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"As pessoas não fazem planos. Não há esperança": o declínio do cotidiano na Rússia

29 ago 2026 - 17h36
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Resumo
Apesar do discurso de estabilidade do Kremlin, a população russa enfrenta um declínio na qualidade de vida e pessimismo com o futuro devido aos impactos da guerra na Ucrânia. Ataques de drones a refinarias causaram severa escassez de combustível e alta nos preços, enquanto o mercado de trabalho sofre com menos vagas e salários defasados. Diante do aumento do custo de vida e do isolamento econômico, os cidadãos abandonam planos a longo prazo e focam apenas na sobrevivência diária.

Escassez de combustível, alta de preços e drones pressionam sociedade russa, com pesquisas apontando que ânimo da população vem se deteriorando. À DW, russos relatam como têm enfrentado cotidiano cada vez mais difícil.Escassez de combustível que afeta a rotina diária. Descontentamento com preços e enfraquecimento com perspectivas de emprego. Planejamento para o futuro que dá lugar a estratégias de sobrevivência a curto prazo. Essas são algumas das queixas apresentadas por cidadãos da Rússia conforme cresce a ansiedade com as consequências da guerra iniciada pelo país na Ucrânia, há mais de quatro anos.

Fila em posto de combustíveis em Moscou. Ataques ucranianos a refinarias russas têm provocado escassez
Fila em posto de combustíveis em Moscou. Ataques ucranianos a refinarias russas têm provocado escassez
Foto: DW / Deutsche Welle

Até mesmo os principais institutos de pesquisa da Rússia — incluindo o estatal VCIOM e o FOM, bem como o independente Centro Levada — tem relatado um claro declínio no ânimo da população russa. O regime de Vladimir Putin, no entanto, insiste que as condições permanecem estáveis e que os problemas que vem surgindo não são críticos.

A DW convidou seus seguidores russos nas redes sociais a compartilharem suas histórias. Todas as respostas foram anonimizadas por motivos de segurança.

"Quando há combustível, formam-se filas enormes de 50 a 100 carros"

Um seguidor da DW no distrito de Pechatniki, em Moscou, descreveu uma tentativa recente de abastecer tarde da noite, percorrendo cerca de 40 quilômetros em busca de postos que ainda tivessem combustível.

"Se há combustível em algum lugar, há uma fila enorme de 50 a 100 carros", disse ele. "Decidimos que esperar até as 3 ou 4 da manhã para depois ir direto para o trabalho seria uma péssima ideia, então voltamos para casa para dormir. Estamos com meio tanque por enquanto, mas, até o fim da semana, teremos que caçar combustível ou ficar parados. Ultimamente, usamos o carro quase exclusivamente para viagens à dacha [casa de campo russa] para visitar nossos pais idosos."

"Agora é preciso caçar combustível à noite. Nem sempre se tem sorte. Muitas vezes não há combustível nenhum. Quando há, a espera é de duas a três horas", disse outro seguidor.

A escassez de combustível, desencadeada por frequentes ataques de drones ucranianos a refinarias de petróleo russas, tornou-se uma das principais queixas da população. Dados do BenZinMap, um portal de monitoramento de combustíveis, mostram restrições severas na venda em 66 regiões até 27 de agosto, com outras 16 relatando interrupções pontuais ou fortes aumentos de preços.

Alexander Shokhin, chefe da União Russa de Industriais e Empresários (RSPP), disse ao portal de notícias RBC que a capacidade de refinamento caiu quase um terço, uma observação partilhada por analistas independentes. As medidas governamentais - incluindo proibição de exportação, aumento de importações e padrões de qualidade de combustível mais flexíveis - não tem conseguido compensar a perda de capacidade de produção.

Dados fornecidos pelo serviço estatal de estatísticas russo Rosstat mostram que os preços médios da gasolina no varejo subiram 7,4% este ano, superando a inflação geral de 4,19%. Mas as médias escondem variações regionais acentuadas.

Os postos pertencentes a grandes companhias petrolíferas mantiveram os aumentos de preços relativamente modestos, atraindo longas filas. Já as estações independentes estão cobrando significativamente mais, aumentando a pressão sobre o bolso das famílias.

No entanto, existem poucos sinais de pânico total. Os motoristas parecem estar se adaptando ao fornecimento intermitente. "A gasolina está escassa, mas São Petersburgo ainda está aguentando por enquanto", disse um russo. "Houve interrupções no fornecimento de gasolina, mas a situação está melhor agora, embora não esteja disponível em todos os lugares", disse outro.

