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Preocupação de Abel no Palmeiras, sono é controlado para evitar distúrbio que afeta 72% da população

Segundo estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz, cerca de sete em cada dez brasileiros relatam problemas para dormir

27 jun 2023 - 14h41
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A era vitoriosa do Palmeiras não está apenas no investimento em compra de jogadores e formação de meninos na base. O clube tem à disposição profissionais qualificados e um complexo que dá suporte aos seus atletas e comissão técnica em diversas áreas na Academia. Diante do investimento em tecnologia para monitorar o desempenho de um jogador, quanto mais informações o estafe do Palmeiras tiver, mais fácil de diagnosticar possíveis problemas, cautelas e formas de recuperação. Desse modo, a preocupação com o sono se tornou algo essencial para a elaboração desse sistema que faz, como diz o técnico Abel Ferreira, o time chegar sempre em sua "máxima força".

Em entrevista ao português Canal 11, Abel mostrou uma planilha em que acompanha até as horas e a qualidade do sono de seus jogadores. Saber se Dudu dormiu bem antes de um trabalho, pode ajudá-lo a postar no atleta. "Se vamos fazer um treino de alta intensidade e o jogador não dormiu, há um grave risco de lesão. Precisamos de cuidado com esses pequenos detalhes", afirmou o treinador português.

Membro da UEFA Academy e especialista na identificação de talentos pela Federação Inglesa de futebol, Sandro Orlandelli reforça que Abel Ferreira está correto em se preocupar com o sono dos seus jogadores. Ele tem formação em Harvard e foi scout de equipes importantes da Europa, como Arsenal, Manchester United e Saint-Éttienne, da França. Ele também foi diretor técnico no Red Bull Bragantino e Internacional.

"Três componentes são inegociáveis para a vida esportiva de alto desempenho: boa alimentação, treinamento adequado e sono. Esses três pilares precisam estar conectados de uma forma harmoniosa e eficaz. Essa prática comentada pelo Abel Ferreira sobre o controle do sono, ela já é uma percepção adotada pela maioria dos clubes. Na Europa isso também é comum, é uma realidade para buscar esse equilíbrio entre esses três componentes. O sono é importante porque o efeito do treinamento só virá após esse descanso, e esse procedimento precisa respeitar algumas fases", diz o especialista.

"A parte mais importante do sono para ter o efeito do treinamento é a REM (rapid eye movement), porque é nesse momento que o corpo consegue absorver todo o efeito do trabalho. O jogador que não respeita o seu ciclo biológico vai ter problemas de desempenho em campo, seja nos treinos ou no próprio jogo", afirmou Orlandelli. O sono REM, que significa 'movimento rápido dos olhos, é o mais difícil de se alcançar. É o mais profundo dos sonos, em que o corpo consegue relaxar. Dura em média 20 minutos.

Dormir mal é um distúrbio que atinge 72% dos brasileiros

Dormir mal é um problema cada vez mais recorrente entre os brasileiros. É o que mostra estudo realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em que cerca de 72% dos entrevistados relataram sofrer de distúrbios relacionados ao sono. A condição pode ter relação com diversos fatores, desde emocionais até clínicos.

Essa privação pode afetar a saúde, como também prejudicar o desempenho no ambiente de trabalho e na realização de atividades físicas. Uma pesquisa realizada pelo veículo The Journal of Strength and Conditioning Research, em 2017, com cerca de 600 atletas brasileiros - com carreiras de nível nacional e internacional -, mostrou que grande parte dos entrevistados acredita que uma noite de sono mal dormida acaba sendo um fator decisivo para uma performance abaixo do normal em competições.

Abel Ferreira é um adepto da prática. O técnico do Palmeiras realiza o monitoramento de sono dos jogadores porque isso está atrelado ao desempenho de campo. A preocupação com os pequenos detalhes é o que faz a diferença em uma decisão, costuma dizer. Um atleta que está sofrendo com privação do sono em treinos de alta intensidade e jogos pode ter seus reflexos alterado. Em casos mais graves, a condição pode provocar até lesões.

No mundo do esporte, sono é fundamental para processos de atenção e concentração

Eduardo Cillo, coordenador de psicologia esportiva do Comitê Olímpico Brasileiro, revela que, no esporte, controlar o sono dos atletas têm se tornado uma prática cada vez mais comum entre comissões técnicas, já que do ponto de vista psicológico o sono é fundamental para regulação emocional e dos processos de atenção e concentração. Além do acompanhamento, igualmente importante, é trabalhar a questão educacional, dando informações sobre os prejuízos que a privação pode causar.

"Educar os atletas com informações pertinentes sobre como uma boa noite de sono pode beneficiar seu desempenho em campo ou em quadra é fundamental. É importante esse conhecimento para que ele possa ter responsabilidade. Além disso, existe também a tendência de monitoramento no uso de gadgets, aparelhos, pulseiras, relógios, para que possam dar informação tanto para o próprio atleta em relação à qualidade de seu sono como para os profissionais de comissão técnica", diz Cillo.

André Aroni, psicólogo esportivo do Guarani, aponta que o clube de Campinas também se preocupa com a questão e que já existe toda uma atenção dos profissionais da saúde com esse assunto. "No Guarani, existe uma atenção de todos os profissionais da saúde e da comissão técnica com o sono, para que durmam o máximo possível, e com alta qualidade. Diversos estudos relacionam noites bem dormidas com um bom desempenho esportivo e menor índice de lesões", sinaliza.

É importante lembrar que muitas vezes os jogadores lidam com ansiedade pré-jogo. E a própria pressão do cotidiano pode afetar a regulação do sono. Desse modo, é necessário buscar meios para uma autorregulação emocional. "Existem outras demandas que podem atrapalhar o sono dos atletas além da pressão diária por resultados. Por exemplo: distúrbios de sono em geral, quarto com claridade e barulho, o uso demasiado do telefone celular, filhos recém-nascidos em casa etc. Desta forma, é importante que não apenas o psicólogo esportivo, mas que todos os profissionais envolvidos procurem trabalhar de forma interdisciplinar", diz.

Para o especialista Iuri Leite, fundador da SecureCard, cartão de multi benefícios, cada pessoa possui um perfil de sono e aderir regras básicas podem ajudar a combater o distúrbio. "Estabelecer uma rotina regular para dormir e acordar, evitar o consumo de cafeína e bebidas energéticas pouco antes de dormir, diminuir o uso de dispositivos eletrônicos, como smartphones e tablets, e praticar atividades como meditação ajudam a melhorar a qualidade do sono", explica.

Eryca Bastos, psicóloga das categorias de base do Cuiabá, revela que um atleta que dorme mal, se sentirá cansado e terá fadiga mental, além do humor alterado, prejudicando o tempo de reação, a capacidade de tomar decisões e até mesmo o nível de concentração.

"É importante o acompanhamento ao atleta de forma interdisciplinar. Muitas vezes, essa demanda não vem diretamente do jogador, mas também do Departamento Médico ou até mesmo do Departamento de Nutrição. Quando o atleta está em competição, ele tende a ficar mais ansioso por causa da pressão interna e externa. Com isso, pode ter insônia. Então, é necessário trabalhar com o grupo de forma coletiva e individual, a organização de rotina, pré-competitiva e competitiva, para que o desempenho não seja afetado", explica Eryca.

Estadão
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