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A infiltração da guerra russa em países do Leste Europeu

28 set 2026 - 15h21
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Resumo
A guerra na Ucrânia transborda cada vez mais para o Leste Europeu com invasões de espaço aéreo, explosões de drones e suspeitas de sabotagem na Polônia, Moldávia e Romênia. Diante da evacuação de postos de fronteira e danos a infraestruturas de comunicação, governos locais denunciam ações deliberadas de Moscou e articulam defesas conjuntas. Enquanto a Otan mobiliza caças na região, cresce o alerta de inteligência sobre a possível ampliação da guerra híbrida russa para a Europa Ocidental.

Explosões de drones, violações do espaço aéreo, ataques incendiários: guerra na Ucrânia transborda cada vez mais para a Polônia, Romênia, Moldávia e países bálticos. Governos denunciam ação deliberada.Há apenas alguns meses, a guerra da Rússia na Ucrânia era, para a maioria das pessoas na Europa, uma realidade abstrata. Quando drones russos ocasionalmente invadiam o espaço aéreo de países vizinhos como Polônia ou Romênia, até as declarações oficiais soavam cautelosas e vagas. Mesmo quando, no fim de maio de 2026, um drone russo atingiu um edifício residencial na cidade romena de Galati, no leste do país, muitos representantes da União Europeia (UE) e da Otan hesitaram em atribuir a Moscou uma ação deliberada. No máximo, falava-se em guerra híbrida conduzida pela Rússia.

Desde então, porém, a situação mudou de forma significativa, quase radical. Em alguns países da Europa Central e do Sudeste Europeu, há hoje sobrevoos ou explosões de drones quase diariamente. Durante ataques russos contra a Ucrânia, moradores de regiões fronteiriças vizinhas enfrentam alertas aéreos cada vez mais frequentes. Aeroportos têm interrompido suas operações e espaços aéreos são fechados com maior frequência. A Rússia também vem bombardeando postos de fronteira, infraestruturas e trens em áreas próximas às fronteiras de países vizinhos da Ucrânia. Além disso, aumentaram significativamente os casos de sabotagem.

Para os países bálticos, a Polônia, a Moldávia e a Romênia, a guerra já deixou de ser algo apenas híbrido e se tornou uma ameaça bem concreta. Cada vez mais, líderes desses países falam abertamente em ações deliberadas da Rússia.

Série inédita de incidentes

Essa mudança ficou evidente como nunca antes na última quinta-feira (24/09).

A Moldávia registrou quatro invasões de seu espaço aéreo por drones. Duas dessas aeronaves explodiram em território moldavo, e destroços de uma terceira também foram encontrados. O espaço aéreo do norte do país chegou a ser fechado temporariamente.

Na Romênia, dois drones violaram o espaço aéreo nacional. Um deles explodiu no norte do país, perto da localidade de Solca, cerca de 30 quilômetros a oeste da cidade de Suceava. Um posto de fronteira com a Ucrânia foi fechado em consequência do incidente. Antes disso, caças da Otan já haviam sido mobilizados após um ataque russo ocorrido próximo ao delta do Danúbio.

Na Polônia, aeronaves da Otan também foram acionadas duas vezes devido a um grande ataque russo perto da fronteira. Dois postos fronteiriços poloneses com a Ucrânia foram evacuados após ataques de drones russos.

Na noite anterior, um incêndio havia atingido uma estação terrestre da Starlink na localidade de Wola Krobowska, cerca de 40 quilômetros ao sul de Varsóvia. A instalação, pertencente à empresa estatal de telecomunicações Exatel, é utilizada para encaminhar tráfego de internet pela Polônia e para a Ucrânia. O governo polonês classificou o caso como possível sabotagem.

Também na quarta-feira, um helicóptero russo Mi-8 vindo do exclave de Kaliningrado invadiu o espaço aéreo polonês. Segundo o Comando Operacional das Forças Armadas da Polônia, a aeronave penetrou cerca de 300 metros em território aéreo do país e permaneceu ali por 42 segundos.

"Putin quer desgastar a Europa"

Após os incidentes, o primeiro-ministro da Polônia, Donald Tusk, adotou um tom particularmente duro. "A Rússia continua aperfeiçoando suas formas repugnantes de pressão, e precisamos estar preparados para isso", afirmou. "Putin quer desgastar a Ucrânia destruindo sua infraestrutura energética e industrial, mas também quer desgastar a Europa."

