A culpa não é dos pais: pesquisa aponta cinco fatores que definem o que vai no prato das crianças
Levantamento feito pelo Instituto Pensi em cinco capitais mostra como preço, tempo, ambiente alimentar, exposição a telas e publicidade moldam as escolhas para alimentação infantil
Quando uma criança pede biscoito no supermercado ou insiste nos doces e rejeita o legume no prato, a cena costuma ser alvo de julgamentos precipitados, que culpam as famílias e, em especial, as mães. Essa é uma leitura comum, porém incompleta e equivocada, como mostra um estudo recém-concluído conduzido pelo Instituto Pensi.
A partir dos relatos de 142 pessoas ouvidas em cinco grandes centros urbanos do país, a pesquisa Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável mostra que a alimentação infantil não se define apenas dentro de casa. Ela é resultado de um conjunto de fatores que antecedem a refeição: o preço dos alimentos, a jornada de trabalho dos responsáveis, o ambiente alimentar disponível, o tempo de exposição a telas e a pressão constante da publicidade dirigida às crianças.
Os depoimentos revelam como esses fatores se entrelaçam nas escolhas cotidianas de famílias. Sem a pretensão de representar o país em termos estatísticos, o estudo ajuda a compreender como os pais e responsáveis negociam, na prática, o que gostariam de oferecer e o que de fato conseguem colocar no prato. As famílias sabem o que é comer bem e o problema não está na informação, mas nas condições que moldam as escolhas.
Idealizada pelo Pacto Contra a Fome, com apoio da Food and Land Use Coalition(FOLU) e cofinanciamento da Fundação José Luiz Setúbal(FJLS), a pesquisa trabalhou com grupos focais online. Os encontros foram realizados entre setembro e outubro de 2025 em São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia com famílias das classes AB, C e DE. Entre os domicílios participantes, 57% conviviam com uma ou duas crianças, enquanto 4% tinham três ou mais.
Em todos os grupos, a alimentação saudável foi associada à comida caseira: arroz, feijão, frutas, legumes e alimentos frescos. Já refrigerantes, biscoitos, salgadinhos, macarrão instantâneo e fast food foram reconhecidos como menos saudáveis. O problema está na distância entre saber e conseguir fazer: é aí que entram cansaço, preço, tempo, aceitação da criança, praticidade e publicidade.
A influência da criança
As narrativas indicam que as crianças são uma importante força organizadora do carrinho de compras. Pais e mães tentam garantir refeições com arroz, feijão, proteína, frutas e legumes, mas relatam dificuldade diante de pedidos por marcas específicas, embalagens coloridas, alimentos vistos em vídeos na internet ou associados a momentos de lazer.
Essa influência não é trivial. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Pediatrics, com 96 estudos, encontrou associação entre marketing de alimentos e aumento de ingestão, escolha, preferência e pedidos de compra em crianças e adolescentes. O Ministério da Saúde, alinhado às recomendações da Organização Mundial da Saúde, afirma em seus documentos oficiais que é fundamental proteger crianças da publicidade de alimentos ultraprocessados para garantir ambientes saudáveis e prevenir obesidade e doenças crônicas.
Na prática, muitas famílias não estão apenas escolhendo entre uma fruta ou um biscoito. Elas comparam uma fruta (que precisa ser comprada fresca, lavada, cortada, aceita pela criança e consumida antes de estragar) com um produto ultraprocessado barato, durável, pronto, palatável e desenhado para ser desejado.
O atalho dos ultraprocessados
Com presença marcante na dieta infantil, os ultraprocessados funcionam como atalho na rotina. Eles aparecem quando falta tempo, quando o orçamento aperta e também no fim de semana como lazer, recompensa ou alternativa fácil de consumir.
De acordo com o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil - ENANI-2019, a proporção de crianças de seis a 23 meses que consomem ultraprocessados foi de 80,5%. O percentual chega a 93% entre crianças de 24 meses a 59 meses. O consumo de bebidas adoçadas foi de 24,5% e 50,3%, respectivamente.
Um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), de 2026, mostrou a força desses produtos no lanche: 50% das crianças pesquisadas haviam consumido ultraprocessados no lanche no dia anterior.
