A macabra lenda soviética que inspirou o 1º sucesso internacional do diretor de 'O Agente Secreto'
Curta-metragem de Kléber Mendonça Filho de 2004 levou o diretor brasileiro à sua primeira participação como autor no Festival de Cannes no ano seguinte.
Hoje aclamado como um dos maiores cineastas em atividade, com seu filme O Agente Secreto indicado para quatro categorias no Oscar, o pernambucano Kleber Mendonça Filho vivia como jornalista e atuava como crítico de cinema no Jornal do Commercio, do Recife, quando resolveu transpor para o universo brasileiro uma assustadora lenda urbana soviética.
Vinil Verde, curta-metragem realizado em 2003 e lançado no ano seguinte, possibilitou a Mendonça sua primeira participação como autor no propalado Festival de Cannes — integrou a seleção da Quinzena dos Realizadores, na edição de 2005.
"O filme ganhou dezenas de prêmios e nunca deixou de ser visto nesses 20 anos", afirma o cineasta, em nota enviada sobre o filme para a BBC News Brasil.
Ambientada em um apartamento recifense, a macabra trama conta a história de uma menina que ganha da mãe uma caixa cheia de antigos discos de vinil com músicas infantis.
O presente vem com uma ordem: todos podiam ser ouvidos, exceto o de cor verde. Toda vez que a garotinha desobedece a determinação, sua mãe sofre uma consequência assustadora.
O filme é elogiado não só pela história em si, mas principalmente pela construção da narrativa. Vinil Verde foi concebido e executado como uma montagem de fotos feitas por Mendonça.
No total, foram utilizados seis rolos de filme colorido de 36 poses para a produção. Ele diz que suas inspirações foram o curta-metragem francês La Jetée, lançado pelo cineasta Chris Marker (1921-2012) em 1962, e o filme Jugular", de 1998, da brasileira Fernanda Ramos.
"O uso de fotos narrativas me atrai até hoje", ressalta Kleber.
Ideia ucraniana
Quem aproximou o brasileiro do assustador enredo de uma lenda urbana soviética foi uma cineasta ucraniana, Bohdana Smyrnova.
Conforme o texto O Lado Cineasta do Crítico de Cinema, matéria publicada pelo Jornal do Commercio em fevereiro de 2003, Smyrnova e Mendonça haviam se conhecido no ano anterior, em festival de cinema realizado em Belo Horizonte — na qual ela participara exibindo seu curta Les Démarches des Papiers e ele, como jornalista. Dali, engataram um relacionamento.
O jornal conta que "no último fim de semana" as filmagens haviam se iniciado e que o trabalho era "codirigido por Mendonça Filho e sua namorada, a cineasta e roteirista ucraniana".
"Eu conheço essa história desde a infância, porque é aquele tipo de história que as crianças contam umas para as outras", conta Smyrnova, em conversa com a BBC News Brasil. Ela atualmente mora em Nova York, nos Estados Unidos.
"O Kleber queria filmar alguma coisa [de terror], e eu comentei que tinha várias histórias assustadoras [no universo eslavo]. Apresentei este gênero para ele e escolhemos esta [trama]", recorda ela, que guarda em seus arquivos a cópia digitalizada da edição do Jornal do Commercio em que aparece ao lado do então namorado brasileiro.
No universo soviético, havia variações para a lenda. Mas geralmente envolvendo um disco verde que jamais poderia ser ouvido. Em geral, o tom carregava fundo moralista. Algo do tipo: olha só o que acontece com quem não obedece as regras.
Terra natal da cineasta, a Ucrânia foi um dos membros fundadores da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1922 e fez parte do Estado socialista até sua dissolução, em 1991.
Há uma outra camada a ser considerada na semântica de uma lenda urbana soviética de terror em que o objeto central é um disco de vinil.
No auge do regime totalitário russo, quando músicas ocidentais eram restritas, um grupo de pessoas conhecidas como stilyagi ("estilosos", em tradução para o português) passou a usar chapas descartadas de exames de raio-X como matéria-prima para prensar discos piratas.
