"Intimidade": 4 discussões importantes levantadas pela série
Recém-lançado na Netflix, drama espanhol mostra o efeito devastador sobre vazamento de vídeos íntimos na vida das mulheres
Mesmo estreando na Netflix sem alarde, "Intimidade" tem conquistado público e crítica ao contar em oito episódios os desdobramentos dramáticos que a exposição de vídeos íntimos pode causar para uma mulher. No caso da série, duas mulheres: Malen Zubiri (Itziar Ituño, a Lisboa de "La Casa de Papel"), vice-prefeita da cidade espanhola de Bilbao e candidata ao cargo principal na próxima eleição, e a operária Ane (Verónica Echegui), que se suicida após a repercussão na fábrica em que trabalha.
Criada por Verónica Fernández e Laura Sarmiento, "Intimidade" faz um retrato doloroso e fiel das consequências - no trabalho, na rotina, na família - da divulgação sem consentimento de imagens sexuais e joga luz sobre temas importantes como machismo e as diferentes facetas da violência contra a mulher. Veja 5 pontos relevantes abordados pela série:
A culpa nunca é da vítima
Em uma coletiva de imprensa na qual se recusa a desistir da candidatura à prefeitura, Malen frisa que é uma mulher adulta que fez sexo consensual com outro adulto e deixa claro que foi alvo de um crime do qual não se sente responsável. Tanto ela quanto Ane enfrentam momentos terríveis de constrangimento e julgamento, mas sabem que não são as culpadas pelo ocorrido.
Machismo estrutural precisa ser combatido
Imprensa, colegas de trabalho e familiares, entretanto, culpam Malen e Ane pelos vídeos íntimos. As duas são classificadas como "vadias" e sofrem agressões verbais, chantagens e opressão, sobretudo no ambiente profissional em que convivem com homens, em sua maioria. O caráter de ambas é colocado à prova e os vídeos em que surgem transando se tornam a única régua válida para defini-lo. O curioso é que aqueles que receberam e depois compartilharam o vídeo em nenhum momento se percebem como parte do problema.
E se elas fossem homens?
"Intimidade" convida o tempo todo a fazer esse questionamento e refletir sobre o moralismo e juízo de valor atribuídos de forma bem distintas conforme o gênero. A solidão com que as personagens lidam com o problema é um bom exemplo de como a mulher é discriminada frente à uma situação vexatória. Ane é criticada pelas outras operárias, que justificam o fato de "não ter fechado as pernas" como uma autorização para os comentários dos homens. Malen não tem uma amiga sequer para apoiá-la, enquanto seu marido ri junto dos "parças" no bar mesmo sendo chamado de "corno".
Denunciar é fundamental
Interromper o ciclo de exposição íntima só é possível com a denúncia. No Brasil, segundo o artigo 218C do Código Penal (2018), oferecer, trocar, transmitir, vender distribuir, publicar ou divulgar, por qualquer meio - inclusive pela internet - fotografias, vídeos ou outro registro audiovisual que contenha pornografia ou nudez sem o consentimento da vítima, assim como cena ou apologia de estupro ou de estupro de vulnerável ou cena de sexo, é crime. A lei prevê a reclusão de um a cinco anos. Caso o criminoso seja um ex-namorado(a) e a divulgação tenha fim de vingança ou humilhação (o chamado "pornô de vingança"), a pena pode aumentar de um a dois terços. A vítima também pode entrar com uma ação de danos morais.