Brasil ainda é um dique de contenção das pretensões intervencionistas de Donald Trump nas Américas
Vitória de Flávio Bolsonaro pode manter o Brasil preso a um modelo de extrativismo que já faz parte da história do país desde a chegada dos portugueses
O Brasil atua como um raro dique contra o intervencionismo de Donald Trump na região. Contudo, a possível eleição de Flávio Bolsonaro pode alinhar o país a Washington via "realismo periférico", aceitando a subordinação geopolítica. Esse movimento arrisca a soberania nacional ao abrir espaço para o plano militar Escudo das Américas, enfraquecer a indústria em prol do agro e limitar a atuação do Brasil na corrida da Inteligência Artificial a mero fornecedor de recursos naturais para Big Techs.
No domingo, os brasileiros voltam às urnas para o segundo turno das eleições presidenciais. E essa é uma eleição importante não apenas para o país, mas também para a região e para o mundo, porque o Brasil acabou se tornando, para as Américas, um bastião de resistência. No contexto regional, o Brasil, ao lado de Canadá e México, é um dos poucos países que não sucumbiu às ingerências e tentativas de interferência de Donald Trump.
Escalada da extrema direita
O Brasil ainda é um dique de contenção para a imposição de pautas que, invariavelmente, vão contra interesses amplos das sociedades locais, mas agradam aos interesses de determinadas elites domésticas. Portanto, é nesse contexto que devemos pensar a eleição brasileira no bojo de outros processos eleitorais no mundo democrático.
Há muitos líderes trumpistas chegando ao poder nos últimos tempos no continente. A revista britânica The Economist fez uma estatística descritiva para tentar captar a tendência. Segundo a publicação, em 2023 havia dois ou três presidentes alinhados a Trump na região. Hoje já são 11. Se eleito, Flávio Bolsonaro seria o 12º. O alinhamento das Américas do Sul e Central à Casa Branca é incontestável.
Realismo periférico
Uma corrente teórica das Relações Internacionais que tenta explicar esse fenômeno é a do realismo periférico. Segundo ela, ao serem realistas no diagnóstico de que possuem poucos recursos e pouca capacidade econômica, militar, institucional ou diplomática, os países assumem uma condição de subordinação. Ou seja, tentam se tornar apenas um vagão da locomotiva Estados Unidos. Há gente teorizando nesses termos, hoje em dia, na Colômbia e na Argentina. O pensamento que prevalece no entorno de Flávio Bolsonaro também parece se aproximar do realismo periférico. Publicamente simpático a Donald Trump, o próprio candidato já disse em comícios que, se eleito, vai aderir ao Escudo das Américas "para combater o narcoterrorismo".
Alguns artigos e peças da campanha de Flávio Bolsonaro já mostram claramente isso. Então, caso haja uma mudança da guarda, com o desafiante vencendo o incumbente no Brasil, a tendência é que o país passe a fazer parte desse comboio de países alinhados à Casa Branca. Assim como se vê claramente nos casos de Argentina e Colômbia, respectivamente, segundo e terceiro maiores países da América do Sul.
O realismo periférico é, portanto, a ideia de se aceitar a condição periférica e agir do modo mais pragmático, naturalizando a submissão aos interesses do país mais poderoso. Com isso, abre-se mão do conceito de igualdade soberana entre os povos, que é um pilar do Direito Internacional Público, para se reconhecer a assimetria entre as nações e tentar, a partir daí, extrair alguma vantagem.
O problema é que essas vantagens são, quase invariavelmente, direcionadas à elite dominante do país submisso. A sociedade, de modo geral, acaba tendo que arcar com o custo dessa opção de política exterior. E não se trata de uma teoria que esteja sendo inventada agora; ela já tem um histórico. Nos anos de 1990, por exemplo, havia um famoso teórico argentino, Carlos Escudé, mentor do presidente Carlos Menem, que defendia essa corrente teórica.