O acabamento circular era feito com tesourinha de manicure e um cigarro aceso produzia o furinho central. O som ficava ruim, mas dava para ouvir. Como as chapas tinham imagens de ossos de pacientes, o aspecto final tinha aparência um tanto mórbida — algumas crianças se abalavam com aquelas cenas dos pais botando na vitrola um disco esquisito assim.
Conforme o cineasta Mendonça contou em entrevista concedida em 2018 à jornalista e letróloga Maria de Lourdes Guimarães, para um trabalho de pós-graduação apresentado por ela na Universidade de São Paulo, ele particularmente estava interessado em histórias desse tipo.
Em 2002, havia feito um curta chamado A Menina do Algodão, a partir da lenda urbana de uma assombração que supostamente frequenta banheiros de escolas públicas — versão parecida com a lenda da "loira do banheiro", conhecida em algumas regiões do Brasil.
Segundo Mendonça, foi por causa disso que a ucraniana acabou lhe falando sobre o conto popular soviético.
Ele comentou que havia várias versões para a lenda urbana, já que "era passada de boca em boca por crianças".
"Acho que a história original que eu ouvi era com luvas verdes [em vez de discos verdes]. A gente terminou fazendo uma mistura: colocamos o disco verde de vinil e, na parte final, entram as luvas", explicou.
Uma versão dessa fábula popular, com discos verdes mas ligeiramente diferente do enredo do curta-metragem, aparece no livro russo Folclore Infantil Assustador, uma coletânea de aterrorizantes histórias de domínio público reunidas pelos escritores Andrei Usachev e Eudrado Uspensky (1937-2018), publicada na Rússia em 1992.
Equipe enxuta
Na entrevista sobre o filme que Mendonça deu em 2018 ele comentou o que se lembrava do processo de produção da obra. "[…] Eu escrevi o filme com Bohdana Smyrnova e passei pelo processo de realização do filme, que foi tudo muito simples, com uma microequipe", afirmou, citando o cineasta Daniel Bandeira e as duas atrizes, mãe e filha (na vida real e no filme), Verônica Alves e Gabriela Souza.
"Eu fotografei o filme no apartamento delas", ressaltou.
Smyrnova ficou apenas três meses no Brasil em 2003. "Foi quando concebemos o projeto", diz ela. Depois, voltou para Kiev, na Ucrânia, onde vivia na época. Mendonça então criou um pequeno time para terminar o filme.
O cineasta Bandeira foi chamado para ser seu braço-direito na edição e na montagem. Eles já haviam trabalhado juntos em A Menina do Algodão.
"A ideia do roteiro era dele. Eu ficava com a parte mais técnica, de pensar como é que a ideia poderia ser executada, como a inspiração poderia ser traduzida", relembra Bandeira, em conversa com a BBC News Brasil.
"Eu não só procurava soluções técnicas para aquilo que o Kleber concebia como também tentava dar possibilidades, soluções, alternativas para que ele pudesse incorporar em sua própria narrativa."
Como produtora executiva, foi contratada a artista visual e psicanalista Isabela Cribari. À BBC News Brasil ela conta que "como a maioria dos filmes independentes e de baixo orçamento", o trabalho foi feito em duas etapas. Primeiro, a produção e a filmagem. Depois, a tarefa de "transformar aquele material em filme e distribuí-lo".
"Foi nessa segunda etapa que Kleber me convidou para compor a equipe", diz ela. "E eu gostei muito da proposta dele de fazer um filme de 35 milímetros, na época da hipervalorização do 35 milímetros como algo superior aos outros formatos, a elite mesmo, mas com um humor muito próprio do Kleber."
Para a trilha, Mendonça encomendou um trabalho para o músico Silvério Pessoa, pedagogo e professor na Universidade Católica de Pernambuco.
"Tivemos uma longa conversa na qual ele me explicou a história. Eu criei uma música com pegada, que criasse uma atmosfera de expectativa", afirma à BBC News Brasil. "Precisei de tempo para escrever e reescrever. Ficou uma coisa soturna."
