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A velha jogada política do "pega ladrão" e o que pode fazer diferença nestas eleições

Usar acusações infundadas para desviar atenção de seus próprios mal feitos é uma estratégia antiga em eleições acirradas. Donald Trump fez isso contra Hillary Clinton em 2016, Fernando Collor usou a tática com Lula e, agora, Flávio Bolsonaro acusa sem provas enquanto se recusa a responder sobre as que pesam contra ele

23 out 2026 - 12h32
(atualizado às 12h37)
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Resumo
A tática política do "pega ladrão", que projeta falhas próprias nos adversários para confundir o eleitorado com excesso de informação, marca a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, repetindo o cenário de 1989 entre o petista e Collor. Acusado no caso do Banco Master, o senador tenta vincular o escândalo e novas suspeitas a Lula. Para conter a ofensiva antes do debate final, o presidente reagiu propondo a abertura conjunta dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de ambas as famílias.

O método tirava proveito da confusão da vítima. O esbarrão, o furto, as pessoas ao redor, alguém gritando e apontando para algum lado, ninguém correndo por perto. O excesso de informação, somado à impressão de que qualquer pessoa poderia ser culpada, tornava difícil identificar o verdadeiro responsável. O golpe virava escárnio quando um dos bandidos ainda puxava conversa, criticava a falta de segurança nas cidades e fingia indignação. E a vítima, fragilizada, muitas vezes ainda agradecia a solidariedade desse "cidadão de bem".

A velha engenharia social do "pega ladrão" parece ter encontrado na política o ambiente ideal para sua evolução. A prática e suas variações são conhecidas e utilizadas em estratégias como a projeção política, o espelhamento e a vacina. Todas buscam desviar a atenção dos defeitos de um candidato ao acusar adversários desses mesmos problemas, ainda que sem qualquer indício de veracidade.

O principal objetivo é confundir o eleitor e espalhar diferentes versões de uma história para que o excesso de informação e de desinformação atenue a percepção dos próprios defeitos e coloque os demais candidatos no mesmo nível de desconfiança.

O grande expoente dessa estratégia é o presidente estadunidense Donald Trump. Sem pudores, Trump projeta seus defeitos em todo e qualquer indivíduo considerado adversário. Desfere acusações de racismo, machismo, corrupção e tantas outras que são claramente relacionadas ao seu próprio comportamento, atual ou passado.

Em sua primeira campanha para a presidência, em 2016, Trump deixou a adversária Hillary Clinton sem reação diante de tantas insinuações infundadas, mas que se mostraram eficientes como geradoras de desinformação e confusão.

Na atual campanha presidencial brasileira, Flávio Bolsonaro (PL) também lançou mão de acusações semelhantes às que pesam sobre ele próprio, como denúncias relacionadas aos escândalos do INSS e do Banco Master.

Excesso de informação para confundir

Desde que os esquemas do Banco Master foram descobertos, Flávio vem tentando relacionar o presidente Lula ao escândalo por meio da divulgação de vídeos, de acusações em entrevistas e até do uso de uma camiseta na qual se lia "O Pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula". Mas a revelação de áudios do próprio senador solicitando dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do banco e pivô do escândalo, protagonizou o momento de maior desgaste de Flávio nas pesquisas eleitorais. Foi justamente quando ultrapassava Lula nas intenções de voto pela primeira vez, conforme mostrou o Datafolha de maio de 2026.

Ainda assim, a estratégia atingiu a campanha de Lula ao buscar envolver o candidato petista em um caso que se tornou maior e mais complexo à medida que novas informações eram conhecidas. Isso ocorreu especialmente após a revelação de que o ministro do STF Alexandre de Moraes e outros ministros da Suprema Corte mantinham contato com o fraudador dono do Banco Master. Com o excesso de informações e de nomes envolvidos, o eleitor facilmente se confunde e a responsabilidade se dilui.

A pouco menos de uma semana das eleições, a campanha de Flávio tem apostado alto no depoimento de Roberta Luchsinger, acusada de operar com Lulinha, filho do presidente, como lobista para conseguir benefícios do governo federal. Nada foi comprovado até o momento e o assunto deve voltar no último debate, agendado para esta sexta-feira, dia 23 de outubro, na Rede Globo.

O déjà vu no debate presidencial

Na história das eleições brasileiras, um momento facilmente associado a esse tipo de prática foi o ocorrido em 1989, quando Fernando Collor de Mello (PRN) disputou com Lula (PT) o segundo turno da primeira eleição presidencial após a redemocratização.

Pertencente a uma família de longa linhagem na política e proprietária de empresas de comunicação em Alagoas, Collor logo tratou de se afastar da imagem de "playboy" usando expressões como "poderosos", quando queria mencionar os mais ricos, e "descamisados", ao se referir aos mais pobres.

A campanha de Collor associava Lula à ameaça de comunismo, à violência e ao risco à propriedade privada, alimentando boa parte da desconfiança de setores da sociedade em relação ao petista. Conforme relata o publicitário Paulo de Tarso em seu livro "Lula lá e outras histórias", já no início do segundo turno, a campanha de Collor divulgou cenas de apoiadores sendo atacados por militantes petistas no Rio Grande do Sul. Logo se descobriu que tudo não passava de encenação, mas a imagem de agressividade de Collor, até então um ponto negativo para o candidato, passou a ficar mais diluída em meio às trocas de acusações.

Collor também utilizou ataques de caráter pessoal, como o episódio em que revelou que Lula tivera uma filha com uma ex-namorada, Míriam Cordeiro, e insinuou, durante um debate, que o petista detinha mais posses do que o declarado. Ele próprio, Collor, que atualmente está em prisão domiciliar por corrupção, tinha um filho fora do casamento que só foi reconhecido anos mais tarde.

Mas o fato mais emblemático daquele momento foi, certamente, a acusação de que Lula pretendia se apoderar das economias de aposentados e desapropriar a classe média. O "pega ladrão" só ficou claro meses após Collor vencer o segundo turno. No dia seguinte à sua posse, Collor estabeleceu o confisco da poupança e de aplicações financeiras para valores acima de 50 mil cruzados novos.

Passados quase 40 anos desde a vitória de Collor, um sentimento de déjà vu em relação a 1989 parece inevitável, em especial para quem acompanhou o debate promovido pela Rede Bandeirantes no dia 18 de outubro.

As coincidências começam com a participação de Lula, que, disputando sua sétima eleição presidencial, vê-se novamente em um segundo turno em desvantagem nas pesquisas, como só ocorrera em 1989. Seu adversário, Flávio Bolsonaro, também filho de um político, como Collor, recorre frequentemente ao método "pega ladrão", de imputar ao outro acusações similares às que pesam sobre ele próprio.

Assim como em sua primeira disputa presidencial, Lula, possivelmente em sua eleição derradeira e mesmo sendo a personalidade política mais conhecida do país, enfrenta novamente o desafio de reafirmar quem é e convencer o eleitorado do que pretende fazer.

Desta vez, porém, Lula resolveu enfrentar as acusações de outra maneira e saiu do redemoinho de armadilhas ao propor ao TSE e autorizar a abertura dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dele, da primeira-dama e de seus cinco filhos, relativos aos últimos oito anos, desde que Flávio Bolsonaro faça o mesmo. Mais uma vez, o último debate pode ser decisivo.

The Conversation
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Foto: The Conversation

Hilton Cesario Fernandes é especialista em pesquisas de opinião e estratégias eleitorais. Desde 2002 atua como pesquisador nas principais campanhas eleitorais brasileiras. Tem experiência em avaliação de governos e serviços, incluindo projetos internacionais em Portugal e na Venezuela.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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