Velejo mais rápido para ver meu filho, diz competidora
A saudade de casa, dos filhos e da família é apontada por 10 em cada 10 velejadores que optam pelas regatas de volta ao mundo como o maior problema da profissão. Os competidores que participam da Volvo Ocean Race, maior e mais tradicional regata de volta ao mundo, até mudam a expressão quando tocam no assunto. Chegam a passar de 20 a 30 dias fora de casa, com pouca comunicação com familiares, se encontrando apenas em portos e poucos momentos em terra, entre um trecho e outro.
Imagine então uma mãe nesse papel. Os problemas enfrentados em alto mar são apenas mais alguns da lista de quem passa mais tempo longe dos filhos e dos maridos do que perto. "Quando se tem filho muito pequeno, tudo muda muito rápido. Você fica 20 dias sem vê-lo e, quando volta, está maior, está falando palavras novas. É difícil perder essa fase de crescimento, voltar para casa e ver que ele está diferente", afirma Carolijn Brouwer, componente do time da SCA, única equipe exclusivamente feminina da competição.
Rodeada por 10 mulheres no barco, a holandesa que morou muito tempo no Rio de Janeiro, e que fala um português impecável, conta que a situação é comum entre a equipe da SCA, fato que ajuda nos momentos de saudade do filho de 4 anos. E serve de motivação na disputa. "Tenho certeza que trabalho melhor e faço o barco ir mais rápido quando sei que a minha família e meu filho estão esperando no próximo porto. É bem difícil, mas tento me concentrar nas chegadas e não nas partidas, sabendo que meu filho estará lá com um sorriso no rosto".
Carolijn conta que o planejamento de mãe de família que decide velejar pelos cinco oceanos começa muito antes dos trabalhos com a equipe. Antes de tudo, é em casa que a viagem tem início. "Escolher fazer parte desse projeto foi uma decisão bem difícil. Agora tenho outras responsabilidades, sabia que tinha que organizar a minha vida bem. Escolhi uma babá e assim ele está em todos os portos que a gente e na hora você esquece de tudo que está acontecendo em volta. Sei que ele fica em boas mãos, recebendo o amor e atenção que precisa e que me deixa concentrada para fazer o meu trabalho".
Durante o período em alto mar, entre as horas trabalhadas e as horas de descanso e alimentação, existe um contato rápido com os familiares, que normalmente acontece por e-mail. "A gente tem o contato uma vez por semana, só para saber como está a família, como andam as coisas, dar notícias da vida no barco, que estamos bem, que podem ficar sossegados e que vamos chegar em terra dentro de um número de dias", disse Carolijn.
O chefe entende os problemas
Com longa experiência em vela, o técnico da equipe SCA não só entende bem os problemas vividos pelas mulheres do barco, como já passou por situações parecidas ou até piores. O brasileiro Joca Signorini, medalhista olímpico e ganhador de uma Volvo Ocean Race, chegou a perder o nascimento da filha por estar envolvido em uma regata. Ele lembra que o parto demorou mais que o esperado, não conseguiu ser liberado de uma das 'pernas' do torneio e só recebeu a notícia uma hora depois, por telefone.
"Quando soube, comemoramos muito no barco, fumamos charuto e ali só pensava em chegar em terra o mais rápido possível. Assim que chegamos, corri para o aeroporto, fiquei dois dias com elas, e voltei para o reinício da disputa", lembra Joca. "Infelizmente quem escolhe esse caminho da vela e da volta ao mundo, deixa a vida pessoal um pouco de lado. O trabalho exige esses sacrifícios, mas minha família entende".
* O repórter viajou a convite da SCA
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