Há outros exemplos ao longo da história. A Costa Rica, por exemplo, não tem exércitos. É um caso clássico, já que a instanciação da soberania, no fim das contas, é ter forças armadas, que vão proteger o território e a população. O país abre mão disso e entrega para os Estados Unidos a função de segurança. Essa é a lógica do realismo periférico.
Projeção de cenários
No caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro no próximo domingo, acredito que um dos primeiros passos seria a adesão do Brasil à iniciativa do Trump chamada Escudo das Américas, que é uma aliança sob o pretexto de combate ao crime organizado nas Américas. Com isso, abre-se o território para intervenção externa em áreas conexas à segurança internacional.
No campo econômico, a julgar pela pela composição da coalizão que dá apoio ao Flávio Bolsonaro — o mercado financeiro e o agro são os principais —, tenderá a haver uma redução do processo de reindustrialização do nosso país. Esses dois setores receberiam certamente mais atenção e a indústria, que é uma das ênfases do presidente Lula, padeceria.
Estou projetando algo apenas com base no que vejo ao redor, porque o plano de governo de Flávio Bolsonaro é lacunar, para usar um eufemismo. Não tem nada de muito concreto nele - o que o embala, de fato, é o antipetismo.
Outro ponto importante seria uma maior presença de grandes plataformas tecnológicas estrangeiras no país. Atualmente, há uma contenção sendo feita, especialmente pelo Supremo Tribunal Federal, mas essas empresas certamente encontrariam mais espaço, menos impedimento para atuar no mercado brasileiro.
Essa tendência já está desenhada no horizonte, com o argumento em favor de liberdade de expressão e a invocação de liberdades individuais, que claramente atendem a uma solicitação dessas grandes plataformas. Isso já aconteceu nos Estados Unidos, com Donald Trump dando a Elon Musk um cargo no governo, além de fazer vários acenos para os magnatas das Big Techs.
Revolução da IA
Existe um artigo recente, publicado na Gazeta do Povo por Marcos Degaut, um professor de Relações Internacionais que participou dos governos Temer e Jair Bolsonaro, e Lindolpho Cademartori, diplomata que pertence ao círculo do Flávio Bolsonaro, mostrando um pouco do que vai ser o mapa do caminho.
Segundo Degaut e Cademartori, vivemos a Revolução da Inteligência Artificial, que é comparável à Revolução Industrial dos séculos 18 e 19. Trata-se de uma nova revolução no modo de produção, na sociabilidade, em todas as áreas da vida humana. E, neste momento, as alianças internacionais estão sendo redesenhadas em função disso.
Os Estados Unidos têm uma liderança no segmento da Inteligência Artificial, da robótica, da tecnologia mais avançada, seguidos pela China. Como o Brasil não tem condições efetivas de entrar nessa disputa da soberania digital - segundo o raciocínio dos autores -, deveria se alinhar com os Estados Unidos, que seriam mais confiáveis do que a China.
Nesse tópico, Donald Trump já tem dado sinais de que quem não estiver com os Estados Unidos, vai estar contra. Ele chegou a determinar, inclusive, que os modelos mais avançados de IA da empresa Antropic (especificamente o Claude) não poderiam ser utilizados pelo resto do mundo, apenas por empresas e cidadãos norte-americanos, com o argumento de que se trata de uma questão de segurança nacional. No fundo, é só a política de atrasar ou impedir o desenvolvimento tecnológico chinês sendo posta em prática.
O argumento de Degaut e Cademartori é o de que, se o Brasil não se alinhar aos Estados Unidos, ele não vai ter acesso à Revolução da IA. Ficará segregado. Apartado do mundo. Mas como o Brasil contribuiria com essa aliança ocidental da IA? Em termos bastante retos: com água para os data centers e terras raras para produção dos metais que são necessários para fazer a revolução acontecer.
O Brasil se manteria, mais uma vez, como um provedor seguro de minerais críticos e recursos hídricos. A fórmula de sempre, só que digitalmente repaginada. São as Big Techs encontrando o realismo periférico para manter o Brasil preso a um modelo de extrativismo que conhecemos bem há 500 anos.
Dawisson Belém Lopes não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.
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