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Libertadores

Sem nunca ter votado, Guerrero usa "time da democracia" para ser herói

19 fev 2013 - 09h04
(atualizado às 12h55)
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Peruano tem três gols em três jogos pelo Corinthians em 2013
Peruano tem três gols em três jogos pelo Corinthians em 2013
Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

Paolo Guerrero já foi eleito herói por peruanos e corintianos. O centroavante é sempre muito político quando fala sobre a idolatria que consegue despertar nos torcedores sul-americanos. Mas não gosta de política. "Nunca nem sequer votei. Nem sei como isso funciona", comentou o jogador, sorrindo.

Contraditoriamente, Guerrero se tornou conhecido no Brasil quando se transferiu para o "time da Democracia". Os atletas do Corinthians de três décadas atrás já vivenciavam a experiência do voto no Parque São Jorge, em tempos de ditadura militar. Casagrande, o camisa 9 da época, pregava com Sócrates que todas as decisões referentes ao Corinthians fossem tema de votação dos seus funcionários, de roupeiros a dirigentes.

Nascido no primeiro dia de 1984, ano em que a Democracia Corintiana chegou ao fim, Guerrero não conhece muito sobre o passado político do clube. "Sei que o Corinthians é um clube de história, o maior do Brasil", resumiu. Até hoje, ele só ergueu as mãos para festejar gols (dificilmente com os punhos cerrados, como fazia Sócrates), e não para palpitar em eleições. O peruano que virou adulto durante o regime ditatorial de Alberto Fujimori, presidente do país andino de 1990 a 2000, acha mais fácil depositar uma bola na rede a uma cédula na urna.

"Quando ocorreram eleições no Peru, eu sempre estava jogando na Alemanha. Não deu para participar. Mas ainda quero votar pela primeira vez. Quem sabe agora, morando no Brasil, que é mais perto do meu país?", vislumbrou Guerrero, com a curiosidade de quem quer aprender mais do idioma português, mas nem tanto sobre política. "Vocês também falam votar aqui, como em espanhol?", perguntou.

Guerrero ainda era menor de idade quando assinou contrato com o Bayern de Munique, da Alemanha - no Peru, o voto é obrigatório para os cidadãos de 18 a 70 anos. Diferentemente de Sócrates, que prometeu só ir embora do Brasil se a Emenda Constitucional Dante de Oliveira fosse rejeitada (o que ocorreu), ele não tinha muita opção profissionalmente. Jogar na Alemanha era a alternativa para um jovem humilde, oriundo de um país que passava a ter maior abertura política após a renúncia de Fujimori, fazer dos campos de futebol o seu palanque.

"Eu tinha quase 17 anos quando me mudei sozinho para a Alemanha. Foi muito difícil. Graças a Deus, meus pais sempre me apoiaram. Eles ficaram no Peru, mas conversávamos por telefone. Senti muitas saudades deles e quis voltar, enquanto os dois me diziam para insistir. Foram conselhos importantes, que procurei seguir desde pequeno. A minha vida mudou também por causa dos meus pais", discursou Guerrero, que só passou a ser mais eloquente nesta entrevista ao citar os cuidados de Don José Guerrero e Petronila Gonzáles, a Dona Peta, hoje separados. Uma das inúmeras tatuagens do centroavante, nas costas, é dedicada ao pai e à mãe.

O retorno de Guerrero ao futebol da América do Sul é uma prova da evolução econômica do continente. Política, no entanto, realmente não conta para o artilheiro da última Copa América, agora pronto para disputar pela primeira vez uma Libertadores. "Esse não é o meu tema", explicou, olhando o seu retorno sob outra ótica. "O Brasil está a cinco horas de distância do Peru. Nos dois países as pessoas são alegres, com mentalidades parecidas. Qualquer um gosta de viver assim, feliz", disse.

Na Alemanha, Guerrero se comportou como um verdadeiro embaixador peruano. Exibiu a bandeira do seu país, orgulhoso, a cada feito alcançado durante os dez anos em que atuou no futebol europeu. É verdade que nem sempre foi um diplomata - ficou marcado por dar um carrinho violento em um goleiro e até por arremessar uma garrafa na cabeça de um torcedor do Hamburgo -, porém se acalmou com o passar dos anos. "Estou mais tranquilo hoje", afirmou o atleta, que vestia blusa regata, bermuda e chinelos de dedo em uma tarde ensolarada no CT Joaquim Grava. "Tive bons tempos na Alemanha e aprendi a viver lá, mas agora estou mais perto da minha família, em um clima melhor. Adoro São Paulo."

