Não há mais espaço para o preconceito no futebol
Episódios registrados neste sábado (21) evidenciam que o combate ao racismo e ao machismo ainda é um desafio estrutural no esporte
Antes de tudo, o futebol carrega um papel educativo e social. Mais do que entretenimento, o esporte sempre foi instrumento de inclusão e transformação. Em 1969, o Santos de Pelé chegou a interromper temporariamente a guerra civil na Nigéria, demonstrando a força simbólica que o futebol pode alcançar.
No entanto, neste sábado (21), o que entrou em campo não foi apenas a bola. Racismo e machismo voltaram a manchar o esporte no Brasil e na Europa, reforçando que o preconceito ainda ocupa espaços que deveriam ser de igualdade.
Machismo nas quatro linhas
No Campeonato Paulista, após a eliminação do Bragantino diante do São Paulo, o zagueiro Gustavo Marques criticou a Federação Paulista de Futebol pela escolha da árbitra Daiane Muniz para comandar a partida. "Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher", declarou.
Embora tenha se retratado depois da repercussão negativa, a fala expôs uma realidade persistente: a resistência à presença feminina em posições de autoridade no futebol. Não se trata de um deslize isolado, mas de um reflexo do machismo estrutural ainda presente no esporte.
Racismo além das arquibancadas
Na Europa, dois casos de racismo ganharam repercussão na Inglaterra. Após o empate entre Chelsea e Burnley, Wesley Fofana e Hannibal Mejbri passaram a receber ofensas racistas nas redes sociais. Ambos divulgaram as mensagens, evidenciando que a violência não se limita às arquibancadas — ela se espalha também pelo ambiente digital.
Na Espanha, Vinícius Júnior voltou a ser alvo de ataques. Torcedores do Osasuna teriam entoado "Vinicius, muerete" ("Vinicius, morra") durante partida pelo Real Madrid. O atacante brasileiro vem sendo vítima recorrente de racismo desde que chegou ao futebol europeu. Apesar de punições aplicadas em alguns casos, os episódios continuam se repetindo, o que demonstra que as respostas ainda são insuficientes para enfrentar o problema de forma estrutural.
Um problema estrutural e global
Durante muito tempo, o futebol foi tratado como um espaço à parte das questões sociais. Cânticos homofóbicos e racistas eram naturalizados nas arquibancadas, e a legislação não enquadrava essas atitudes como crime. Felizmente, avanços legais e sociais passaram a estabelecer limites e punições. No entanto, a mudança cultural ainda está em curso.
O futebol internacional também já foi palco de manifestações antissemitas. Casos como o gesto da "quenelle" feito por Nicolas Anelka, em 2013, e os adesivos com a imagem de Anne Frank utilizados por torcedores da Lazio em 2017 mostram que a discriminação assume diferentes formas e contextos.
Il y a 11 ans jour pour jour, Nicolas Anelka se faisait 𝗦𝗨𝗦𝗣𝗘𝗡𝗗𝗥𝗘 𝟱 𝗠𝗔𝗧𝗖𝗛𝗦 en Premier League pour avoir célébré en faisaint une « quenelle » pic.twitter.com/WAbEk3KXyS
— Vibes Foot (@VibesFoot) February 27, 2025
O papel transformador do esporte
O futebol reflete a sociedade — mas também pode transformá-la. Se já foi capaz de interromper conflitos armados, precisa assumir a responsabilidade de combater o racismo, o machismo e toda forma de discriminação. Não há espaço para o preconceito no futebol — nem dentro de campo, nem nas arquibancadas, nem nas redes sociais.