A pressão do Irã sobre Trump frente às eleições nos EUA
Às vésperas das eleições de meio de mandato nos EUA, o Irã adota uma estratégia de escalada militar controlada para pressionar Washington sem deflagrar uma guerra total. A alta no preço do petróleo e ameaças a rotas marítimas afetam a política americana, enquanto Donald Trump aposta no fim rápido do conflito. Apesar de Teerã cogitar retomar acordos diplomáticos, impasses com Israel e a cautela eleitoral de ambos os lados deixam os desdobramentos cruciais para depois da votação de novembro.
A poucas semanas das votações americanas de meio de mandato, Teerã promove uma "escalada controlada" no conflito, aparentemente tentando elevar a pressão sobre Washington sem provocar uma guerra em larga escala."A guerra terminará imediatamente após as eleições de meio de mandato, porque o Irã não conseguirá resistir por mais tempo", afirmou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a repórteres na quarta-feira passada.
Trump descreveu a votação como "uma das eleições mais importantes da história do nosso país" ao mesmo tempo em que voltou a defender a guerra contra o Irã. Ele disse que ordenou os ataques para impedir que o Teerã desenvolvesse armas nucleares. Ao mesmo tempo, prometeu que os preços do petróleo cairiam tão logo os Estados Unidos vencessem a guerra.
As eleições de meio de mandato ocorrerão em 3 de novembro de 2026. O aumento dos preços da gasolina e da energia nos EUA pode se tornar um problema político para o Partido Republicano do presidente, uma vez que a alta dos combustíveis afeta muitos americanos. Novos aumentos nos custos da energia provavelmente terão um impacto negativo sobre o ânimo dos eleitores.
Em 9 setembro, o preço do petróleo Brent, referência internacional, subiu novamente para mais de 100 dólares (R$ 512) por barril (159 litros). Isso se deveu à recente escalada nas tensões entre o Irã e os EUA em torno do Estreito de Ormuz.
Na última sexta-feira, saiu a notícia de que os rebeldes houthis, aliados do Irã, controlavam o Estreito de Bab el-Mandeb, no Iêmen, que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Aden. É provável que isso pressione ainda mais o mercado global de energia.
"Escalada controlada"
Segundo o governo dos EUA, forças americanas destruíram cinco petroleiros iranianos em 8 de setembro. A ação foi uma resposta a dois ataques da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que supostamente utilizou mísseis balísticos contra um navio de guerra da Marinha dos EUA.
"O Irã aparentemente ainda vê a escalada como um instrumento controlado para negociações sob pressão, e não como um fim em si mesmo", afirmou à DW o especialista em Oriente Médio Mohammad Ghaedi, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade George Washington, ao descrever a estratégia iraniana.
"O Irã tenta impor custos aos EUA antes das eleições de meio de mandato. Ao mesmo tempo, a pressão não deve se tornar tão grande a ponto de Washington se sentir compelido a lançar uma guerra em grande escala. Isso explica por que o número de mísseis disparados contra navios da Marinha dos EUA foi comparativamente baixo."
Embora o Irã queira demonstrar que é capaz de ameaçar as forças americanas e interromper o tráfego marítimo na região, também deseja manter o confronto abaixo de um patamar que possa desencadear uma reação americana ainda mais massiva.
Retorno ao Memorando de Islamabad?
No final de agosto, o presidente iraniano, Massoud Peseshkian, enfatizou durante a cúpula da Organização de Cooperação de Xangai que a opção preferida para seu país seria um retorno ao Memorando de Islamabad - o documento assinado por Washington e Teerã em junho de 2026, com o objetivo de encerrar o conflito.
Ele sugeriu que o Irã retornaria ao memorando de entendimento se os Estados Unidos também retomassem o cumprimento de suas obrigações.
Em Teerã, no entanto, parece haver uma percepção crescente de que um rápido retorno dos EUA ao acordo seria improvável. Para Ghaedi, isso esbarra em obstáculo crucial: "A primeira cláusula do acordo que pressupõe uma retirada israelense do Líbano, uma medida que Teerã considera improvável antes das eleições em Israel."
A eleição para o 26º Knesset, o Parlamento israelense, ocorrerá em 27 de outubro, pouco menos de uma semana antes das eleições de meio de mandato nos EUA. Muitos observadores em Teerã parecem esperar que o ponto de virada decisivo no conflito só seja alcançado após esse período.
Em 2 de setembro, a agência de notícias Reuters informou que assessores do presidente Trump defenderiam uma contenção da escalada antes das eleições de novembro, temendo repercussões políticas para os republicanos. Ao mesmo tempo, a Casa Branca consideraria expandir as ações militares após a votação. Resta saber se isso levará, de fato, a uma nova escalada. Enquanto isso, a pressão econômica sobre o Irã provavelmente aumentará ainda mais.
Pressão econômica e concessões políticas
Em entrevista à DW, o economista iraniano Ahmad Alavi, que vive na Suécia, alertou para o perigo de equiparar automaticamente pressão econômica a concessões políticas.
"Se a liderança da República Islâmica concluir que o objetivo da pressão não é mudar seu comportamento, mas sim, enfraquecê-la ou derrubá-la, poderá encarar as concessões como uma ameaça maior à sua sobrevivência e, em vez disso, recorrer a uma escalada da ação militar", afirmou. Ele acredita que Teerã estará mais disposta a fazer concessões se uma redução genuína da pressão for possível e se existir um canal confiável para negociação.
Omã e diversos países do Golfo retomaram a busca por uma solução diplomática. Segundo o jornal britânico Financial Times, os ministros do Exterior dos países do Golfo planejam uma reunião com seu homólogo iraniano em Salalah, no Omã, na próxima semana.
O objetivo das negociações é um acordo que garanta temporariamente a navegação comercial pelo Estreito de Ormuz. Tal acordo provavelmente exigiria a aprovação de Washington, já que os EUA mantêm o bloqueio naval contra o Irã.
Ao mesmo tempo, a liderança em Teerã continua a sinalizar publicamente sua determinação. "Continuaremos a guerra até a vitória final", declarou Ali Nikzad, vice-presidente do Parlamento, em 9 de setembro, em um evento para jornalistas.
Hossein Mohebbi, porta-voz da Guarda Revolucionária, também afirmou em 8 de setembro que os EUA devem "cessar completamente a guerra" e se abster de novas ameaças se quiserem pôr fim à situação atual. Ele também ameaçou com uma reação mais ampla da Guarda Revolucionária caso os ataques continuem.
Em 10 de setembro, a Guarda Revolucionária divulgou um vídeo que, segundo fontes iranianas, mostra a captura de um drone submarino Anduril Dive-LD dos EUA no Estreito de Ormuz. O veículo estaria sendo usado em uma missão secreta de remoção de minas.
O que acontecerá após as eleições nos EUA?
De acordo com a avaliação de Ghaedi, os desdobramentos futuros dependerão, em grande medida, do resultado das eleições nos Estados Unidos. Independentemente disso, porém, o Irã tem pouco interesse em intensificar o conflito.
Caso os democratas assumam o controle do Congresso e tentem conter a campanha militar de Trump, Teerã poderá agir com ainda mais cautela. A liderança iraniana provavelmente desejará evitar qualquer atitude que possa provocar uma convergência bipartidária de apoio ao governo em torno do conflito.
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