"Conseguir um novo emprego está cada vez mais difícil"

As estatísticas oficiais apontam para um desemprego excepcionalmente baixo na Rússia, com a Rosstat reportando uma taxa de apenas 2,2%. Mas a porcentagem parece ser enganosa. Plataformas de recrutamento russas como a hh.ru e a SuperJob relatam um aumento acentuado na publicação e envio de currículos, juntamente com um declínio em ofertas de vagas.

O crescimento salarial também desacelerou. Empresas em setores em dificuldades, como o automotivo e a mineração, têm adotado horários reduzidos ou férias coletivas. Alguns leitores da DW também descrevem um mercado de trabalho sob pressão.

"Conseguir um novo emprego está se tornando cada vez mais difícil: não há novas vagas e as disponíveis são mal remuneradas ou envolvem turnos exaustivos de 12 horas", escreveu um leitor.

"Atrasos nos salários dificultam manter em dia os pagamentos de empréstimos", disse outro. "Passei o verão todo recebendo apenas dois terços do meu salário. Dá para pagar a comida e a academia, e só", observou outro leitor. "As demissões em massa atingiram muitos setores", acrescentou outro russo. "A era dos salários inflacionados acabou. E a vida ficou absurdamente mais cara do que antes de 2022."

Esse sentimento de pessimismo chegou até mesmo a cargos de prestígio em escritórios. Um profissional de TI de São Petersburgo descreveu a mudança: "Não há choques econômicos repentinos, apenas um declínio gradual que se arrasta há 10 anos. As perspectivas de emprego são limitadas, e encontrar uma nova vaga será extremamente difícil."

Um empresário de Moscou, de 54 anos, relembrou a época em que administrava uma empresa que prestava serviços para marcas ocidentais de roupas, antes da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Após a saída das empresas da Rússia, ele foi forçado a encerrar o negócio. Mais tarde, lançou um novo empreendimento de confecção de roupas na Ásia Central e em Bangladesh para venda em marketplaces online russos, que recentemente também entraram na mira de ataques ucranianos. Inicialmente, o negócio teve crescimento rápido. Porém, à medida que a pressão econômica começou a ser sentida, as condições pioraram.

"No começo, as vendas cresceram mais rápido do que esperávamos. Mas esse negócio também acabou sendo afetado pelas consequências das políticas atuais, do isolamento e da instabilidade econômica", explicou o empresário. "As receitas estão despencando de forma catastrófica. E não somos só nós. As pessoas estão cortando gastos com quase tudo."

"As pessoas não fazem planos, sacam dinheiro e compram dólares"

Um tema dominante nas respostas recebidas pela DW é a ausência de uma visão otimista para o futuro. A julgar pelos comentários, os participantes não estão se preparando para um choque isolado, mas para um período prolongado de estagnação ou declínio.

"Em nossa região, as mudanças ainda não são significativas", escreveu uma mulher de Sacalina, uma ilha no Extremo Oriente russo. "Os preços estão subindo, é claro, mas, no geral, parece que as pessoas vivem exatamente como antes. Pessoalmente, as mudanças no dia a dia que mais percebo estão relacionadas ao serviço de internet. Ela ficou mais lenta, e a VPN fica ligada quase o tempo todo para contornar a censura. Um grande número de pessoas do meu círculo pessoal deixou a Rússia, embora isso já venha acontecendo desde 2022. Nós também enviamos nosso filho para outro país."

Quando planejar se torna difícil, o foco passa a ser apenas lidar com o cotidiano. "Falta de combustível, ataques de drones... Viagens básicas para a Turquia tornaram-se inacessíveis", disse outro assinante. "As pessoas não fazem planos, sacam dinheiro e compram dólares. Não há esperança de um futuro radiante ou de uma mudança de governo. Todos vivem o presente. O consumo de álcool aumentou significativamente — até mesmo em Moscou."

Além da ansiedade e da apatia, um número expressivo de respostas aponta para uma crescente fragmentação social, com as pessoas se isolando em círculos mais restritos e evitando discussões mais amplas.

"As pessoas estão furiosas e culpam o Ocidente por todos os seus problemas. A vida tornou-se muito mais pobre, monótona e perigosa do que antes da guerra", observou um leitor. "As pessoas simplesmente se fecham ou interrompem imediatamente qualquer conversa sobre a vida e a guerra. Quase ninguém mais tenta manter uma fachada de coragem ou fazer pose."

"A questão não é apenas o combustível ou a internet — é a mudança nas pessoas, mesmo naquelas que são bastante decentes", escreveu outra leitora, uma profissional da área de saúde. "Há um medo interno, uma irritação profunda — até mesmo entre aqueles que não entendem nada e não querem saber de nada. Mas todos veem os preços. Isso assusta as pessoas."

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