Belarus está usando migração como arma de "guerra híbrida"?
Descoberta na Lituânia de mais de uma dezena de túneis usados por migrantes levanta suspeitas de que Belarus, nação aliada da Rússia, estaria facilitando fluxo para desestabilizar países vizinhos da União Europeia.Migrantes estão utilizando uma nova rota para conseguir entrar na Lituânia. E essa rota usa túneis subterrâneos escavados ilegalmente para ultrapassar as cercas que dividem o país, membro da União Europeia (EU) e da Otan, e a nação vizinha de Belarus, governada por um regime autoritário alinhado com a Rússia.
Especialistas suspeitam que a presença dos túneis pode ser uma indicação de que Belarus tem alimentado o trânsito de migrantes para fomentar instabilidade política na Lituânia e na UE.
A guarda de fronteira da Lituânia afirma ter encontrado 12 desses túneis desde o início do ano, todos próximos à fronteira com Belarus, alguns com extensões de até 25 metros no lado lituano. Suspeita-se que mais túneis existam.
A fronteira da Lituânia com a Belarus tem cerca de 700 quilômetros de extensão, dos quais aproximadamente 550 quilômetros são separados por uma cerca.
"Dispomos de um sistema sísmico de solo capaz de detectar facilmente quando há um alto nível de vibrações por um longo período", explicou à DW o general Rustamas Liubajevas, comandante do Serviço Estatal de Guarda de Fronteira da Lituânia.
"Então, aguardamos [do lado de fora do túnel] a fase final da escavação e, quando os migrantes saem, nós os detemos", disse ele, acrescentando que cerca de 40 migrantes já foram presos ao sair desses túneis.
A Procuradoria da Lituânia confirmou à DW que está em curso uma investigação preliminar envolvendo cerca de 20 pessoas suspeitas de escavar um túnel ilegalmente. Possíveis acusações incluem também tráfico humano. Devido à investigação, não são permitidas, no momento, visitas da imprensa aos locais.
Liubajevas demonstra surpresa com o fato de migrantes tentarem uma travessia subterrânea.
"É preciso muito esforço para escavar um túnel, e os migrantes são presos quase imediatamente; no máximo, um pequeno grupo consegue passar", afirmou.
O regime de Belarus está alimentando esse fluxo?
A natureza elaborada dos túneis leva Liubajevas a acreditar que os migrantes não estão agindo sozinhos.
"Eles não conseguiriam levar isso adiante sem apoio logístico das autoridades belorrussas, pois precisam de muito material, como madeira, para reforçar as paredes dos túneis", ressaltou ele, acrescentando que Belarus parece querer "manter elevado o nível de tensão na fronteira".
O ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, que está no poder desde 1994 e que mantém um relacionamento estreito com o russo Vladimir Putin, nega que seu regime esteja por trás desses fluxos migratórios para países vizinhos. Túneis de migrantes semelhantes já haviam sido descobertos anteriormente na fronteira de Belarus com a vizinha Polônia.
Margarita Seselgyte, diretora do Instituto de Relações Internacionais e Ciência Política da Universidade de Vilnius, na Lituânia, compartilha as suspeitas do general Liubajevas. "Belarus monitora sua fronteira muito de perto, e o país não faz parte da rota migratória natural de migrantes do Afeganistão, do Irã ou do Sri Lanka", disse ela à DW, acrescentando que o regime de Lukashenko deve ter, no mínimo, feito vista grossa para qualquer atividade de escavação ocorrendo perto da fronteira.
Assim, Seselgyte vê os túneis como "um ataque híbrido para gerar ansiedade em nossa sociedade".
"Não existe vácuo no campo da segurança. À medida que a Lituânia elimina vulnerabilidades e reforça a cerca em sua fronteira, Belarus agora ajuda os migrantes a passar por baixo dela", aponta.
Um problema de longa data no flanco oriental da Europa
Para a cientista política Seselgyte, o regime belarruso está auxiliando seus aliados no Kremlin. A Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, em parte a partir da Belarus, onde havia concentrado tropas sob o pretexto de exercícios militares.
"A Lituânia tem se manifestado de forma contundente sobre a defesa contra a Rússia — tanto convencional quanto híbrida — nos âmbitos da UE e da Otan, e eles querem silenciar essa voz causando caos em nosso país", disse a cientista política.
