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Para ativistas, racismo inviabiliza Dia da Consciência "Humana"

Falta de letratamento racial e minimização da vulnerabilidade social da população negra costumam gerar críticas infudadas à data de hoje

20 nov 2022 - 05h00
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Ana Minuto: "Para a população negra é dado sempre o pior lugar, o da marginalidade"
Ana Minuto: "Para a população negra é dado sempre o pior lugar, o da marginalidade"
Foto: Divulgação / Divulgação

Há mais de uma década o Dia da Consciência Negra é tomado por posts nas redes sociais com a célebre frase - tirada de contexto, vale lembrar - do ator Morgan Freeman afirmando que considera "ridículo" o fato de existir um mês para a Consciência Negra e argumentando que, para se combater o racismo, era melhor não falar sobre o assunto. Freeman também teria dito que "o dia em que deixarmos de nos preocupar com consciência branca, negra ou amarela e nos preocuparmos com consciência humana, o racismo deixará de existir". A fala costuma ser usada por muita gente, em sua maioria pessoas brancas, para relativizar a importância da data e, conforme ativistas, da luta negra.

Sobre a entrevista concedida em 2006 ao programa "60 Minutes" (CBS), o ator chegou a justificar posteriormente que na sua visão o ideal seria acabar com a consciência de raça e parar de colocar rótulos de cores às pessoas. Contextos ou não à parte, o fato é que a polêmica sobre a inexistência de um dia da consciência humana, branca ou universal em detrimento da oficialização do Dia da Consciência Negra sempre vem à tona em novembro e gera repercussão entre ativistas e representantes dos movimentos negros, que apontam incongruências na reivindicação.

Para Ana Minuto, cocriadora do Potências Negras Summit, evento online de carreira focada na população negra que chega a atingir 5 milhões de pessoas em 20 países, antes de criticar o Dia da Consciência Negra é importante relembrar o passado escravocrata do Brasil que impacta as pessoas negras em todas as relações. "Quando a gente fala em reação humana, realmente, somos uma raça só. Porém, nós fomos colocados em um lugar de menor valor que nos nega o afeto, o trabalho, a alimentação, a saúde. Somos a população que vive em vulnerabilidade social constante por conta desse processo escravocrata e por isso não dá para gente falar da raça humana e tudo bem. Para a população negra é dado sempre o pior lugar: o da marginalidade", afirma.

Já Jacques d'Adesky, doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), sustenta que o uso da expressão "consciência negra" não visa valorizar uma cor ou uma raça, mas a inteligência de uma comunidade que conseguiu ressignificar positivamente a palavra "negro", legado da escravidão que visava desumanizar os africanos escravizados. "Celebrar o Dia da Consciência Negra no Brasil trata de reconhecer o aporte positivo da comunidade negra à formação socioeconómico e cultural ao longo da história do país", diz ele, que é autor do livro "Uma Breve História do Racismo, Intolerância, Genocídio e Crime contra a Humanidade" (Cassará Editora).

Jacques d'Adesky: uso da expressão "consciência negra" não visa valorizar uma cor ou uma raça, mas uma comunidade que ressignificou sua jornada
Jacques d'Adesky: uso da expressão "consciência negra" não visa valorizar uma cor ou uma raça, mas uma comunidade que ressignificou sua jornada
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Sociedade racista

A taxa de extrema pobreza entre negros (pretos e pardos) representa mais do que o dobro se comparado com os brancos, segundo a Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O levantamento mostra que em 2020 a extrema pobreza atingiu 7,4% dos pretos e pardos, enquanto a pobreza foi presente na vida de 31% desta população; já entre os brancos, o indicador marcou 3,5% e 15,1%, respectivamente.

Além de maioria entre os desempregados (46%), a população negra também recebe menores salários. A diferença média de rendimentos mensais de brancos e pretos ou pardos ultrapassa R$ 1.200,00. "São dados que mostram que todos precisam reconhecer e ter consciência de que vivemos numa sociedade racista", diz Luanny Faustino consultora da CKZ Diversidade, que defende que o reconhecimento dessa realidade permite refletir sobre como podemos construir de forma conjunta uma sociedade justa para todas as pessoas.

Na opinião de Dom Filó, coordenador executivo da CULTNE, o maior acervo virtual de cultura negra da América Latina, celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra é o mínimo que os negros brasileiros merecem após vivenciarem mais de 300 anos de escravidão nesse país, que até pouco tempo atrás não reconhecia o racismo impregnado em suas entranhas. "A reparação se faz necessária por conta da contribuição cultural, linguística e entre outros costumes que forjaram a cultura brasileira. Portanto, caiu a farsa da democracia racial do pós-período escravagista e hoje vivemos um momento crucial na luta antirracista em que jovens negros são mortos a cada 23 minutos, espaços dos cultos de religiões de matrizes africanas são vilipendiados e ameaçados pelo discurso de ódio de grupos racistas", lembra.

