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Berlim vai às urnas com disputa acirrada entre forças antagônicas

18 set 2026 - 15h51
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Resumo
Em uma eleição imprevisível e polarizada, Berlim define seu novo parlamento sob forte divisão entre o partido A Esquerda, os conservadores da CDU e a ultradireitista AfD. A disputa é liderada por A Esquerda e CDU, cujos novos candidatos enfrentam o desconhecimento popular. O pleito, marcado pela estreia do voto aos 16 anos, tem a crise de moradia como tema central, impulsionando a esquerda por defender a controversa desapropriação de grandes imobiliárias para conter os altos custos dos aluguéis.

Capital alemã terá uma de suas votações mais imprevisíveis, com esquerda, conservadores da CDU e ultradireitistas da AfD competindo pelo governo. Moradia é o tema que mais preocupa os eleitores.Berlim, uma cidade-estado de 3,9 milhões de habitantes, é conhecida por sua diversidade, mas, ao mesmo tempo, também é muito fragmentada. É uma cidade de vilarejos, onde as pessoas muitas vezes não saem de seus bairros, ou Kiez, como os berlinenses gostam de chamá-los.

Essa fragmentação também se estende ao cenário político. Enquanto os bairros centrais de Berlim têm votado recentemente nos Verdes ou no partido socialista A Esquerda, a periferia - onde, na verdade, vive a maioria dos berlinenses - é dominada pela conservadora União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita e, em certos distritos, pela ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD).

Esse quadro torna as eleições em Berlim notoriamente difíceis de prever, especialmente nos últimos anos, quando um número maior de partidos passou a disputar espaço nas placas eleitorais espalhadas pela cidade durante o período eleitoral.

Em 20 de setembro, os berlinenses elegerão o parlamento estadual, que definirá o próximo prefeito. Às vésperas das eleições, A Esquerda, a CDU e a AfD se enfrentam em uma disputa acirrada.

Na pesquisa mais recente do instituto Infratest Dimap, A Esquerda aparece com uma pequena vantagem, com 21% das intenções de voto, contra 20% da CDU e 18% da AfD. Logo atrás vêm os Verdes, com 16%, enquanto o Partido Social-Democrata (SPD, de centro-esquerda), que governou Berlim durante quase 22 anos consecutivos, registra apenas 12%.

A relativa fraqueza da AfD em Berlim significa que a situação não é tão dramática quanto no estado da Saxônia-Anhalt, onde a clara vitória da ultradireita nas eleições de 6 de setembro provavelmente tornará impossível excluí-la de uma coalizão de governo.

Ainda assim, uma vitória do A Esquerda - e mais uma derrota para a CDU do chanceler federal Friedrich Merz - transformaria a política de Berlim, onde os democrata-cristãos atualmente integram o governo, e aumentaria a pressão sobre o premiê alemão.

Conservadores veem disputa clara contra A Esquerda

O cenário político heterogêneo da capital torna a condução de uma campanha eleitoral em Berlim uma tarefa complexa, especialmente para um partido conservador como a CDU.

"Berlim é, de fato, um desafio particular", admitiu Lukas Krieger, deputado federal e secretário-geral da CDU na capital alemã, em conversa com a DW.

Krieger está em posição privilegiada para compreender as implicações nacionais das eleições regionais, já que também é membro do Bundestag (Parlamento alemão), onde a CDU ainda assimila o péssimo resultado obtido na Saxônia-Anhalt.

Ele, porém insistiu que "Berlim não pode ser comparada ao país como um todo ou à Saxônia-Anhalt".

Prestes a participar de uma reunião de análise de resultados com parlamentares da CDU, Krieger disse se manter otimista quanto à disputa em Berlim, e afirmou que está bem claro quem é o principal adversário.

"A situação está se consolidando cada vez mais como um duelo entre a CDU e o A Esquerda", observou. "A AfD em Berlim não tem possibilidade de negociar a formação de um governo. Ninguém quer trabalhar com eles. Temos um partido de esquerda muito radical em Berlim, e é por isso que dizemos: Berlim permanecerá estável, e a CDU é o único partido que garante que a cidade se mantenha no centro do espectro político."

Prefeito em maus lençóis

Outro desafio para a CDU de Berlim é lidar com o ocaso de seu atual prefeito, Kai Wegner. Ele desistiu de concorrer à reeleição após a indignação generalizada com o fato de ele ter ido jogar tênis em meio ao maior apagão ocorrido na cidade desde a Segunda Guerra Mundial.

O partido se viu forçado a arregimentar às pressas um novo candidato, o atual secretário de Finanças de Wegner, Stefan Evers.

Ele agora precisa traçar um caminho entre duas ameaças políticas muito distintas: a AfD, extremamente confiante, e o partido A Esquerda, em ascensão, ambos com perspectivas de obter ganhos significativos em relação aos resultados eleitorais das últimas eleições na cidade, em 2023.

O principal adversário de Evers é outro rosto novo: Elif Eralp, do A Esquerda, uma advogada nascida em Munique, em 1980, poucas semanas depois de seus pais fugirem de um golpe militar na Turquia.

