Brasil nunca teve virada no 2° turno da eleição presidencial
Após terminar o primeiro turno de 2026 atrás de Flávio Bolsonaro, Lula enfrenta um histórico desfavorável: desde a redemocratização em 1989, o Brasil nunca registrou virada no segundo turno presidencial. Embora o PT e outros partidos já tenham tentado reverter desvantagens na rodada final sem sucesso, disputas estaduais mostram que reviravoltas são possíveis em menos de um terço dos casos, frequentemente impulsionadas pela exploração da alta rejeição dos adversários.
Histórico desde 1989 é desfavorável para candidatos como Lula, que terminou 1° turno em 2° lugar. Mas algumas eleições estaduais mostram que explorar rejeição de adversário pode ajudar numa virada.O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o primeiro turno da eleição presidencial de 2026 com uma desvantagem de 2,2 milhões de votos em relação a Flávio Bolsonaro (PL), ou de 1,9 pontos percentuais. Além de ficar atrás de Flávio, Lula ainda perdeu 3,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno de 2022, quando ficou à frente de Jair Bolsonaro, pai de Flávio.
Lula que vai enfrentar Flávio novamente no segundo turno, marcado para 25 de outubro, conclamou nesta segunda-feira (05/10) aliados a buscarem mais votos entre os 33,4 milhões de eleitores que não foram votar na primeira rodada.
Apesar de Lula ainda contar com a influência da máquina pública e manter um piso eleitoral alto, o histórico das eleições presidenciais desde a redemocratização não é favorável para quem acaba o primeiro turno na segunda colocação.
Desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas - e estreou o mecanismo de segundo turno -, nunca houve uma reviravolta na corrida ao Planalto entre um turno e outro. Essa foi a regra em todas as sete disputas presidenciais que tiveram segundo turno entre 1989 e 2018. Mesmo em disputas estaduais o histórico não é exatamente favorável (leia mais abaixo).
Tanto o PT quanto os bolsonaristas não conseguiram forçar viradas
Em pouco mais de 30 anos, o próprio PT fracassou duas vezes em tentar forçar uma reviravolta na disputa presidencial. No primeiro turno de 1989, Lula ficou 13,3 pontos atrás do rival Fernando Collor. Entre os dois turnos, Lula conseguiu crescer 29,8 pontos percentuais, mas ainda assim acabou perdendo a votação final para Collor por seis pontos de desvantagem.
Em 2018, foi a vez de Fernando Haddad passar pela mesma dificuldade. O petista, que substituiu Lula pouco menos de um mês antes do primeiro turno, terminou 16,75 pontos atrás de Bolsonaro na primeira rodada. No segundo turno, Haddad cresceu, mas ainda assim terminou pouco mais de dez pontos atrás de Jair Bolsonaro.
O próprio Lula já esteve do outro lado dessa equação, quando, na oposição, terminou o primeiro turno à frente do então presidente Jair Bolsonaro (PL) no pleito de 2022. À época, apesar de Jair Bolsonaro instrumentalizar a máquina pública com programas e medidas eleitoreiras, a eleição ainda terminou favorável a Lula no segundo turno.
Na primeira rodada daquela eleição, Jair Bolsonaro havia ficado com uma desvantagem de 6 milhões de votos em relação a Lula, ou 5,23 pontos percentuais. No segundo turno, apesar de intensa mobilização de sua base, o então presidente terminou atrás por 1,8 ponto, ou 2,14 milhões de votos - na que foi a eleição mais apertada do Brasil desde a redemocratização.
Com o resultado, Jair Bolsonaro também se tornou o primeiro presidente no poder a perder uma disputa pela reeleição desde que o mecanismo foi instituído em 1998.
Disputas anteriores também já haviam evidenciado a dificuldade, em graus variados, de virar a desvantagem entre um turno e outro.
Os candidatos José Serra em 2002 e 2010 e Geraldo Alckmin em 2006, acabaram perderam a rodada final para candidatos do PT por diferenças de dois dígitos. Alckmin, por sua vez, conseguiu em 2006 um feito negativo que até hoje não foi repetido: perder votos entre o primeiro e o segundo turno.
Aécio Neves (PSDB), por sua vez, se saiu um pouco melhor em 2014, mas ainda assim fracassou. À época, graças a um forte impulso nos dias que precederam o primeiro turno, ele chegou inicialmente na segunda rodada oito pontos atrás de Dilma Rousseff (PT), que concorria à reeleição.
Em uma campanha acirrada no segundo turno, marcada pela interferência da Lava Jato, Aécio conseguiu diminuir significativamente a desvantagem, mas ainda assim acabou derrotado por Dilma por uma diferença de apenas 3,2 pontos.
