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A missão divina da principal defensora dos santos brasileiros

23 mai 2011
08h16
atualizado às 08h20
Simone Sartori
Direto de São Paulo

Dos seus 84 anos de idade, a maior referência brasileira na causa dos santos, a irmã Célia Cadorin, viveu 23 deles em Roma, trabalhando como postuladora de Madre Paulina e, na sequência, do Frei Galvão. Nesse período, com a ajuda de seus vice-postuladores, ela conseguiu uma proeza: a canonização de ambos em um intervalo de cinco anos (Madre Paulina, em 2002, e Frei Galvão, em 2007). A canonização deu novo fôlego para a fé católica no Brasil que, até então, era pródiga de santos. Postulador atua como uma espécie de advogado da causa.

Irmã Célia foi postuladora dos dois únicos santos brasileiros, Madre Paulina e Frei Galvão
Irmã Célia foi postuladora dos dois únicos santos brasileiros, Madre Paulina e Frei Galvão
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

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Ela tem consciência da importância de seu papel, mas faz questão de dizer que não encarou as causas como um conjunto de responsabilidades para cumprir as várias etapas que requer um processo de canonização. "Eu não era ainda postuladora quando um dia acordei com a palavra 'missão' na cabeça. A palavra se repetiu mais duas vezes ('missão, missão') e eu entendi que era muito maior do que apenas um trabalho", conta ela, que assumiu a primeira causa, a de Madre Paulina, em 1982, aos 55 anos.

Neta de italianos, irmã Célia viveu uma experiência diferente durante o processo de canonização da primeira santa brasileira. Ela mesmo serviu de testemunha para a causa. "Conheci Madre Paulina ainda garotinha e recebi três bênçãos". Irmã Célia faz parte da Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, fundada por Madre Paulina, a quem defende com vigor ao ouvir que a santa não seria a primeira genuinamente brasileira. "Ela chegou ao Brasil com 9 aninhos e naquele tempo não havia a possibilidade de se naturalizar. Viveu toda a sua trajetória aqui, fez suas obras, não tem como não dizer que ela não era brasileira".

Durante quase duas horas de conversa em seu escritório, a freira conta em detalhes de todo o processo de canonização de Madre Paulina e Frei Galvão, exibe anotações, documentos, fala sem consultá-los. "Frei Galvão tem um registro de 23.929 graças antes de se tornar santo". Diante do inevitável espanto pelo número, ela pega um livro de capa vermelha de inúmeras páginas. "Olha aqui, veja, 23.929 graças. O primeiro registro é de 1931".

Memória religiosa do País
Com uma memória aguçada, a religiosa cita data, hora e diálogos com bispos, padres, médicos, historiadores, sacerdotes e profissionais envolvidos em uma causa. Dos 14 encontros com o papa João Paulo II, ela revela o humor do pontíficie beatificado em 1º de maio. "Ele me chamava de Paolina Galvao", uma fusão dos nomes de Madre Paulina e Frei Galvão.

"O postulador tem que viver em Roma para acompanhar a causa de perto, responder dúvidas e correr atrás do que for preciso, a pedido da Congregação dos Santos. Às vezes, temos que voltar ao Brasil para acompanhar o trabalho dos vice-postuladores. Atravessei o Atlântico 60 vezes nesse período", conta.

Atualmente, ela vive no bairro do Ipiranga, em São Paulo, na Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, e não cogita voltar a atuar como postuladora, embora participe como colaboradora de várias causas. "Temos de 60 a 70 causas em andamento no Brasil. Estou escrevendo a biografia do padre Donizetti (servo de Deus, primeiro estágio do processo de canonização), também acompanhei o início da causa da irmã Dulce. Tem também a causa da irmã Benigna, mas essa deve começar só no segundo semestre", afirma ela, destacando a importância da beatificação da irmã Dulce.

"A beatificação é um grande momento de evangelização. Para o povo cristão, a beatificação da irmã Dulce tem um significado muito grande, é um despertar da fé. Um despertar que motiva um olhar para os pobres, para os doentes, para os excluídos. Ninguém quer viver como pobre", diz.

Indagada sobre seus hábitos costumeiros, ela revela não ter "cansaço mental" e que trabalha todos os dias conferindo informações, checando dados sobre as causas, com exceção dos domingos. "No domingo eu só rezo, o dia inteiro. E às vezes assisto futebol". Qual o seu time, irmã Célia? "Ah, time não importa", sorri. E filmes, a senhora assiste? "Não gosto de filmes. Isso tudo aqui (aponta os documentos em cima da mesa) já é um filme".

Terra

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