Análise: a quem pertencem o verde e o amarelo da bandeira do Brasil?
Às vésperas de mais uma campanha eleitoral, grupos políticos antagoônicos voltam a reivindicar para si as cores da bandeira brasileira
Em setembro de 2022, em pleno período de campanha eleitoral, quem percorresse certas avenidas de grandes cidades brasileiras poderia ter a impressão de que o país estava disputando uma Copa do Mundo fora de época. Mesmo com o fiasco da seleção canarinho nos gramados do Catar, três meses antes, bandeiras verde-amarelas pendiam de várias janelas e automóveis; camisetas da seleção multiplicavam-se em manifestações políticas; em algumas cidades, bandeiras nacionais eram abertas em atos públicos como se fossem estandartes.
A cena parecia espontânea, mas não era apenas isso. Fazia parte de um processo político de transformação de símbolos nacionais em marcadores de identidade de um determinado partido político.
Em 2026, às vésperas de um novo período eleitoral, é fundamental compreender aquele fenômeno e retomar o debate. O verde e amarelo pertencem a um único grupo? Buscando responder à esta pergunta, precisamos compreender sua origem.
Em entrevista à Revista Oeste, o ex-presidente Bolsonaro foi perguntado sobre qual teria sido o principal legado de seu governo. A resposta veio rápida: "há pouco tempo você não via as cores verde e amarela por aí. Hoje você vê em qualquer lugar uma bandeira na janela".
Apropriação simbólica
A frase, exarada por um ex-presidente que sempre exaltou os governos militares, foi recebida por muitos como uma mistura de ufanismo e autoindulgência. Afinal, presidentes costumam reivindicar legados mais tangíveis: avanços normativos; reformas econômicas; programas sociais; mudanças institucionais. Mas, vista com algum distanciamento, a resposta talvez tenha sido mais reveladora do que pareceu de pronto.
Bolsonaro descreveu com precisão um fenômeno político real: a apropriação simbólica da bandeira por um campo específico do espectro ideológico. O fato é que, quatro anos após o fim do governo Bolsonaro, e às vésperas de um novo processo eleitoral, há ainda quem associe as cores da bandeira ao bolsonarismo.
Isto não surgiu do nada. Na verdade, é resultado de um projeto. Durante o governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, diversas políticas públicas foram renomeadas de maneira a forçar uma associação entre governo e identidade nacional. O Bolsa Família tornou-se "Auxílio Brasil", o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida passou a se chamar "Casa Verde e Amarela".
Mudanças de nome em políticas públicas são comuns, os governos gostam de imprimir sua marca em programas existentes. O que chamou atenção naquele caso foi a insistência em vincular políticas já existentes ao governo de plantão e associá-las às cores da bandeira. O bolsonarismo trabalhou para fundir governo, nação e identidade política numa mesma imagem. A operação foi poderosa porque empurrou a oposição para fora da moldura simbólica da própria nacionalidade.
O fenômeno tem precedentes teóricos conhecidos. O historiador Eric Hobsbawm chamou de "tradições inventadas" as práticas simbólicas criadas para produzir continuidade histórica e legitimar projetos políticos. Já o sociólogo Émile Durkheim observou que símbolos coletivos funcionam como representações da própria sociedade, razão pela qual tendem a adquirir um caráter quase sagrado. Quando esses símbolos passam a ser monopolizados por um grupo político, deixam de funcionar como elementos de coesão e passam a operar como instrumentos de distinção.
Deslocamento simbólico
Foi exatamente o que ocorreu durante o governo Bolsonaro. A bandeira nacional, tradicionalmente associada a eventos esportivos, cerimônias cívicas ou datas comemorativas, passou a sinalizar pertencimento a um grupo político.
Desde então vestir a camisa amarela da seleção brasileira tornou-se equivalente a declarar posição ideológica, o que evidencia a força desse deslocamento simbólico, já que durante décadas, a camisa da seleção funcionou como um símbolo transversal, usado por torcedores de diferentes convicções políticas.
Hoje, às vésperas de um novo processo eleitoral, parte da população passou a evitar o uso da camisa amarela da seleção brasileira em espaços públicos, receando que seu uso seja interpretado como manifestação de apoio ao bolsonarismo.
Neste sentido, o uso das cores da bandeira deixou de ser um elemento de coesão nacional para representar apenas a parcela da sociedade que apoia o pré-candidato a presidência da república Flávio Bolsonaro, que já deixou claro que buscará associar sua campanha eleitoral às cores verde e amarela.
O curioso é que tanto Jair, quanto Flávio Bolsonaro, frequentemente evocam os Estados Unidos como referência política e cultural. Em diversas ocasiões, declaram admiração pelo país e por seus símbolos nacionais.
Um exemplo emblemático dessa distorção ocorreu quando o senador brasileiro afirmou - em discurso proferido durante a Conservative Political Action Conference (CPAC), realizada em 28 de março de 2026 no estado norte-americano do Texas - que o Brasil deve trabalhar para reduzir a dependência dos Estados Unidos em relação à China no fornecimento de minerais críticos, como se isto fosse de interesse dos brasileiros que estão sob o manto verde e amarelo.
Retomando o tema central, o que talvez a família Bolsonaro não saiba é que a relação da sociedade estadunidense com sua bandeira segue uma lógica muito diferente. Democratas e republicanos, ambos representados por cores da bandeira dos Estados Unidos, disputam eleições com intensidade, mas não reivindicam exclusividade sobre o pavilhão nacional. A bandeira permanece associada ao Estado e não ao governo, sendo amplamente utilizada nas campanhas eleitorais por todos os espectros políticos.
No Brasil, parte da esquerda sempre tratou os símbolos nacionais com visível desconforto. Por muito tempo, sua exaltação esteve associada ao nacionalismo conservador e à memória autoritária da ditadura militar. O problema é que a recusa em disputar esse terreno produziu um efeito político concreto. Ao se afastar da bandeira, das cores nacionais e da linguagem do pertencimento coletivo, a esquerda deixou este espaço simbólico vazio.
Reaproximação democrática é necessária
Tal comportamento precisa ser revisto. E o campo realmente democrático dos espectros políticos brasileiros precisa se reapropriar dos símbolos nacionais com naturalidade. Caso contrário, em 2026 teremos um processo eleitoral em que o governo e a oposição democrática disputarão uma eleição contra uma extrema direita que julga ter o monopólio do uso dos símbolos do Estado.
Valorizar a bandeira, as cores e os símbolos nacionais é legítimo. A coletividade precisa de símbolos capazes de condensar pertencimento, memória e destino comum. O problema começa quando a bandeira deixa de ser percebida como pertencente a todos e passa a dividir a sociedade. O Brasil aprendeu que quando um grupo político abre mão de disputar os símbolos nacionais no espaço público, estes símbolos são facilmente sequestrados por grupos que buscarão, a partir destes símbolos, legitimar seus projetos políticos.
É preciso que a sociedade brasileira aproveite o período eleitoral que se avizinha para recolocar essa questão no centro do debate público. Os símbolos nacionais não pertencem à um determinado espectro ideológico, pertencem ao povo do Brasil. Todos os grupos políticos devem mobilizar as cores nacionais, isto não é um debate sobre marketing, é uma exigência republicana.
Que todos possamos participar da festa democrática de 2026 usando verde, amarelo (ou qualquer outra cor), pois ao fim do processo eleitoral, independente do grupo político vencedor, o verde e amarelo continuarão a representar todos os brasileiros, vencedores e vencidos.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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