Morar em um país fronteiriço com o Peru, de fato, é importante para Guerrero. O centroavante viaja para Lima sempre que pode. Após o Mundial de Clubes, por exemplo, trocou a festa que os paulistanos faziam para o campeão Corinthians em São Paulo pela devoção que seus compatriotas mostravam por ele em sua cidade natal. A cada visita, mais peruanos se aglomeram em busca de fotos, autógrafos ou contato físico do ídolo nacional. Como retribuição, ele promove ações sociais para multidões que poucos políticos conseguiriam atrair.

"Não sou um Deus no Peru. Não, não, não. Só procuro fazer o máximo para dar alegrias ao meu país, que merece. Os peruanos gostam muito de futebol, assim como os brasileiros, então o que faço em campo é importante para eles", declarou Guerrero. "Como falei, não quero me colocar em patamar nenhum. Ainda estou em atividade, no meio da minha carreira. Quando ficar velho, com uns 60 anos, talvez eu possa me considerar alguma coisa", postergou.

Guerrero não precisa fazer campanha para si mesmo. O reconhecimento de peruanos e corintianos é natural. O presidente Ollanta Humala foi um dos que se emocionaram ao acompanhar o centroavante marcar um gol de cabeça sobre o britânico Chelsea e, mais tarde, enrolar-se na bandeira do Peru para festejar. "O amor do Peru se demonstra de mil maneiras. Parabéns, Paolo Guerrero", escreveu o político em seu Twitter, após o Corinthians conquistar o título mundial em 2012.

O presidente peruano se elegeu em 2011 - sem o voto de Guerrero, obviamente -, com um discurso em que apontava o corintiano Luiz Inácio Lula da Silva como modelo. Ollanta Humala tem em seu nome o significado "o guerreiro que tudo vê" no idioma quíchua, falado entre os incas. Mas os olhares do presidente não são retribuídos pelo peruano do Corinthians. "Política não é comigo. Eu me mantenho alheio. Outras pessoas são encarregadas disso", enfatizou, divertindo-se com a possibilidade de ser visto como um cabo eleitoral. "Até agora, ninguém me chamou para isso. Não quero entrar nessas coisas. Sou jogador de futebol e espero que as pessoas me enxerguem assim."

Na condição de jogador de futebol, Guerrero faz promessas que ajudariam a eleger um dirigente. Sem qualquer cerimônia, ele coloca os projetos da seleção peruana acima daqueles que traçou com o Corinthians. "Disputar uma Copa do Mundo é o meu maior sonho de todos. É a minha grande meta. A maior", avisou, sisudo, sem nem um piscar de olhos.

Atualmente, o Peru é o penúltimo colocado das Eliminatórias Sul-Americanas para o Mundial de 2014. "Está difícil para todo mundo. O nível é alto. Mas ainda faltam jogos muito importantes. Precisaremos ganhar nas próximas rodadas sim ou sim. Sei que, unidos, temos qualidade para chegar à classificação", assegurou.

Guerrero lembrou ainda que os seus objetivos com o Peru não invalidam os do Corinthians. "Se formos para a Copa do Mundo, a torcida corintiana estará do nosso lado", apostou o centroavante, cada vez mais à vontade no Brasil. Apreciador do "muito gostoso" feijão, ele quer apresentar o tradicional cebiche peruano (prato baseado em peixe cru marinado em suco de limão) aos amigos que fez no Parque São Jorge. "Eles vão provar qualquer dia. Precisam descobrir a cozinha peruana", comentou, pensando nos brincalhões meia Douglas e lateral esquerdo Fábio Santos.

O ídolo não recrimina nem a histórica ligação corintiana com a política. "É bom, não? Quem não gosta de futebol hoje em dia? Muitos políticos e até presidentes acompanham. Isso é bonito. Que legal saber que caras importantes como Lula assistem aos jogos. Acho bonito", aprovou o heroico democrata Guerrero, que há muito tempo já ostenta o voto de confiança dos peruanos nas Eliminatórias e dos corintianos na Libertadores.

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