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Antinatalistas: as pessoas que querem que paremos de ter bebês

Pode ser por questões existenciais, biológicas ou ambientais - motivações variadas reúnem grupos nas redes sociais que debatem e fomentam ideia de que humanos devem parar de procriar.

14 ago 2019
05h42
atualizado às 10h14
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"Não seria melhor fazer um buraco na Terra e acabar com tudo?".

Ilustração de bebê com sinal vermelho de bloqueio em cima
Ilustração de bebê com sinal vermelho de bloqueio em cima
Foto: BBC News Brasil

Quem se pergunta é Thomas, 29 anos, morador do leste da Inglaterra e um antinatalista - ou seja, alguém que defende que os humanos não deveriam mais ter filhos.

Embora sua ideia de explodir o mundo seja um pensamento fantasioso, ele tem uma convicção mais concreta: a de que nossa espécie deve gradualmente se extinguir.

A filosofia antinatalista, que remonta à Grécia antiga, teve um impulso recente com as mídias sociais.

No Facebook e no Reddit, por exemplo, há dezenas de grupos e fóruns, alguns com milhares de membros. No Reddit, a comunidade "r/antinatalism" tem cerca de 35 mil membros, enquanto apenas um das dezenas de grupos do Facebook com esta pauta tem mais de 6 mil participantes.

Os antinatalistas estão espalhados pelo mundo e têm uma variedade de razões para suas reivindicações. Entre elas, estão a preocupação com a herança genética, com a superpopulação do planeta, com o meio ambiente, de não querer que crianças sofram - e com a falta de "consentimento", a noção de que as pessoas são colocadas no mundo sem poderem opinar sobre isso.

Ilustração: Dedo sobre grande botão vermelho com os dizeres 'Fim da humanidade'
Ilustração: Dedo sobre grande botão vermelho com os dizeres 'Fim da humanidade'
Foto: BBC News Brasil

Todos, porém, têm a convicção de que a procriação humana deve ser detida. E embora façam parte de um movimento pequeno, algumas de suas opiniões, particularmente sobre o uso de recursos do planeta, estão cada vez mais ganhando espaço entre os grandes temas em discussão no mundo.

Embora não seja um antinatalista, o príncipe Harry disse recentemente que ele e sua esposa planejavam ter no máximo dois filhos, devido à preocupação com o meio ambiente.

Chat filosófico

Thomas não tinha ouvido falar do antinatalismo antes de alguém usar o termo para expor sua opinião nos comentários de um vídeo no YouTube. Desde então, ele se tornou um membro ativo de um grupo do tipo no Facebook.

Para ele, a pauta fornece um estímulo intelectual e um lugar para testar suas habilidades de debate.

"Acho incrível, você está discutindo problemas da vida real", diz ele. "Você tem uma ideia: digamos, por exemplo, a de que os humanos podem ser extintos. E se eles evoluírem de novo? Então, você não resolveu o problema".

"Há muita discussão, algumas são bem delicadas."

Mas sua paixão pelo antinatalismo não é apenas teórica. Thomas acredita que toda a vida humana é despropositada e por isso tentou, embora sem sucesso, fazer uma vasectomia no sistema público de saúde britânico.

Os médicos da rede podem se recusar a realizar operações de esterilização se acreditarem que o procedimento não é do melhor interesse do paciente.

Não violência e consentimento

Apesar da retórica niilista (relativa ao niilismo, ponto de vista que considera não haver sentido na existência) em alguns desses grupos, não há indicação de que eles estejam dispostos a atos radicais. Quando falam sobre extinção, muitas vezes parece ser um exercício retórico.

A ideia de Thomas de abrir um buraco na Terra - ele imagina um grande botão vermelho que acabaria com a vida humana e diz que "pressionaria isso imediatamente" - é na verdade altamente controversa por causa de um princípio antinatalista chave: consentimento.

Simplificando, esta é a ideia de que criar ou destruir a vida requer o consentimento da pessoa que nascerá ou morrerá.

Kirk mora em San Antonio, nos Estados Unidos. Ele diz que se lembra de uma conversa com a mãe quando tinha apenas quatro anos de idade. Ela disse que ter filhos era uma escolha.

"Isso não faz sentido para mim: voluntariamente colocar alguém que não tem, antes da concepção, necessidade ou desejo de estar neste mundo, sofrer e morrer", diz ele.

Kirk diz que, mesmo nessa idade precoce, se tornou um antinatalista. Ele se opõe à concepção da vida humana porque nenhum de nós foi explicitamente perguntado se queríamos estar aqui.

"Se toda pessoa desse consentimento para jogar o jogo da vida, eu pessoalmente não teria nenhuma objeção a isso", ele admite. "Depende do consentimento ou da falta dele".

Ilustração: Homem perto de um laptop com mãos segurando a cabeça
Ilustração: Homem perto de um laptop com mãos segurando a cabeça
Foto: BBC News Brasil

O conceito também funciona ao contrário. O problema com esse grande botão vermelho apagador da humanidade é que muitas pessoas aproveitam a vida - e nem todo mundo concordaria em sair dela.

Diante deste dilema, Kirk e a maioria dos antinatalistas querem que as pessoas se voluntariem para parar de dar à luz.

Problemas de saúde mental

Há outro tema comum em grupos antinatalistas. As postagens frequentemente criticam pessoas que admitem sofrer de problemas de saúde mental por terem filhos.

