Alemanha começa a julgar grupo de extrema direita que criou "Estado paralelo"
A Justiça alemã iniciou o julgamento de quatro líderes do "Reino da Alemanha", facção do movimento extremista Reichsbürger que rejeita a democracia atual. Liderado pelo autoproclamado monarca Peter Fitzek, o grupo fundou um "contra-Estado" com moeda, banco e passaportes próprios, arrecadando ilicitamente dez milhões de euros. Os réus respondem por liderar organização criminosa e crimes fiscais, com audiências em tribunal de segurança máxima previstas para se estenderem até 2027.
Quatro membros do grupo "Reino da Alemanha", facção do movimento Reichsbürger, que rejeita o sistema democrático do país, começaram a ser julgados, incluindo seu autoproclamado "rei".A Justiça alemã iniciou nesta sexta-feira (06/11) o julgamento de quatro pessoas acusadas de liderar um grupo de extrema direita chamado Königreich Deutschland ("Reino da Alemanha"), uma facção do movimento Reichsbürger ("Cidadãos do Império Alemão"), que rejeita a moderna democracia alemã.
Entre os réus está Peter Fitzek, de 61 anos, que fundou o grupo em 2012 e se autoproclamou "soberano supremo" do "Reino".
Fitzek e os outros três réus, com idades entre 38 e 47 anos, respondem, entre outras acusações, por participação em organização criminosa na qualidade de líderes. O Ministério Público Federal da Alemanha também os acusa de inúmeros crimes econômicos e tributários. O Ministério Federal do Interior proibiu o funcionamento da faação em maio de 2025. À época, durante uma operação policial, Fitzek e os três corréus foram detidos. Desde então, eles se encontram em prisão preventiva.
Segundo a promotoria, o grupo tinha como objetivo estabelecer um "contra-Estado" no território da República Federal da Alemanha e, a longo prazo, expandir seu domínio até as fronteiras do Império Alemão de 1871. Fitzek teria liderado a organização como "chefe incontestável" e exercido o poder de decisão em todas as áreas essenciais. O grupo ainda teria criado suas próprias estruturas pseudostatais, incluindo um banco, moeda própria, cartório de registro, um plano de saúde e um plano de previdência, bem como um sistema de passaportes fictício.
Fitzek acompanhou a leitura da acusação, que durou mais de uma hora, em grande parte do tempo, sorrindo. Ele folheava repetidamente documentos e pastas e voltou-se várias vezes para a plateia, onde também estavam sentados apoiadores de sua associação proibida.
Durante a leitura de seus dados pessoais pelo tribunal, o réu adotou uma postura de desafio, afirmando que, desde 2012, se chama "Peter, 1°" e declarou sua nacionalidade como "Reino da Alemanha".
Somente entre 2020 e 2025, a facção teria arrecadado cerca de dez milhões de euros por meio de transações ilícitas, doações, presentes e seminários pagos. Esses valores não teriam sido declarados às autoridades fiscais, e o imposto de renda e as contribuições previdenciárias dos funcionários também não teriam sido repassados.
A equipe de defesa de Fitzek diz que o processo contra seu cliente está sendo conduzido injustamente como um caso de segurança do Estado, argumentando que na realidade se trata de um crime de colarinho branco, o qual deveria ser julgado em um foro diferente.
Um total de 52 dias de audiência estão programados para o julgamento do processo na unidade de segurança máxima do Tribunal Regional Superior de Düsseldorf, com previsão de término em setembro de 2027.
O "Reino da Alemanha"
Segundo o Ministério Federal do Interior, o "Reino da Alemanha" era considerado o maior subgrupo do mais amplo movimento "Cidadãos do Reich" e, na época da proibição, alegava contar com mais 6.000 adeptos. As autoridades de segurança, por outro lado, estimam o número estava mais para cerca de mil. Já o círculo restrito de liderança incluía, segundo o inquérito, entre 40 e 60 adeptos ativamente envolvidos.
Alguns dos membros viviam em comunidades organizadas e isoladas nos estados da Turíngia e Brandemburgo, no Leste alemão. Era também considerado pelas autoridades como o maior grupo organizado dentro do movimento Reichsbürger, que por sua vez soma mais de 20 mil seguidores.
O Departamento Federal para a Proteção da Constituição da Alemanha, principal órgão de inteligência do país, descreveu o Reino da Alemanha como uma "comunidade sectária" e um "Estado de fantasia".
Em 2024, o grupo ganhou destaque na imprensa alemã após alguns veículos apontarem que crianças nascidas nessas comunidades não estavam sendo registradas em cartório ou frequentando a escola. Na prática, uma sociedade paralela.
O movimento Reichsbürger
Essas práticas seguem o credo Reichsbürger, que considera a atual República Federal da Alemanha não passa de uma "empresa", uma construção artificial imposta pelos Aliados após a Segunda Guerra Mundial. Segundo essa visão, a única "Alemanha legítima" seria o extinto Império Alemão (1871-1918).
Seguidores do movimento costumam imprimir seus próprios passaportes e carteiras de motorista com antigos símbolos imperais. De acordo com as crenças do movimento, documentos do Estado alemão moderno seriam uma "assinatura de contrato" que acaba reduzindo os cidadãos à condição de "escravos". Portanto, não registrar os filhos em cartório seria um ato de resistência.
Os adeptos também costumam ser seguidores de outras correntes conspiracionistas, entre elas a crença de que a Alemanha seria governada por membros de um suposto "deep State" (Estado profundo). Vários são adeptos de teorias conspiratórias do movimento QAnon, para quem as principais instituições de governo do mundo são dominadas por uma elite de pedófilos satanistas. O movimento também ganhou tração durante a pandemia, quando os Reichsbürger passaram a se mesclar com ativistas antivacinas.
Nos últimos anos, o movimento Reichsbürger atraiu a atenção das autoridades de segurança da Alemanha, em meio a temores quanto a seu potencial violento.
O caso mais notável nos últimos anos envolveu outra facção do movimento, chamada de União Patriótica, que foi desbaratada em 2022, acusada de liderar um complô para derrubar o governo alemão. Seus organizadores são suspeitos de planejar invadir o Bundestag (Parlamento federal) em Berlim e prender políticos importantes antes de instalar um governo interino.
Pelo plano dos golpistas, a ofensiva seria colocada em marcha num chamado "Dia X" e, caso fosse bem-sucedida, resultaria na nomeação do seu principal líder, um aristocrata chamado Heinrich 13º Reuss, como novo chefe de Estado alemão. Os conspiradores então pretendiam negociar um "novo tratado de paz" com as antigas potências aliadas da Segunda Guerra Mundial: EUA, França, Reino Unido e principalmente com a Rússia.
Outros acusados de integrar o núcleo de liderança do grupo incluem Birgit Malsack-Winkemann, juíza e ex-deputada do partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD), além do ex-militar Rüdiger von Pescatore, que costumava passar parte do seu tempo no Brasil - há empresas registradas em seu nome em Santa Catarina.
Cerca de 27 pessoas foram acusadas em conexão com a tentativa de golpe de Estado e 380 armas de fogo foram encontradas. No final de abril de 2024 tiveram início três julgamentos separados por terrorismo e conspiração contra os acusados. Os procedimentos judiciais vêm se arrastando desde então e um réu morreu antes de os julgamentos começarem, e outro réu morreu durante.
jps (dpa, AFP, ots)
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