Nos estados, só um terço das disputas de 2° tiveram reviravoltas
Reviravoltas em disputas para os governos estaduais, embora não sejam inéditas, apresentam um histórico numericamente desfavorável para quem termina o primeiro turno na segunda colocação.
Entre 1990 e 2022, o Brasil foi palco de 120 eleições estaduais que tiveram uma rodada extra de votação, após nenhum candidato superar a marca de 50% dos votos válidos no primeiro turno. Em todas essas 120 eleições estaduais com segundo turno entre 1990 e 2022, só houve registro de reviravolta em 35 disputas - ou 29% do total.
Algumas dessas disputas se tornaram famosas. Em 1994, Eduardo Azeredo (PSDB) terminou o primeiro turno da disputa pelo governo de Minas Gerais 21,1 pontos atrás de Hélio Costa (PP). No segundo turno, com apoio do então governador Hélio Garcia (PTB) e embalado pelo sucesso do Plano Real, que turbinou candidaturas do PSDB país afora, Azeredo virou a eleição e venceu com vantagem de 17,5 pontos.
Em 1990, Paulo Maluf (PDS) terminou o primeiro turno em São Paulo com 43,5% dos votos e vantagem de 15,3 pontos sobre o segundo colocado, Luiz Antônio Fleury (PMDB). No segundo turno, Fleury explorou a alta rejeição registrada por Maluf e recebeu os votos do eleitorado de candidatos antimalufistas derrotados na primeira rodada. Fleury acabou praticamente dobrando sua votação entre um turno e outro, derrotando Maluf por 3,6 pontos de vantagem.
Em ciclos eleitorais mais recentes, 2018 foi palco de 14 disputas de segundo turno, mas com apenas duas viradas, em Rondônia e Santa Catarina, cujas eleições locais foram atípicas ao catapultarem candidatos praticamente desconhecidos que surfaram na onda bolsonarista que tomou o ciclo eleitoral daquele ano. Em 2022, foram quatro viradas: Mato Grosso do Sul, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Sergipe.
Em desvantagem, governador Covas transformou 2° turno de 1998 em comparação sobre caráter
Entre as 35 viradas que ocorreram desde 1990, 24 ocorreram após 1998, quando foi instituído o mecanismo da reeleição. Destas, sete foram protagonizadas por governadores em busca da reeleição que haviam sofrido tropeços no primeiro turno e chegado em desvantagem ao segundo.
O primeiro caso ocorreu em 1998, no Piauí, quando o governador Mão Santa (PMDB) terminou a primeira rodada com 3,16 pontos de desvantagem em relação ao primeiro colocado, mas virou por pouco no segundo turno, ficando à frente por 1,92.
Já o caso mais célebre de uma virada envolvendo um ocupante de executivo estadual que entrou em desvantagem no segundo turno ocorreu em São Paulo, em 1998. O então governador Mário Covas (PSDB), que era aprovado por apenas 24% dos paulistas, chegou ao segundo turno 9,3 pontos atrás do desafiante Paulo Maluf (PPB).
Covas também havia chegado por pouco no segundo turno, ficando apenas 0,44 ponto acima da terceira colocada, Marta Suplicy (PT). Para piorar, as pesquisas divulgadas logo após o primeiro turno indicavam que Maluf também aparecia à frente na preferência dos eleitores na segunda rodada.
Determinado a derrotar Maluf, Covas contrariou seus marqueteiros - que preferiam focar em realizações e planos de governo - e transformou o embate do segundo turno em uma comparação sobre o caráter dos dois candidatos.
"Eleição de governador não é nomeação de gerente. A briga agora vai ser política e moral", disse Covas à época. Nas três semanas do segundo turno, ele explorou as antigas ligações de Maluf com a ditadura, suas declarações controversas e sua bagagem de escândalos. Num debate cujos trechos ainda circulam em redes sociais, Covas disse que o "telespectador quer ver discussão de caráter, quer comparar os candidatos do ponto de vista da história de cada um, do que cada um fez ao longo da sua vida política". Covas buscou ainda apoio de políticos do PT e do PSB, que estavam à esquerda do PSDB.
Contados os votos no segundo turno, o então governador Covas acabou superando Maluf no segundo turno por uma vantagem superior a 10 pontos. O marqueteiro de Maluf, Duda Mendonça, admitiu que a estratégia de Covas de explorar a rejeição de Maluf foi certeira. "Não foi o Covas que ganhou, mas Maluf que perdeu para Maluf", disse ele após a eleição.
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