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Raí reflete sobre ambiente de ódio no futebol: ‘Teria muito mais dificuldade hoje em dia’

Ídolo do São Paulo conversou com o Terra e respondeu sobre as mudanças no futebol

12 jul 2026 - 04h58
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Raí comemora título da Libertadores pelo São Paulo
Raí comemora título da Libertadores pelo São Paulo
Foto: ORLANDO KISSNER/Estadão Conteúdo

Raí conquistou nove títulos com a camisa do São Paulo entre 1989 e 2000, e se firmou como unanimidade entre os torcedores do Tricolor Paulista. Se em sua época as críticas ficavam restritas às manifestações em estádios ou programas esportivos, hoje em dia o mundo está diferente: as redes sociais facilitaram que o ódio chegue ao atleta.

“Não estou sentindo na pele, mas o momento do mundo é essa polarização. O cara é herói ou carrasco. Hoje em dia, existem espaços nas redes sociais para demonstrar ódio. Pode ser o cara mais amado do mundo do futebol, vai ter momentos que ele vai ser odiado. Não só criticado, mas vai ser insultado”, reflete ao ser questionado em conversa com o Terra.

O ex-camisa 10, inclusive, admite que o cenário de ódio torna a relação dos jogadores com torcedores mais difícil do que em seu período como atleta.

“Eu realmente não sei como reagiria. Hoje a gente vive um outro mundo que o jogador tem que se adaptar e não é fácil. É uma coisa que não é fácil lidar, acho que eu teria muito mais dificuldade hoje em dia”.

Em um mundo distante do atual, Raí se firmou como um dos maiores ídolos da história do São Paulo. Foram 128 gols em 395 partidas oficiais, com os títulos do Campeonato Paulista (1989, 1991, 1992, 1998 e 2000), Brasileirão (1991), Libertadores (1992 e 1993) e Mundial (1992). 

Mais do que os feitos dentro de campo, o ex-meio-campista também se destacou ao longo da trajetória pela personalidade fora de campo. Com um lado estudioso que o levou a se formar em História e a fazer um mestrado em Políticas Públicas, o ex-atleta conduz a Fundação Gol de Letra desde 1998.

Raí em partida do São Paulo contra o Barcelona no Mundial de 1992
Raí em partida do São Paulo contra o Barcelona no Mundial de 1992
Foto: ORLANDO KISSNER/Estadão Conteúdo

Seus posicionamentos fora de campo vão na contramão da visão que o público tem do jogador de futebol. Mesmo assim, Raí afirma que o interesse por pautas além da bola costuma ser bem visto entre os atletas.

O ídolo são-paulino até revela que muitos outros jogadores têm interesses por livros e estudos, mas preferem não tornar os hobbies como algo público. Para ele, a motivação principal para o aspecto ser mais reservado é a pressão externa.

“O meio do futebol é um pouco conservador e tem esses estereótipos. As pessoas de fora do futebol me perguntavam se por ser um cara esclarecido, que se interessa por outros assuntos, sentia quase que um preconceito, mas não. Tem uma coisa que é até questão do ambiente, o cara que começa a falar muito de literatura e de outros assuntos, o torcedor e a própria imprensa valorizam, mas, ao mesmo tempo, falam que o cara não está focado, não pensa só em futebol. Tem um certo estereótipo que as pessoas esperam de um atleta. Isso não incentiva eles a divulgarem mais esse outro lado”, analisa.

Raí até recorda que o técnico Cilinho costumava levar os jogadores do São Paulo para eventos culturais nos dias de concentração antes dos jogos. As atividades também funcionavam como uma válvula de escape para o futebol em momentos mais delicados.

“O Cilinho levava a gente no teatro,em show de música. Ele instigava isso para o desenvolvimento intelectual, obviamente, mas também para o atleta pensar em outras coisas, e sempre serviu para mim. Tive momentos complicados aqui no Brasil e na adaptação na França, por exemplo, e gostava de pensar em outra coisa, me fazia bem, ir a um teatro, um show, num espetáculo de dança”, detalha.

Embora veja os jogadores ainda optando por manter os hobbies intelectuais em um campo mais discreto, Raí vê como algo natural o caminho para o futebol se tornar mais conservador. 

“A tendência é isso ir ficando cada vez mais natural. Os atletas vão ficando cada vez mais esclarecidos, com mais acesso à informação. Na minha geração e nas gerações anteriores, o acesso era mais à escola e só. E a maioria teve que deixar a escola cedo ou a escola não era de boa qualidade, vem de regiões muito pobres. Então não tiveram essa oportunidade. Hoje em dia, os atletas estão muito mais conectados com informações diferentes. O jogador hoje em dia é muito mais consciente”, reflete o ex-camisa 10.

O ex-jogador, inclusive, tenta levar essa mensagem para os garotos que sonham com uma carreira no futebol. No cargo de embaixador do Paris FC, Raí revela que já avistou aos atletas das categorias de base que o aspecto intelectual pode ser um diferencial em algumas situações.

“O Sócrates falava que os jogadores tinham que ter direito a um tempo para se dedicar à formação e aos estudos. E, às vezes, isso não é incentivado nos clubes. Recentemente falei para os atletas do Paris FC que o intelectual passou a ser um diferencial. Você tem dois jogadores com a mesma técnica e com o mesmo preparo físico, mas um cara é mais esclarecido e se interessa por outras coisas, já está vendo um diferencial para o time escolher o jogador”, conta à reportagem.

Além de refletir sobre o futebol fora de campo, Raí analisou uma evolução em outra área que entende bem: o meio de campo. Questionado sobre o ‘sumiço’ dos camisas 10, o ídolo do São Paulo apontou os aspectos táticos e físicos como ‘culpados’ da mudança na posição.

“Hoje em dia, os camisas 10 são atacantes. Isso simbolicamente demonstra muita coisa. Hoje em dia, as linhas entre defesa, meio-campo e ataque tem muito menos espaço dentro da organização tática, mais a intensidade física, sobra muito menos espaço para esses atletas que eram os armadores, camisa 10, que ao mesmo tempo chegavam à frente para concluir. Eles existem ainda, mas com outras características, aquele clássico é mais difícil achar até porque tem menos espaço. Dou o exemplo do [Kevin] De Bruyne e o [Jude] Bellingham. Até o próprio volante, a gente usa a expressão box to box. É box to box, mas não entra [na área]”, completa.

Fonte: Portal Terra
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