"O objetivo principal é, provavelmente, enfraquecer o apoio à Ucrânia e romper a unidade europeia", acrescentou ela.
Linas Kojala, diretor executivo do think tank Centro de Estudos de Geopolítica e Segurança, sediado em Vilnius, observou que os túneis têm o efeito de manter as forças de fronteira lituanas ocupadas — mesmo que apenas alguns poucos migrantes consigam passar.
Ele descreveu os túneis como "apenas mais uma fase do ataque de instrumentalização da migração que enfrentamos desde 2021".
Foi nessa época que dezenas de milhares de migrantes cruzaram a fronteira de Belarus para a Lituânia, a Polônia e a Letônia. À época, a União Europeia classificou os eventos como uma "instrumentalização de migrantes com patrocínio estatal na fronteira externa da UE", e acusou Lukashenko de estar por trás do fluxo.
Ainda na mesma época, as relações entre a UE e Belarus atingiram um novo ponto baixo, após os europeus se recusarem a reconhecer o resultado oficial da eleição presidencial belarrussa de 2020 por suspeita de fraude em larga escala para manter o poder de Lukashenko.
"Desde então, a Letônia, a Polônia, a Lituânia e outros países reforçaram suas fronteiras externas, e conseguimos reduzir a migração ilegal a um nível mínimo", disse Kojala à DW. Os guardas de fronteira da Lituânia registraram 1.652 tentativas de entrada irregular no país em 2025.
No entanto, esse número não cairá para zero a menos que Belarus lide com o problema do seu lado, segundo Kojala. "E isso é improvável: a Bielorrússia está claramente tentando criar o maior número possível de problemas."
Migração como ferramenta de pressão
Belarus não seria, de forma alguma, o primeiro país a utilizar a migração como ferramenta de pressão estratégica, ressalta Robert Gonzci, analista do Instituto de Pesquisa sobre Migração, sediado em Budapeste, na Hungria.
"É uma maneira de exercer pressão sobre outros países com custo e risco relativamente baixos; desde a década de 1950, houve inúmeros casos documentados de governos criando ou manipulando fluxos migratórios", diz ele à DW.
Ele acrescentou que até mesmo o Império Assírio — que entrou em colapso no século 7 a.C. — utilizava a migração para consolidar o controle imperial.
Recentemente, o tema voltou a ganhar destaque em meio à crise de Ceuta, com alguns analistas levantando suspeitas de que o Marrocos pode ter facilitado o fluxo de dezenas de milhares de migrantes para o território espanhol no norte da África como uma forma de retaliação contra Madri, num contexto de tensões diplomáticas entre os dois países. Em 2021, em meio a um incidente similar, a ministra da defesa da Espanha, Margarita Robles, acusou diretamente o Marrocos de "chantagem".
Gonzci não descartou a possibilidade de que redes autônomas de contrabando estejam por trás dos túneis recém-descobertos na Lituânia, os quais as autoridades belarrusos não controlam totalmente.
Ele acrescentou que Belarus e a Rússia têm utilizado a migração como arma para "desviar a atenção do Ocidente da agenda estratégica mais ampla da Rússia e criar instabilidade ao longo do flanco oriental da Otan, alimentando tensões políticas e sociais dentro dos países europeus".
Os Estados que organizam tais operações — frequentemente regimes autoritários — desfrutam de uma vantagem estratégica inerente, ressaltou Gonzci.
"O alvo é, geralmente, um Estado democrático que enfrenta um dilema fundamental: é preciso proteger a soberania garantindo a segurança das fronteiras e, ao mesmo tempo, cumprir as obrigações legais e os compromissos humanitários", disse ele.
Países do Leste "demonstram resiliência"
No entanto, especialistas parecem concordar que os países do flanco oriental da UE têm tido um bom desempenho nesse aspecto.
"Há uma cooperação e coordenação crescentes entre os países nórdicos, os bálticos e a Polônia, uma vez que essas nações enfrentam desafios semelhantes. Além disso, a missão Frontex da UE tem enviado equipamentos adicionais", afirmou Seselgyte.
A Lituânia está recebendo, atualmente, apoio técnico de países vizinhos.
"Estamos testando equipamentos de varredura poloneses, por meio dos quais conseguimos identificar espaços vazios no subsolo. Se essas ferramentas funcionarem bem, iremos adquiri-las e colocá-las em operação", explicou o general lituano Liubajevas.
---------
Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.