Um post por exemplo reproduziu a publicação de um outro internauta que dizia: "Tenho um transtorno de personalidade limítrofe, além de ansiedade bipolar e generalizada". O antinatalista acrescentou o seu comentário: "Este indivíduo tem dois filhos. Sinto-me mal pelos pequenos".

Em outro grupo, havia também um comentário atrelado à postagem de alguém que claramente estava pensando em suicídio.

"Tive esquizofrenia e depressão", explica Thomas. "A depressão também está na minha família. Acho que, se eu tiver filhos, há uma grande probabilidade de eles ficarem deprimidos e não gostarem da vida deles."

Mas ele também diz que a comunidade é muitas vezes rotulada de forma errada por pessoas de fora.

"As pessoas começam a nos rotular como psicopatas malucos", diz ele. A verdade, diz ele, é muito mais complexa.

Salvando a Terra?

Os argumentos antinatalistas foram impulsionados recentemente por outra pauta, a preocupação com o meio ambiente e os efeitos potencialmente devastadores das mudanças climáticas.

A julgar pelos posts nos grupos antinatalistas, há uma evidente sobreposição entre suas ideias e o ativismo ambiental.

"Sinto que é egoísta ter filhos neste momento", diz Nancy, uma vegana e entusiasta dos direitos dos animais, livre de plástico e instrutora de ioga das Filipinas. "A realidade é que as crianças nascidas no mundo estão trazendo mais destruição para o meio ambiente".

Em um grupo no Facebook chamado "Antinatalistas muito irritados", uma petição está sendo compartilhada com o objetivo de ser enviada às Nações Unidas. Seu título é "Superpopulação como raíz da catástrofe climática: parem os nascimentos no mundo agora". Até aqui, a campanha tem 27 mil assinaturas.

A ideia de evitar filhos para beneficiar o meio ambiente não é nova. Na Grã-Bretanha, uma instituição de caridade chamada Population Matters propõe isso há anos, embora não seja antinatalista. Na verdade, eles argumentam em favor da sustentabilidade entre os humanos, e não por sua extinção.

"Nosso objetivo é alcançar a harmonia entre os humanos e o planeta, que temos a sorte de habitar", diz Robin Maynard, diretor do grupo. "Se temos menos filhos em todo o mundo e famílias menores, podemos alcançar uma população muito mais sustentável."

Mas uma população crescente necessariamente levará diretamente ao desastre ambiental? De acordo com Stephanie Hegarty, repórter da BBC especializada em crescimento populacional, é difícil dizer, porque o futuro é muito difícil de prever.

"De acordo com projeções, devido ao desenvolvimento econômico e à queda das taxas de fecundidade, a população mundial provavelmente ficará em 11 bilhões daqui a 80 anos", diz ela. "Se o planeta pode sustentar isso ou não, não sabemos."

"Também é muito difícil prever quantas pessoas o planeta pode sustentar porque é tudo sobre consumo. E isso significa tudo: de ar, água, comida, combustíveis fósseis, madeira, plástico... A lista continua", diz.

"É óbvio que alguns de nós estão consumindo muito mais do que outros. Uma família de 12 pessoas em um país como Burundi (na África) consumirá menos, em média, do que uma família de três no Texas (Estado americano)."

"Há muitos fatores que vão mudar na próxima década e no próximo século que não podemos prever agora."

Insultos e críticas

Entre os intensos debates filosóficos e éticos em curso sobre os antinatalistas, há uma corrente subjacente mais obscura e menos edificante: os que rotineiramente insultam pais. Alguns insultos chegam a ser dirigidos a crianças.

"Sempre que vejo uma mulher grávida, sinto um desgosto", escreveu um usuário ao lado de uma foto que dizia: "Eu odeio barriga de grávida".

Mas isso não significa que todos os antinatalistas odeiem crianças, ao menos de acordo com aqueles que falaram com a BBC.

"Eu diria que pessoalmente gosto de crianças - e é porque eu gosto delas que não quero que sofram", diz Nancy. "Talvez trazê-los para o mundo me daria algum prazer, mas a possível ameaça é tão grande que não tenho certeza se vale à pena."

Em alguns grupos antinatalistas, usuários especificam que os bebês não devem nascer em zonas de guerra, se houver uma grande chance de danos, ou mesmo em famílias de baixa renda. Às vezes, a retórica soa como reprodução seletiva - ou eugenia.

Os antinatalistas com quem falamos tinham sentimentos contraditórios sobre essas ideias.

"Quais são seus motivos para ter um filho?" questiona Thomas, quando perguntado se está preocupado com as crianças que nascem em áreas devastadas pela guerra. "Em tais países, há menos esperança de que as coisas mudem."

Ele tem menos preocupações com as crianças que nascem em lares de baixa renda.

"Obviamente, sou contra ter filhos... Mas acho que você pode ser feliz vivendo em uma área de baixa renda."

Já Nancy diz que seu antinatalismo é "generalizado".

Ela diz se opor a eugenia. "Por que estamos escolhendo alguns grupos só porque eles estão em posição de desvantagem?"

Então, há uma filosofia de vida antinatalista?

"Faça o melhor que puder", diz Kirk. "Seja gentil - e não procrie."

Ilustrações de Gerard Groves

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