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A comunidade científica se prepara para comunicar resultados das buscas por vida fora da Terra: entenda como e por quê

É preciso balancear o entusiasmo na busca com a sobriedade na comunicação de resultados para evitar ciclo de manchetes bombásticas e posteriores refutações que minem credibilidade da astrobiologia

14 abr 2026 - 10h35
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Em parceria com a revista FCW Cultura Científica, da Fundação Conrado Wessel, o The Conversation Brasil traz uma série de artigos sobre os desafios da astrobiologia, tema central da edição mais recente. Trata-se de um campo multidisciplinar da ciência que busca compreender a vida como fenômeno cósmico: sua origem nas interações químicas do Universo primitivo, sua persistência em ambientes extremos, suas condições de possibilidade em outros mundos. No texto abaixo, o jornalista e pesquisador Danilo Albergaria relata as tentativas da comunidade científica de criar parâmetros objetivos para comunicar possíveis evidências de vida fora da Terra, em meio ao avanço das pesquisas e ao risco de anúncios prematuros.

Por que os cientistas e as instituições de pesquisa estão percebendo a necessidade de adotar parâmetros objetivos para a comunicação de resultados da busca por vida fora da Terra? Estaríamos nos aproximando de uma descoberta? Seria possível estimar se estamos caminhando nessa direção?

Cientistas da NASA publicaram na revista Nature, em 2021, um chamado para a comunidade de astrobiologia elaborar um quadro conceitual para comunicar resultados e possíveis evidências na busca por vida fora da Terra. Para dar a partida na conversa, os pesquisadores da Nasa propuseram um modelo que chamaram de "Escala de Confiança da Detecção de Vida". A escala é mais conhecida na comunidade científica pelo acrônimo CoLD, do original em inglês "Confidence of Life Detection".

A CoLD é uma escala numérica de 1 a 7 que mede o grau de confiança dos resultados na busca por vida extraterrestre. O principal foco da proposta é estabelecer níveis em que as detecções de indícios conhecidos como bioassinaturas podem ser interpretadas como sinais de existência de vida - passada ou presente - fora da Terra.

O nível 1 corresponderia à detecção inicial de um sinal que sabidamente resulta de atividade biológica, mas cuja validade ainda dependeria de análise para descartar contaminações. No nível máximo, o 7, teríamos uma detecção inequívoca, com linhas adicionais de evidência de atividade biológica em que causas abióticas (ou seja, sem o envolvimento da vida) poderiam ser descartadas.

Notícias sobre possíveis sinais de vida

O objetivo declarado da adoção de uma escala como a CoLD é evitar que projetos voltados à busca por vida extraterrestre sejam avaliados como fracassados caso não produzam detecções certeiras e inequívocas. Na perspectiva dos proponentes da escala, uma missão que retorne indícios sugestivos da presença de vida, ainda que falhe em atingir uma detecção inequívoca, poderá ser avaliada como progresso na busca. Assim, resultados incertos ainda seriam avanços no conhecimento científico e, quem sabe, poderiam nos aproximar de uma detecção futura.

Outra preocupação manifestada pelos autores da proposta é a de que anúncios prematuros de detecção de vida extraterrestre, especialmente se forem refutados logo em seguida, podem desgastar a confiança pública na astrobiologia. Atendendo ao chamado, a comunidade científica vem desenvolvendo padrões objetivos para a comunicação de evidências em astrobiologia.

Em 2022, foi publicada uma proposta de padronização para avaliar evidências de bioassinaturas em dois níveis: no básico, assegura-se a autenticidade do sinal, antes de passar a um nível interpretativo, que inclui esforços para eliminar possíveis origens abióticas do indício. Em 2023, emergiu outra alternativa, adaptando o quadro conceitual utilizado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para a comunicação de incertezas e do estado de consenso na comunidade científica sobre resultados da busca por vida extraterrestre.

Nenhuma das propostas "pegou" definitivamente, ainda. Mas é notável que, em duas oportunidades, em 2024 e 2025, a Nasa tenha utilizado a escala CoLD em press releases sobre a potencial detecção de possíveis bioassinaturas numa rocha colhida pelo rover Perseverance num antigo leito de rio em Marte.

Entusiasmo com a busca, preocupação com a comunicação

Como historiador de ciência e pesquisador em comunicação da astrobiologia, venho conversando com pessoas da área sobre como comunicar resultados da busca por vida fora da Terra - até organizei um workshop na Universidade de Leiden, na Holanda, para discutir o assunto em 2024 com cientistas e jornalistas. Também venho colaborando com a Nasa na elaboração da próxima estratégia da década para pesquisas na área. Isso tem me permitido entender as expectativas e preocupações que circulam na comunidade científica.