Os berlinenses estão acostumados a candidatos a prefeito que não são nativos da cidade. O próprio Evers nasceu no estado da Renânia do Norte-Vestfália.

As pesquisas, no entanto, mostram que nenhum dos principais candidatos é particularmente conhecido. Em um levantamento recente, cerca de metade dos berlinenses disse não ter uma opinião formada sobre nenhum deles.

Cidade polarizada

O problema da CDU é que a política alemã está se tornando cada vez mais radical — como demonstrou a eleição na Saxônia-Anhalt — e observadores afirmam que isso se deve, em parte, à percepção de que os partidos de centro que governam o país falharam em apresentar novas soluções ao eleitorado.

"A questão é: vocês têm suas próprias propostas políticas? Estão tentando conquistar novos grupos?", pontuou a cientista política da Universidade de Hamburgo Julia Reuschenbach.

Ela acredita que o A Esquerda se consolidou em Berlim como a oposição mais "crível" à AfD. Isso ocorre, em parte, porque é o único partido de centro-esquerda que não está disposto a apoiar a CDU - assim como a CDU também não quer colaborar com o A Esquerda.

Os esquerdistas, porém, enfrentam suas próprias desvantagens. A legenda tem sido alvo de acusações de antissemitismo depois que um rapper, durante um evento de campanha em Neukölln - bairro berlinense onde vive grande parte da numerosa comunidade palestina da capital - gritou palavras de ordem como "morte às FDI" (se referindo às Forças de Defesa de Israel).

Eralp condenou a apresentação e prometeu uma investigação interna, mas a questão da Faixa de Gaza se tornou fundamental para os apoiadores do partido. Em junho, a legenda decidiu oficialmente considerar a ação militar de Israel no território palestino como um genocídio.

Reuschenbach, ainda assim, acredita que o ponto forte do A Esquerda é a sua capacidade de apresentar propostas políticas concretas.

"É claro que são propostas populistas", observou. "Eles formulam posições maximalistas: 'queremos socializar, queremos expropriar'. Mas é uma postura direta. Eu diria que, para muitas pessoas, A Esquerda transmite mais clareza e apresenta mais propostas próprias."

Esquerda pontuou com propostas para habitação

A especialista se refere especificamente ao que muitos consideram a reivindicação mais radical do partido, uma ideia que está no centro do debate político em Berlim há pelo menos cinco anos.

A Esquerda é o único dos grandes partidos que promete implementar o resultado de um referendo realizado em 2021, no qual 59% dos berlinenses votaram a favor da desapropriação de empresas imobiliárias que possuem mais de 3 mil unidades habitacionais na cidade, transferindo essas propriedades para o setor público.

Desde então, sucessivos governos de Berlim liderados pelo SPD, e posteriormente pela CDU, têm protelado a implementação da medida, criando comissões para debater a questão.

Kerstin Wolter, colíder do A Esquerda em Berlim e candidata nas próximas eleições estaduais, rejeita a ideia de que a desapropriação de proprietários de imóveis deva ser considerada "populista". Afinal, segundo ela, a ideia foi incluída na Constituição alemã por ocasião da fundação da Alemanha Ocidental, em 1949, embora o artigo referente à desapropriação nunca tenha sido efetivamente invocado.

Para Wolter, há uma razão pela qual a população de Berlim se "radicalizou" tanto e fortaleceu o seu partido.

"Todas as sondagens, todas as pesquisas, todas as conversas que temos diretamente com os eleitores apontam para a mesma coisa: a situação dos aluguéis é catastrófica", disse ela à DW. "As pessoas não conseguem encontrar apartamentos, têm medo de aumentos nos aluguéis e estão perdendo suas moradias porque os proprietários as reivindicam para uso próprio."

A habitação, segundo uma recente pesquisa BerlinTrend, realizada pelo instituto Infratest Dimap, é de fato, e de longe, a questão mais importante nestas eleições. Cerca de 32% dos berlinenses a apontaram como o problema mais grave da cidade; um índice muito superior aos 10% que citaram imigração e asilo, ou aos 9% que mencionaram segurança, criminalidade e terrorismo.

O papel dos jovens

Talvez contribua para essa abertura a ideias revolucionárias o fato de esta ser a primeira eleição na história de Berlim em que a idade mínima para votar foi reduzida para 16 anos, num momento em que os jovens alemães têm se politizado cada vez mais.

"Acho que muitos jovens - muito mais do que na minha época - se preocupam com questões como as mudanças climáticas e a possibilidade de conseguir um emprego", disse Wolter. "Até mesmo com as aposentadorias. Em um estande informativo, uma jovem, que parecia ter uns 14 anos, me perguntou sobre a nossa política previdenciária."

Berlim, que sempre foi uma mistura própria de conservadorismo e radicalismo, está agora também se tornando cada vez mais diversa economicamente, explicou Wolter. "Temos um número crescente de milionários em Berlim, assim como de pessoas vivendo na pobreza." Isso contribui para tornar a cidade um desafio político único.

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