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Renato Portaluppi, o Dom Quixote do futebol brasileiro

Treinador parece cada vez mais tomado pela necessidade de apontar culpados e caçar inimigos imaginários, enquanto o Grêmio segue aflito

21 out 2026 - 18h10
(atualizado às 18h10)
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Resumo
Comparado a Dom Quixote por criar conflitos ilusórios, Renato Portaluppi vive momento tragicômico no Grêmio. Diante da crise e da má fase no Brasileirão, o técnico adota uma postura bélica em entrevistas, expondo falhas internas, elenco e imprensa. Embora sua franqueza seja marcante, o hábito de desviar o foco dos problemas reais do campo para travar embates retóricos desgasta o clube. Para superar a crise, Renato precisa abandonar bravatas e encarar com lucidez a própria realidade tática da equipe.
Afinal, qual direção Renato quer dar ao Grêmio? –
Afinal, qual direção Renato quer dar ao Grêmio? –
Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA / Jogada10

"Em mim, a vontade de falar é sempre o primeiro impulso, e não consigo evitar dizer, mesmo que por uma única vez, o que me vem à mente".

O trecho acima é da obra Dom Quixote de La Mancha, romance escrito por Miguel de Cervantes em 1605 e considerada até hoje a maior obra literária da língua espanhola. Mas o que poderia ser apenas uma dica de leitura do intelectual Gustavo Scarpa, na verdade, traduz bem o estado de espírito de Renato. Portaluppi para muitos, Gaúcho para outros.

Atualmente, há algo de tragicômico na figura de Renato. O homem que tantas vezes se agigantou diante das adversidades, que fez da personalidade um instrumento de liderança e transformou a própria irreverência em marca registrada, parece agora refém de uma contenda de proporções desmesuradas com os fantasmas que ele próprio ajuda a convocar. À maneira de Dom Quixote, o cavaleiro errante, Renato ameaça confundir a realidade com a representação que faz dela.

A analogia é válida, senhores. Dom Quixote de la Mancha apresenta um fidalgo que, embevecido pelas narrativas de cavalaria, passa a enxergar o mundo segundo uma lógica particular. Moinhos de vento convertem-se em gigantes estratosféricos; obstáculos corriqueiros adquirem uma estatura pantagruélica. O drama do personagem mora  na dificuldade de reconhecer a distância entre aquilo que imagina combater e o que, de fato, se apresenta diante de seus olhos.

No Grêmio de outubro de 2026, a imagem ganha contornos inquietantes.

Depois da derrota por 4 a 2 para o Cruzeiro, na Arena, Renato voltou a disparar contra a montagem do elenco, questionou os critérios de contratação e revelou que um jogador chegou ao clube nove quilos acima do peso ideal. Também reagiu com aspereza a um jornalista que contestou sua avaliação sobre o desempenho da equipe.

São episódios que, examinados à pinça, podem até conter justificativas plausíveis. Reunidos, porém, compõem um padrão de comportamento que merece reflexão: o treinador parece cada vez mais disposto a travar embates públicos, mesmo quando o momento exige concentração absoluta naquilo que se desenrola nas quatro linhas.

Afinal, qual direção Renato quer dar ao Grêmio? –
Afinal, qual direção Renato quer dar ao Grêmio? –
Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA / Jogada10

É evidente que Renato não inventou os problemas do Grêmio. A formação de um elenco é responsabilidade compartilhada, e decisões equivocadas no mercado podem comprometer meses de trabalho. Cobrar planejamento, preparação física e coerência nas contratações não constitui pecado profissional. Pelo contrário: em determinadas circunstâncias, o silêncio pode ser uma forma de conivência.

O problema começa quando a denúncia se transforma em método recorrente de comunicação e a coletiva deixa de ser um espaço de esclarecimento para se converter numa arena de escaramuças. O técnico tem o direito de apontar falhas, mas também precisa compreender que a exposição reiterada das mazelas do próprio clube pode produzir um efeito contraproducente. Quem deveria aglutinar forças passa a provocar fissuras; quem deveria oferecer direção contribui para a dispersão das atenções.

E o futebol, convém recordar, não concede pontos por eloquência.

O Grêmio ocupa a zona obscura do Brasileirão. Abocanhou até aqui 31 pontos e atravessa uma conjuntura que não comporta veleidades retóricas. Assim, cada entrevista de Renato adquire um peso que ultrapassa a mera repercussão jornalística. Suas palavras podem funcionar como instrumento de mobilização ou como líquido inflamável para uma combustão interna.

Não se trata de exigir do treinador uma serenidade monástica ou condenar a franqueza. O futebol brasileiro está repleto de discursos assépticos, figuras repulsivas e dirigentes do óbvio evasivo. Renato, com sua verve sui generis, sempre ofereceu algo fora da curva. Sua espontaneidade é um reflexo do outrora elogiado carisma. Portanto, seria absurdo exigir que abandonasse a própria persona.

Um burocrata de microfone não lhe convém.

É justamente nesse ponto que Dom Quixote se torna um espelho incômodo para o eterno camisa 7 gremista, digno de uma estátua. O cavaleiro cervantino não lhe cai bem à essa altura do campeonato. Para quem deu um título mundial ao clube do coração e que em uma missão por outro tricolor usou a barriga para abater o inimigo, realmente se trata de um papel grotesco ao qual se submete.

A grandeza de um personagem, afinal, não se mede apenas pela capacidade de enfrentar inimigos. Mede-se também pela lucidez de reconhecer quando a batalha escolhida é inútil. Cervantes compreendia a dimensão ambígua de seu cavaleiro. Dom Quixote é ridículo, mas não desprezível. Sua obstinação comove porque brota de uma tentativa de impor algum ideal a um mundo que já não corresponde às suas demandas existenciais. Há nobreza em sua disposição de lutar, mas um transborde de tragédia em sua incapacidade de perceber os limites da própria percepção.

Renato, porém, ainda pode interromper essa contenda quixotesca. Pois, o maior perigo para Renato não é encontrar inimigos demais. É passar tanto tempo os procurando que já não consiga enxergar o verdadeiro perigo a um palmo do nariz. A crise do Grêmio não será derrotada com bravatas, tampouco com a nostalgia que amarela fotografias penduradas na parede da memória.

Dom Quixote, portanto, perdeu-se ao confundir a realidade com a fantasia. Renato ainda tem tempo de não cometer o mesmo equívoco. Para isso, precisará compreender que, no futebol, a mais difícil das batalhas nem sempre é aquela travada contra os outros. Às vezes, é a que exige coragem para abandonar a lança e olhar para o próprio campo de batalha.

Ora, Renato. Como mesmo disse Dom Quixote em suas andanças, cada um é filho das suas obras.

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Jogada10
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