Conversei longamente com o primeiro autor do artigo que propôs a escala CoLD, o ex-chefe da Nasa James Green. Nos encontramos no primeiro simpósio internacional de agricultura espacial, que ocorreu em São José dos Campos, no interior de São Paulo, em outubro do ano passado. Green se mostrou muito entusiasmado não apenas com possíveis detecções de bioassinaturas de vida marciana passada, mas também com a possibilidade de a vida microbiana ainda existir nos aquíferos de subsuperfície em Marte.

O planeta já teve condições mais favoráveis à vida como conhecemos no passado remoto e, se água líquida ainda existe debaixo de seu regolito inóspito, poderia ter fornecido o abrigo necessário a micróbios contra a alta radiação que castiga a enferrujada superfície marciana.

O entusiasmo com as possíveis bioassinaturas detectadas com o Perseverance em Marte não é injustificado e dá base para que os cientistas defendam a manutenção da missão de retorno de amostras, ferida de morte pelos cortes no orçamento da Nasa pelo governo de Donald Trump. Só trazendo amostras marcianas para a Terra será possível submeter as possíveis bioassinaturas a análises com equipamentos adequados, diminuindo as incertezas e dirimindo as dúvidas que pairam sobre os resultados.

Os motivos para a comunidade tentar estabelecer parâmetros objetivos para a comunicação de detecções de bioassinaturas não são apenas o otimismo com a busca, mas a expectativa de que os avanços estarão acompanhados de obstáculos e armadilhas na comunicação dos resultados. Desde 1996, com o estardalhaço midiático provocado pela alegação de detecção de microfósseis num meteorito de origem marciana, o ALH84001, episódios da história recente da comunicação da astrobiologia mostram que essa preocupação é bastante justificada.

Em 2010, a NASA anunciou uma conferência de imprensa sobre resultados que, segundo a agência, teriam impacto na busca por vida extraterrestre. O anúncio da descoberta de um micróbio que substituiria o fósforo por arsênio em seu maquinário bioquímico não sobreviveu ao hype. Em pouco tempo, outros cientistas descobriram que o microrganismo descrito pela Folha de S.Paulo como "bactéria ET" ainda utilizava fósforo em vez de arsênio, e a alegação caiu por terra.

Ciclo de refutações

Com sua atmosfera tóxica e corrosiva e um efeito estufa que eleva a temperatura da superfície muito acima da de um forno de cozinha, Vênus andava meio esquecido pela astrobiologia até que, em 2020, sinais de fosfina foram detectados nas nuvens superiores do planeta, onde a temperatura é mais amena. Aqui na Terra, a fosfina é produzida apenas pela vida, e o resultado animador produziu manchetes entusiasmadas com a possível presença de vida em Vênus - além de impulsionar um punhado de missões espaciais ao nosso vizinho mais próximo. Um ciclo de refutações e contra-refutações se seguiu ao anúncio inicial e a existência de fosfina nas nuvens venusianas continua muito debatida.

Em 2023 e 2025, vieram as primeiras alegações de detecção de possíveis bioassinaturas na atmosfera de um exoplaneta. Pesquisadores de Cambridge, no Reino Unido, publicaram análises de observações da atmosfera do planeta K2-18b com o telescópio espacial James Webb e alegaram ter detectado - com considerável grau de confiança em 2025 - a presença do composto químico sulfeto de dimetila, ou DMS, que na Terra é produzido por vida marinha, principalmente fitoplânctons. Novamente, manchetes bombásticas se seguiram à publicação dos estudos, que continham especulações sobre possível vida no exoplaneta. As alegações acabaram refutadas em análises independentes posteriores e o consenso atual é de que as detecções de DMS no K2-18b não se sustentam.

Com o progresso tecnológico produzindo telescópios cada vez mais sensíveis e melhores, é de se esperar que alegações como essas se tornem corriqueiras na próxima década. Esse é o cerne do problema: o ciclo de anúncios com alegações extraordinárias produzindo manchetes bombásticas e posteriores refutações. Se esse padrão se repetir muitas vezes, as consequências para a credibilidade da astrobiologia podem ser muito negativas. Além disso, é difícil saber se estamos nos aproximando de uma descoberta genuína de vida fora da Terra, mas há razões para otimismo. A comunidade científica vem procurando balancear esse entusiasmo na busca com a sobriedade na comunicação de seus resultados. Resta saber se será bem-sucedida em conciliar as duas forças opostas.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Danilo Albergaria é membro da Força Tarefa da Estratégia Decenal de Pesquisa e Exploração em Astrobiologia da NASA. Tem financiamento da Fapesp no projeto "Pontes interdisciplinares para a compreensão da vida no Universo: o Núcleo de Apoio à Pesquisa e Inovação em Astrobiologia e o Laboratório de Astrobiologia da USP."

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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