Escola também é ambiente alimentar
Na nossa escuta, a escola apareceu como um dos ambientes mais decisivos para a alimentação infantil. Nas famílias com crianças em escolas públicas, a alimentação escolar foi descrita como referência de refeição equilibrada e, muitas vezes, como segurança: a criança "come de verdade" na escola. Entre famílias de renda mais alta, a preocupação se desloca para lancheira, a cantina e a qualidade nutricional das opções disponíveis.
Em 2025, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) anunciou diretrizes para reduzir gradualmente a compra de processados e ultraprocessados e ampliar alimentos in natura ou minimamente processados. O mínimo dessa categoria passa de 80% em 2025 para 85% a partir de 2026, enquanto o limite para processados e ultraprocessados cai para 10%.
A escola não é, portanto, apenas um lugar para ensinar o que é alimentação saudável. Ela é um ambiente alimentar. Por isso, políticas escolares precisam envolver o que é servido, vendido e anunciado, bem como o que aparece na cantina, o que circula no entorno da escola e como crianças participam das práticas alimentares.
Desigualdades espelhadas no prato
Os grupos de pesquisa evidenciaram desigualdades na alimentação infantil conforme a renda, o tempo disponível e a infraestrutura das famílias. Nos grupos de maior renda houve planejamento, acesso a frutas, verduras e laticínios, e também utilização do fast food e o delivery como estratégias para recompensa ou lazer. Nos grupos C e DE, o esforço principal era garantir o básico: arroz, feijão, alguma proteína, leite, pão e alimentos que sustentem, enquanto frutas, verduras, peixe e laticínios apareciam como desejáveis, porém condicionados ao preço.
O IBGE aponta que a insegurança alimentar grave atingiu 3,2% dos domicílios brasileiros em 2024, chegando a 6,3% dos domicílios no Norte e 4,8% no Nordeste. Nos relatos, quando o orçamento é instável, as famílias são condicionadas a realizar substituições e escolhas por alimentos de menor qualidade nutricional e, muitas vezes, menos saudáveis, mas que "sustentam" e "não estragam".
O que fazer? Políticas públicas!
Os registros de pais e mães expressam preocupação em oferecer alimentos mais saudáveis, mas esse desejo compete com uma rotina que favorece o alimento ultraprocessado. A resposta a isso não pode ser culpar as famílias, especialmente as mães e cuidadoras, que ainda têm maior carga de trabalho doméstico, cuidado com os filhos e com a alimentação.
Nesse sentido, estudos brasileiros são referência ao demonstrar que os modos de viver, adoecer e se alimentar estão condicionados pelas determinações sociais da saúde, como renda, trabalho, acesso aos alimentos, publicidade, território e desigualdades de gênero.
Essa compreensão é fundamental para retirar das famílias, especialmente das mães e cuidadoras, o peso da culpa individual pela alimentação infantil e deslocar o debate para pensar que tipo de sociedade estamos construindo coletivamente para garantir o presente e o futuro das crianças.
Proteger a alimentação infantil exige uma combinação de medidas. A primeira é fortalecer a alimentação escolar, garantindo refeições saudáveis, culturalmente adequadas e com alimentos in natura e minimamente processados.
A segunda é regulamentar a alimentação oferecida em cantinas de escolas, no entorno do ambiente escolar e a publicidade de alimentos para as crianças.
A terceira é contribuir com as condições estruturais que podem tornar alimentos saudáveis mais acessíveis, práticos e desejáveis.
A quarta é apoiar quem cuida da alimentação em casa, reconhecendo que planejar, comprar, cozinhar, armazenar e negociar preferências com as crianças é trabalho e, muitas vezes, trabalho concentrado nas mulheres.
A alimentação das crianças não depende só dos pais porque o prato das crianças é moldado por um conjunto de fatores sociais, econômicos e culturais. Ele começa na renda, passa pelo mercado, pela escola, pela tela do celular, pela jornada de trabalho e pelo cuidado doméstico. Se queremos que crianças comam de maneira mais saudável, precisamos parar de tratar a alimentação infantil como uma escolha individual das famílias de forma isolada. Ela é fruto de um sistema e uma responsabilidade coletiva.
Nada a divulgar.
Bruna Liria Avelhan, Claudia Cheron König e Renan Rosolem Machado não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que poderiam se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelaram nenhum vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.
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