Sobre o incêndio na estação da Starlink, Tusk disse haver suspeitas de que o fogo tenha sido provocado deliberadamente. Uma semana antes, ele já havia alertado no Parlamento polonês para possíveis ataques russos com drones ou até mísseis contra países que apoiam a Ucrânia.

O vice-primeiro-ministro e ministro da Digitalização da Polônia, Krzysztof Gawkowski, foi ainda mais direto. Segundo ele, há fortes indícios de que o incêndio na estação da Starlink faça parte da guerra híbrida travada pela Rússia. O objetivo teria sido prejudicar o acesso da Ucrânia à internet. Embora tenha ressaltado que ainda não é possível apontar Moscou como responsável com total certeza, ele afirmou que o episódio se encaixa naquilo que chamou de "nova doutrina russa de ataques".

Moldávia negocia proteção do espaço aéreo

A presidente da Moldávia, Maia Sandu, também reagiu com firmeza. Segundo ela, o ataque russo em grande escala contra a Ucrânia "mais uma vez alcançou a República da Moldávia". Sandu afirmou ainda que a guerra da Rússia ameaça toda a Europa e reiterou o apoio moldavo a Kiev.

No mesmo dia, o presidente do Parlamento moldavo, Igor Grosu, revelou que seu país está discutindo com a Romênia e a Ucrânia possíveis soluções para proteger o espaço aéreo moldavo.

A Moldávia dispõe de meios para monitorar seu espaço aéreo, mas sua capacidade para abater drones é muito limitada. Grosu afirmou que detalhes das negociações ainda não podem ser divulgados.

Romênia é criticada por cautela excessiva

As reações na Romênia foram mais moderadas. O ministro da Defesa, Radu Miruta, disse considerar necessário apresentar um protesto diplomático à Rússia. Ao mesmo tempo, destacou que o drone que caiu em Solca possui "novas características técnicas", o que sugere que possa se tratar de um modelo russo mais moderno, equipado com motor a jato.

Já o presidente romeno, Nicusor Dan, afirmou na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, que o mundo está "no quinto ano de uma guerra de agressão ilegal, não provocada e injustificada contra a Ucrânia". Segundo ele, a Romênia, país da União Europeia com a mais longa fronteira com o território ucraniano, sente diretamente os efeitos do conflito por meio das repetidas violações de seu espaço aéreo.

Dan reafirmou que a Romênia continuará apoiando a Ucrânia "pelo tempo que for necessário".

Apesar disso, comentaristas da imprensa romena acusam autoridades do país de responderem de forma excessivamente cautelosa às ações russas.

"O ponto a que chegamos é que precisamos fechar escolas por causa dos drones, mas os políticos têm medo de pronunciar a palavra com 'R'", escreveu o jornalista Gabriel Bejan, do portal HotNews. Segundo ele, a Rússia deve ser explicitamente identificada como um fator de risco para a segurança da Romênia.

Possíveis ataques a partir do Mediterrâneo?

Enquanto isso, crescem os temores de que a Rússia amplie sua guerra para países da Europa Ocidental. Também na quinta-feira passada (24/09), o jornal espanhol El Mundo publicou informações sobre um relatório da CIA segundo o qual a Rússia poderia estar preparando possíveis ataques com drones contra a Itália, a França e a Espanha. Para isso, poderiam ser utilizados navios mercantes de sua chamada "frota fantasma" em águas internacionais do Mediterrâneo.

As informações, até o momento, não foram confirmadas por fontes oficiais. Na França, o presidente Emmanuel Macron afirmou não ter recebido nenhum alerta da CIA, mas classificou como "plausível" a possibilidade de um ataque russo à Europa.

Também na quinta-feira, autoridades e militares na Dinamarca afirmaram que a Rússia intensificará, nos próximos meses, sua guerra híbrida contra o Ocidente e a Otan, com "ataques mais frequentes" e "consequências maiores para os países afetados do que as observadas até agora".

Segundo o ministro dinamarquês da Defesa, Jeppe Bruus, a situação é atualmente "a mais séria desde o fim da Guerra Fria".

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