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Pelé 80 anos: um rei visto de perto

Nas entrevistas para um livro, biógrafo ressalta as personalidades de Pelé e Edson, suas angústias e até uma ponta de ciúmes do homem em relação ao mito

22 out 2020
13h06
atualizado em 23/10/2020 às 08h45
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Este não é um texto sobre Pelé. É sobre Edson - afinal, é ele quem está completando 80 anos nesta sexta-feira, dia 23. "O Edson conheceu o Pelé quando já tinha oito anos", disse o Rei do Futebol na nossa primeira conversa para a publicação do livro 1.283, da Editora Toriba.

O apelido nasceu por bullying. Nas peladas da criançada, o pequeno Edson gostava de jogar no gol. Sonhava ser Bilé, companheiro do pai, Dondinho, no Bauru Atlético Clube. Só que o rapazinho se confundiu e chamou Bilé de Pelé. Os outros meninos pegaram no pé. Ele não gostou e, claro, o apelido grudou.

Surgia assim a dupla identidade. Quando veio a fama global, aos 17 anos, Edson passou a falar de Pelé na terceira pessoa. Não por empáfia, mas para lidar com a grandeza de tudo o que estava acontecendo. Enquanto Pelé representa a faceta quase perfeita, divina, Edson é o lado humano, bem mais suscetível a erros. É pelas atitudes como Edson que ele costuma ser condenado por quem se propõe a julgá-lo. O principal motivo é a relação tumultuada com a filha Sandra Regina, que só foi reconhecida por força da lei. Ela morreu de um câncer, em 2006, aos 42 anos.

Quando falamos de Pelé, o atleta, é difícil encontrar razão para críticas ou condenações. Ele ganhou inúmeros títulos, na seleção e no Santos. Fez 1.283 gols, marca até hoje não superada. Dedicava-se muito aos treinos - a habilidade com a perna esquerda foi uma conquista, não um dom natural - e preocupava-se com os companheiros. Várias vezes atuou no sacrifício, durante as excursões do Santos pelo mundo, porque o cachê para todos seria maior com a sua presença.

Uma das consequências disso ele enfrenta hoje: problemas físicos, como o desgaste dos quadris, que decorrem dos excessos cometidos numa época em que jogar três vezes por semana era normal. Pelé anda com dificuldade, sempre apoiado. Adotou o andador e a cadeira de rodas. Prefere ficar sentado.

Na relação com os fãs, nunca se soube de quem tenha sido maltratado por Pelé. Ao contrário. Há inúmeras fotos da época de jogador que o mostram feliz e solto em meio a pessoas comuns. Será que hoje o "Zé Povinho" consegue chegar tão perto dos ídolos?

No cotidiano do exercício da profissão, havia respeito com os colegas também. As fintas e os dribles de Pelé tinham o único objetivo de chegar mais perto do gol. Jamais tiveram o propósito de provocar ou humilhar um adversário. Esse foi um dos preciosos ensinamentos recebidos de Dondinho. "Meu pai sempre dizia que o meu dom para jogar futebol era um presente de Deus, que não podia ser usado para humilhar os outros meninos. Uma vez levei uma bronca enorme quando ele me flagrou dando caneta e chapéu sem necessidade num gordinho que jogava pelada com a gente lá em Bauru."

A mãe, Celeste, sempre manteve os pés no chão, apesar do nome. Com mais escolaridade que Dondinho, era ela quem cuidava das finanças da casa - incluindo a administração dos primeiros anos de salário do filho no Santos.

Na semana em que Edson completa 80 anos, é preciso reconhecer que ele carregou um fardo pesado para que Pelé brilhasse. Houve uma situação que, para mim, tornou-se símbolo disso. Quando tomavam conhecimento de que eu iria me encontrar com Pelé para entrevistá-lo, meus conhecidos diziam: "manda o meu abraço para o Pelé". Comentei com ele e a resposta, em tom amargo, me surpreendeu. "Para o Pelé todo mundo manda abraço, mas para o Edson ninguém manda."

Sim, Edson tem ciúmes e até mesmo inveja de Pelé, o astro, o ídolo, o imortal. Edson é um homem comum, que fez questão de ensinar os filhos a pedir a bênção, tem dificuldade para lidar com celular touch screen, adora mostrar fotos dos cachorros, orgulha-se da paella que faz e não tem o menor problema em deixar os olhos se encherem de lágrimas ao falar do passado.

Um homem que sabe que um dia vai deixar o mundo, enquanto Pelé permanecerá sempre vivo na nossa memória e nos corações das pessoas. Se bem que, convenhamos, Edson também desfrutou das conquistas de Pelé. No final das contas, talvez tenha sido uma parceria boa para ambos.

Quando Pelé parou de jogar, em 1977, Edson assumiu integralmente o papel de celebridade. E gostou. Fez cinema, namorou beldades, aventurou-se pela música, virou até ministro do Brasil (do Esporte, no governo FHC). É um dos rostos e nomes mais conhecidos do mundo - para sorte do célebre fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. "Devo minha vida ao Pelé", ele me contou.

Em 1994, Salgado estava às margens de um rio na fronteira entre Ruanda e Tanzânia, na África, quando foi abordado por um grupo de tutsis, então em conflito com os hutus, apoiados pela França. Inicialmente confundido com um francês, o fotógrafo passou a gritar desesperadamente que era do Brasil, mas só conseguiu arrefecer as investidas dos tutsis, que já estavam com os facões em riste, ao repetir "Pelé" várias vezes.

É isso. Pelé é alguém muito famoso, em todo o planeta, há mais de 60 anos. Mas e se, por um passe de mágica, ele ganhasse um dia de anonimato, em que pudesse ir a qualquer lugar sem ser reconhecido? Perguntei a ele como seria. "Chegar num lugar e ninguém me olhar, ninguém me reconhecer, ninguém me pedir autógrafo? Eu ia sofrer para chuchu. Eu abro mão desse dia de anonimato (risos)."

O humano e o divino frequentemente caminharam separados na trajetória de Edson-Pelé, mas a fusão de ambos sempre foi poderosa. Um desses momentos ocorreu no trajeto de ônibus até o Estádio Azteca, na Cidade do México, onde ocorreria a final da Copa do Mundo de 1970 contra a Itália.Era uma partida que definiria toda a carreira de Pelé. Nas Copas anteriores vencidas pelo Brasil, 1958 e 1962, ele se machucou e

não conseguiu participar das campanhas completas. Em 1966, ele também se contundiu. Em 1970, o título seria a sua coroação como Rei do Futebol, enquanto a derrota causaria uma decepção difícil de lidar, para ele e para todos os brasileiros.

A pressão era enorme. Edson teve uma crise de choro, em pleno ônibus. Foi Clodoaldo, titular daquela seleção inesquecível, quem me contou. "Só eu e mais dois ou três companheiros percebemos." Pelé confirmou a história. "De repente me deu um aperto no peito, uma tristeza, uma angústia, e comecei a chorar. Foi a melhor coisa, porque desabafei. Quando cheguei no vestiário, procurei a sala de massagem, para ficar sozinho. Deitei e coloquei uma toalha nos olhos, como sempre fazia no Santos. Era como eu me concentrava. Eu fazia isso e começava a pensar no adversário, em como o outro time jogava, quem ia me marcar, como seria a melhor forma de superar a marcação..."

Mais uma vez, Edson segurou a onda para Pelé brilhar. O restante daquele dia é História. Com H maiúsculo.

*Maurício Oliveira é o jornalista e escritor que escreveu e editou o livro 1.283 (Editora Toriba), sobre a trajetória de Pelé

Estadão
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