento antropológico: um novo povo, um povo-nação que aparece dentro do processo colonial.

"Normalmente, quando chega a colonização, existem povos originários, povos indígenas. Mas nas Américas, esses povos foram profundamente desestruturados; depois houve a convergência de africanos, europeus e imigrantes vindos de todas as partes do mundo. Isso criou uma espécie de magma antropológico, e desse magma emerge algo que chamamos de crioulidade", explica. 

"Crioulidade" brasileira

Para Chamoiseau, "a mistura é a criolização, mas existe uma criolidade brasileira, assim como há uma criolidade venezuelana, cubana, martinicana". "A crioulidade é o resultado de histórias diferentes que se cruzaram, se misturaram e produziram o real brasileiro. A realidade brasileira é moldada pelo discurso colonial oficial, mas o real brasileiro é toda essa diversidade que se mesclou e gerou algo novo", afirma o escritor.

"Diáspora" X "metáspora"

O escritor martinicano afirma que "não podemos dizer que os descendentes de africanos formam uma diáspora". "A diáspora, tradicionalmente, dizia respeito a pessoas que deixavam seu país, viviam exiladas, enviavam dinheiro para a terra natal, e cujo único desejo era voltar. O sujeito da diáspora permanece ligado aos velhos laços de origem. Na metáspora, os africanos que vieram, os europeus, os asiáticos — todos eles se enraizaram, se transformaram, passaram por mutações antropológicas. O brasileiro nasce desse encontro. Em todas as Américas há uma metáspora: uma metáspora europeia, africana, asiática — e também as sobrevivências ameríndias que resistiram", sublinha o intelectual antilhano.

Para Patrick Chamoiseau, as Américas compartilham um conjunto de experiências que moldaram povos crioulos de maneiras distintas, mas interligadas. Durante sua passagem pela FLUP, o escritor destacou que "cada lugar desenvolve uma forma própria de criolicidade: a criolicidade brasileira não é a mesma que a martinicana, mas há pontos em comum entre Brasil e Martinica". Ele lembra que as favelas brasileiras, formadas por populações negras excluídas das cidades coloniais, encontram paralelos diretos em territórios populares da Martinica, Guadalupe, Trinidad e Jamaica. "Quando observamos o surgimento antropológico brasileiro, vemos algo que se aproxima muito do que aconteceu nas Américas, inclusive da Martinica. Não é igual, mas é muito parecido", afirma.

Apesar dessas proximidades históricas, Chamoiseau insiste que não se trata de equivalências simplistas. Para ele, o Brasil se distingue por sua própria dinâmica interna, marcada por múltiplas origens e influências. "O Brasil não é uma essência fixa", diz. "É um povo composto, formado por fontes culturais do mundo inteiro e que existe em uma escala global." Essa condição, segundo o escritor, traduz-se em um "devir-mundo": um movimento pelo qual o país se aproxima da complexidade planetária, da mesma forma que outros povos do mundo caminham para estados de interconexão e mistura.

Essa leitura, que coloca o Brasil como um espaço de convergência cultural profunda, tem impacto direto na maneira como Chamoiseau vê o diálogo literário entre as nações. "A literatura martinicana precisa conhecer a literatura brasileira", defende. Para ele, a produção literária do país pode servir de referência para que outros povos também se tornem "povos-mundo". "O Brasil já é, de certo modo, um povo-mundo", conclui o autor.

Patrick Chamoiseau apresentou ao público brasileiro durante a Flup três novos títulos traduzidos e publicados pela Editora 34 — O contador, a noite e o balaio, Contos dos sábios crioulos e A matéria do sonho — além de um lançamento pela Bazar do Tempo - Escrever em país dominado - dentro do projeto Arquipélago Glissant da Temporada França-Brasil de 2025. Os livros reforçaram a ponte entre Caribe e Brasil, trazendo à cena literária nacional a força da crioulidade e da imaginação pós-colonial que marcam sua obra.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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