Um viva às regalias e aos privilégios de ser pessoa com deficiência
Ser impedido de entrar em locais comuns, não poder trabalhar porque não há acessibilidade nem para sair de casa, usar cadeira de rodas e ficar horas no ponto vendo vários ônibus passarem direto, ter transporte recusado por estar acompanhado de cão-guia, ser rejeitado pela escola, ser retirado do avião e acusado de colocar outros passageiros em perigo, não conseguir acompanhar filmes, peças de teatro, palestras e até aulas porque não há legendas nem tradução em Libras. São alguns itens da longa l
O artigo ironiza o senso comum de que pessoas com deficiência possuem privilégios, expondo a dura realidade do capacitismo diário. O texto denuncia as barreiras enfrentadas desde a falta de acessibilidade urbana e arquitetônica até a negligência nos transportes, no mercado de trabalho e na educação. Longe de usufruir de supostas vantagens, esse grupo lida com um cotidiano exaustivo, marcado pelo preconceito e pela exclusão perpetuada por uma sociedade e governantes desinformados.
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Neste atual mundo de verborragias ignorantes e verdades consumadas sobre como é sensacional ser gente com deficiência para poder comprar carro novo com desconto, o desconhecimento não é obstáculo para avaliações e opiniões a respeito das exclusividades entregues apenas aos sortudos de fazerem parte dessa ala vip da existência.
Percebam como é lindo o mundo das pessoas com deficiência e suas vantagens exorbitantes.
Quem não quer depender dos recursos de acessibilidade para fazer qualquer coisa, inclusive tomar banho ou comer um pastel? Afinal, não há nada mais benéfico do que ser impedido de viver diante de uma quantidade interminável de obstáculos.
A lista de privilégios é bem grande e toda pessoa com deficiência tem tópicos para acrescentar. Em todos os setores, sem exceção, gente com deficiência se dá muito bem e aproveita as regalias impostas pela sociedade capacitista.
Começa na saída de casa, do apartamento, no corredor estreito e no elevador apertado, quando há elevador, na falta de sinalização mínima para o morador cego não bater a cabeça em nada e nem correr o risco de rolar escada abaixo.
Continua na calçada irregular, esburacada, com postes e árvores no meio do caminho e desníveis que transformam a restrição de mobilidade e uma aventura divertida. Passa pela impossibilidade de entrar em prédios, lojas e espaços públicos.
Segue com o desconhecimento a respeito das deficiências auditivas, aquela certeza de que o povo surdo é todo idêntico e a oferta pífia de tecnologia assistiva, legendas, tradução e interpretação em língua de sinais resolve tudo.
Vai em frente no ponto de ônibus e o sujeito na cadeira de rodas que passa horas aguardando um coletivo parar para ele entrar enquanto é alvo de olhares, julgamentos e xingamentos por ter atrapalhado a rotina da galera.
Chega na recusa da matrícula na escola porque é impossível atender ao estudante diferente ou no abandono do aluno atípico dentro do colégio.
Está na vaga reservada de trabalho que a empresa só ocupa por exigência da lei, se houver fiscalização firme e se o profissional contratado não causar transtornos à equipe.
Fica escancarada na recusa do transporte à pessoa cega acompanhada de cão-guia e na expulsão do avião porque ser pessoa com deficiência coloca todos em risco. Enfim, inclua suas próprias benesses.
'Regalias', 'privilégios' e 'vantagens' são palavras incompatíveis com a realidade bruta da pessoa com deficiência. 'Exauriente', este sim, é o vocábulo que lidera o rol dos termos para identificar a rotina de quem tem deficiência e permanece sob juízo da casta incapaz de compreender a vida em toda sua abrangência.
Como nossa sorte é infinita, os representantes da estupidez coletiva ocupam posições de poder.
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