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Análise: mesmo com escândalo, pesquisa indica que parte dos eleitores de Lula quer Flávio Bolsonaro candidato

Percentualmente, parece haver mais eleitores defendendo sua permanência como candidato do que dispostos a votar nele em um eventual segundo turno contra Lula

26 mai 2026 - 17h36
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Um dado da última pesquisa Datafolha, publicada na sexta-feira, 22 de maio, passou quase despercebido em meio ao terremoto político provocado pelo caso Dark Horse. Foi o primeiro levantamento do instituto após a divulgação, pelo The Intercept Brasil, dos áudios que expuseram a proximidade entre Flávio Bolsonaro e o ex-controlador do Banco Master. Ainda assim, havia mais entrevistados defendendo a permanência do filho 01 de Jair Bolsonaro como candidato à Presidência do que eleitores dispostos a votar nele em um eventual segundo turno contra Lula.

A diferença é pequena, mas politicamente sugestiva: 44% defendem que Flávio siga na disputa, enquanto 43% dizem votar nele contra Lula. Em uma eleição que se anuncia apertada, marcada por rejeições altas, pisos eleitorais sólidos e tetos relativamente baixos, um ponto percentual pode valer mais do que parece.

O dado ganha ainda mais relevância quando lido à luz da verdadeira estrutura da "polarização" brasileira. As preferências nacionais não parecem se organizar apenas entre lulistas e bolsonaristas, as duas minorias majoritárias que representam os projetos políticos em disputa no país.

Há outra disjuntiva: de um lado, o antipetismo, identidade política difusa, mas consolidada; de outro, o anti-antipetismo, campo mais heterogêneo, ilustrado pela Frente Ampla de Lula e Alckmin, reunindo lulistas convictos, esquerdistas não lulistas, liberais e democratas pragmáticos, eleitores antibolsonaristas e setores que rejeitam a criminalização moral permanente do campo progressista e combatem agendas reacionárias e obscurantistas.

É nesse contexto que o desencontro entre desejo de permanência da candidatura de Flávio e intenção efetiva de voto nele abre uma hipótese interessante: parte dos eleitores de Lula pode estar defendendo, taticamente, que o adversário permaneça na disputa.

Não por simpatia, evidentemente. Mas por cálculo.

Lógica estratégica da eleição

Se a pergunta é por que eleitores do presidente defenderiam a permanência do principal adversário do lulismo, a resposta mais plausível está na lógica estratégica da eleição.

Antes de comemorar a eventual exclusão de um concorrente atingido por um escândalo de grandes proporções, uma parte do eleitorado governista parece preferir que ele continue no páreo. Afinal, a substituição de Flávio por outro nome da direita poderia reorganizar o jogo, reduzir danos e oferecer à oposição uma candidatura menos vulnerável.

A campanha de Lula, segundo leitura amplamente difundida nos bastidores políticos e na imprensa, sempre pareceu preferir enfrentar Flávio Bolsonaro a correr o risco de ver Tarcísio de Freitas, ou outro nome menos diretamente associado ao clã, assumir o papel de antagonista principal.

Não é difícil entender a razão: Flávio carrega o sobrenome, mobiliza a base bolsonarista e mantém a eleição presa ao terceiro turno de 2022. Ao mesmo tempo, tem vulnerabilidades próprias, traduzidas na rejeição ao sobrenome identificada nas pesquisas, o que dificulta sua ampliação para além do núcleo duro da direita.

Esse cálculo já havia aparecido em dezembro de 2025, quando Jair Bolsonaro indicou o primogênito como seu herdeiro eleitoral. Entre aquele momento e o início de abril de 2026, prazo decisivo de desincompatibilização para atores que poderiam se lançar na disputa, Flávio jogou praticamente desmarcado.

A lógica era simples: se fosse atacado cedo demais, poderia patinar antes da hora e abrir espaço para que o governador de São Paulo se animasse a entrar no jogo presidencial.

O resultado foi uma janela de quase quatro meses em que Flávio cresceu de forma acelerada, estabilizando-se em situação de empate técnico com Lula nas principais pesquisas do país e chegando a liderar numericamente algumas simulações. O candidato ideal do lulismo transformava-se, assim, em risco real.

Ao manter a eleição presa ao terceiro turno de 2022, Flávio antecipou radicalmente a lógica do voto útil para a pré-campanha e acirrou a guerra de rejeições.

O impacto do caso Vorcaro

A revelação da relação de Flávio com o banqueiro encrencado, somada à gestão desastrosa da crise pelo senador e seus assessores, produziu o primeiro abalo relevante em sua candidatura.

Lula voltou a abrir vantagem numérica nas simulações de primeiro e segundo turnos; Flávio passou a oscilar na direção contrária, tanto nas intenções de voto quanto na rejeição. Em uma eleição de margens estreitas, esse tipo de deslocamento pode não parecer espetacular nas manchetes, mas tem potencial para ser decisivo na contagem final.

A lição é conhecida por qualquer analista de opinião pública: nem todo abalo eleitoral se expressa como desmoronamento. Às vezes, o escândalo não destrói uma candidatura; apenas a torna menos atrativa, menos expansiva e mais difícil de arrastar. Em disputas muito acirradas, isso basta.

Daí o paradoxo. Se o escândalo tivesse sido devastador demais, poderia precipitar a troca do candidato.

A direita seria obrigada a procurar um nome alternativo, talvez com menor rejeição, maior capacidade de diálogo com o centro e menos dificuldade para empunhar a bandeira anticorrupção. Mas, se o desgaste é suficiente para ferir Flávio sem retirá-lo do tabuleiro, Lula passa a ter diante de si o cenário mais conveniente: o adversário desejado, agora fragilizado.

O Datafolha sugere exatamente esse ponto de equilíbrio. O caso custou caro a Flávio: embaralhou sua campanha, contaminou sua imagem pública e comprometeu a principal bandeira de sua candidatura, que era a a promessa de "acabar com a corrupção do PT e de Lula".

Mancha da corrupção ressignificada para pior

Como mostrou análise do Instituto Democracia em Xeque, a mancha da corrupção não apenas ressignifica, para pior, a biografia política do senador, como atinge o coração de sua narrativa eleitoral.

Ainda assim, o escândalo não parece ter sido forte o suficiente para destroná-lo como principal antagonista de Lula. Flávio segue no jogo, mas já não joga da mesma forma. Continua sendo o nome capaz de unificar o bolsonarismo, mas agora carrega na testa a marca que pretendia colar no adversário.

Chega-se, portanto, a uma situação politicamente inusitada. Flávio quer e precisa ficar. Sua candidatura buscou, desde o início, preservar a hegemonia do clã Bolsonaro sobre a direita e sobre o antipetismo. Em segundo lugar, funciona como instrumento de pressão por anistia ao pai. Só em terceiro lugar aparece o objetivo de vencer a eleição.

Lula, ao que tudo indica, também prefere que ele fique, por acreditar que Flávio seja o adversário mais funcional à sua estratégia. E parte dos eleitores lulistas, lendo o jogo com mais malícia do que muitos analistas imaginam, parece ter chegado à mesma conclusão.

No fim, por razões opostas, todos poderiam compartilhar o mesmo bordão: #FicaFlávio.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Beto Vasques não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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