A canção se chama Luvas Verdes. De uns três anos para cá, Pessoa passou a incorporá-la em seu repertório autoral, executando-a em apresentações. "Ficou tenebrosa, sinistra, intensa. Tem clima, é quente", diz o compositor.
Significados
Tudo ficou pronto em 2004, e o filme foi lançado no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, em setembro. Faturou prêmios no festival de Brasília daquele ano e no de Recife do ano seguinte. Foi selecionado para Cannes.
Para a especialista Gisele Jordão, coordenadora do curso de cinema e audiovisual da Escola Superior de Propaganda e Marketing, nesse curta já havia elementos que apontavam para a qualidade do trabalho posterior de Mendonça.
Ela destaca a "confiança no dispositivo" — com poucos personagens, espaço delimitado e um objeto central — e a habilidade de construir atmosfera "por meio de enquadramentos, duração dos planos e desenho de som".
"Vinil Verde insere o cotidiano como lugar de perturbação, sem recorrer a elementos externos espetaculares", acrescenta Jordão.
O site cultural francês SensCritique classificou o filme como "bastante incomum em todos os sentidos, modesto e formidável em sua abordagem" e pontuou que a obra marcou "o início de uma relação duradoura entre o festival [de Cannes] e o diretor".
Em reportagem do ano passado, o site francófono especializado em festivais de cinema Accréds se lembrou desse antigo curta de Mendonça ao contar a história da "perna cabeluda", a lenda urbana retratada em O Agente Secreto.
"Uma lembrança de que um dos primeiros amores do diretor foi o cinema de terror, como visto em seu curta-metragem Vinil Verde", pontuou.
Mais do que ambientar o universo mítico soviético no colorido e quente Recife, Mendonça criou novas possibilidades semânticas.
Se a lenda urbana original trata da dicotomia entre a obediência e a culpa por desobedecer, Vinil Verde é uma obra sobre o amadurecimento — a criança que cresce e, gradualmente, mata a presença materna.
Bandeira acredita que a universalidade do filme está justamente na percepção de que as relações entre as gerações são assim: os pais vão "sumindo um pouco" à medida que "os filhos vão crescendo".
"É uma inquietação e um medo. Mas que também nos conecta com a experiência humana, com aquelas pessoas que vieram antes de nós e com aquelas que virão depois. A gente carrega e passa para a frente os medos e as angústias", afirma.
Tudo isso com a cara local. "Ele adaptou para o vinil dos disquinhos coloridos que fizeram parte de uma época no Brasil e foi fácil a identificação das pessoas", comenta a produtora Cribari.
"E também ninguém tem nome. Ser mãe, ser filha, isso leva as pessoas para o filme, que não se passa num reino distante. Somos nós, com toda a nossa ambiguidade ali. Talvez seja esse o terror do filme."
Estudiosa da obra de Mendonça, a linguista Marcella Wiffler Stefanini, pesquisadora na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), analisou o curta em artigo científico.
Para ela, "a desobediência da filha pode ser interpretada como uma luta feminista por autonomia e independência, marcada pela recusa em seguir os passos da mãe e a tentativa de trilhar seu próprio caminho, sem as amarras das gerações passadas".
A especialista Jordão vê a obra transitando entre medo, proibição e controle. "O curta transforma uma situação simples, a proibição de ouvir um disco, numa fábula sobre controle, curiosidade e transgressão", analisa. "A proibição não só limita a ação da criança, como organiza o desejo e o medo."
Na entrevista à pesquisadora Guimarães, Mendonça comentou que quando escrevia o texto para a narração do filme, "de próprio punho", se deu conta de que a história era sobre a ausência da mãe. No caso, sua própria mãe, que havia morrido há pouco. "Foi aí que eu entendi, de maneira muito forte, que o filme era sobre esse processo de perda, que não é fácil", comentou.
"É uma lenda urbana que causou uma impressão muito forte no Kleber. Porque lenda urbana é isso: é a expressão real da cultura e da alma de um povo em um certo momento", analisa o editor e montador Bandeira.
"E ele acabou fazendo um ponte entre Recife e Kiev, contando a história por meio da cor e da temperatura recifenses."