"Essa reparação é necessária, sem descriminar as outras etnias", fala candomblecista Rosa Perdigão
"Essa reparação é necessária, sem descriminar as outras etnias", fala candomblecista Rosa Perdigão
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A candomblecista Rosa Perdigão, coordenadora geral da Associação das Baianas de acarajé do Rio de Janeiro (ABAMRJ)  e vice-presidente do Conselho Municipal de Política Cultural (CMPC), endossa a lógica de Dom Filó: "Eu não celebro o Dia da Consciência negra, eu recordo e multiplico o porquê dessa data com a verdadeira história, aquela  que os livros não contam. 

E, sim, essa reparação é necessária, sem discriminar as outras etnias. Qualquer pessoa que vivenciou a história tem muito para falar sobre a diferença que nós, negros, sentimos principalmente na cor da nossa pele!", diz.

Ato político e afirmação

A cantora Paula Lima reforça que a data é um ato político de afirmação da história do povo negro. "É o dia de celebrar a existência de Zumbi dos Palmares, o maior símbolo de resistência contra todas as formas de exploração, contra a escravidão, a opressão, a desigualdade. O 20 de novembro é o dia de refletir, conscientizar, lutar por igualdade e justiça e, principalmente, reafirmar o compromisso com o futuro, com políticas afirmativas para equilibrar um passado cruel e injusto. É o dia de reafirmar o compromisso com a democracia e a liberdade", pontua.

Paula Lima: data é um ato político de afirmação da história do povo negro
Paula Lima: data é um ato político de afirmação da história do povo negro
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"Eu diria que temos poucos motivos pra celebrar, mas prefiro enxergar o copo “meio cheio” e celebrar o que a negritude produziu de positivo", comenta Fernanda Ribeiro, cofundadora da Conta Black. "Como, por exemplo, o reflexo positivo das políticas afirmativas implementadas, que permitiram o aumento em 400% da quantidade de negros em universidades públicas. O aumento da representatividade negra nos espaços também é algo que me faz celebrar muito. Cada vez mais vemos “primeiros negros” a fazerem coisas importantes e isso gera um efeito em cadeia nas próximas gerações. E por último, celebro a nossa coragem para protagonizar negócios que atendem às nossas demandas específicas, que por muito tempo foram ignoradas pelo mercado. É muito bom ver cada vez mais empreendimentos liderados por pessoas negras, para pessoas negras", completa Fernanda.

Inversão de perspectiva

Para encerrar a controvérsia sobre a relevância ou não da data, Leizer Pereira, fundador e diretor executivo da Empodera, uma das maiores plataformas do Brasil na construção e aceleração de negócios inclusivos, lança a pergunta: você já sofreu racismo ou acha que está sujeito a sofrer racismo? "Se a resposta for não, e você vive na bolha das pessoas brancas de classe média, quem sabe essa data não lhe sensibilize sobre o problema central do racismo que precisamos vencer para darmos um passo civilizatório à frente. O problema do racismo é dos negros e dos brancos, e assim como você é parte do problema, você também é parte da solução. Busque seu letramento racial e se engaje na causa", afirma.

"Temos, sim, que celebrar o Dia Nacional da Consciência Branca! Afinal, os euro-brasileiros descendem de povos que foram escravizados e submetidos a tratamentos brutais, incluindo torturas e estupros, por parte dos africanos e seus descendentes. Mesmo após a Abolição da Escravatura, continuaram a ser discriminados no mercado de trabalho e vitimados pela violência policial, para não falar na área do judiciário e até na medicina obstetrícia, em que mulheres brancas recebem, comprovadamente, menos atenção. E isso é particularmente visível no cinema e na televisão, em que brancos têm muito menos visibilidade, sendo relegados a papeis secundários. E também na política, em que são sub-representados nos cargos executivos e nos parlamentos", ironiza de maneira cirúrgica Carlos Alberto Medeiros, mestre em Ciências Jurídicas e Sociais e autor de "Na Lei e na Raça: Legislação e Relações Raciais, Brasil-Estados Unidos" (Ed. Lamparina). 

Pereira, da Empodera: é hora de buscar o letramento racial e se engajar na causa
Pereira, da Empodera: é hora de buscar o letramento racial e se engajar na causa
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Para provar sua teoria de como inversão de perspectiva soa dissonante da realidade, ele convoca, ainda de maneira sarcástica, que "é hora de reagir ao privilégio negro comemorando o grande herói Domingos Jorge Velho. Viva o Dia da Consciência Branca!". Domingos Jorge Velho foi um bandeirante paulista que caçava escravos fugitivos e liderou as tropas que destruíram o Quilombo dos Palmares, invasão na qual morreu Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1965. 

Fonte: Redação Nós
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