Ghiggia, herói do Maracanazo e da pátria uruguaia
A morte do ex-jogador Alcides Edgardo Ghiggia deixou nesta quinta-feira (data local) o Uruguai sem o herói do Maracanazo: com seu gol aos 34 minutos do segundo tempo da decisão da Copa do Mundo de 1950, o atacante contrariou todas as previsões, garantiu o bicampeonato da 'Celeste' e ajudou a consolidar a identidade nacional do país.
Foi um feito escrito com letras maiúsculas e ultrapassa o aspecto esportivo para ser considerado, inclusive, como o fato definitivo que consolidou o sentimento patriótico dos uruguaios, país constituído em 1830, 120 anos antes da histórica conquista.
"Ghiggia, a seleção uruguaia, o triunfo do Maracanã, são marcas que nos fazem ter um sentido de pertencimento a essa nação", afirmou hoje o diretor nacional de Esportes do Uruguai, Fernando Cáceres.
Após viver 65 de seus 88 anos com a fama de ser o carrasco do Brasil, o destino quis que Ghiggia morresse no mesmo dia em que produziu uma das maiores façanhas da história do futebol mundial, ligando para sempre sua morte ao fato que o glorificou em vida.
Nascido em Montevidéu em 1926, Ghiggia era o último herói vivo do Uruguai, um país no qual o futebol é uma religião.
Seu adeus deixa órfãos de ídolos aqueles que viram com os próprios olhos a façanha de 1950 e também os jovens que só escutaram a história, mas viram reiteradas vezes o "gol que calou o Maracanã" nas poucas gravações em preto e branco.
Os mais de 200 mil torcedores que lotavam o estádio, majoritariamente brasileiros, ficaram então completamente atônitos, assistindo ao Uruguai conquistar o título que consideravam como vencido.
"Só três pessoas na história calaram o Maracanã: o papa, Frank Sinatra e eu", dizia Ghiggia, que levou consigo hoje as últimas lembranças vivas da glória da 'Celeste'.
Apesar de seu status de herói nacional, o atacante chegou a atuar pela seleção italiana entre 1957 e 1959, período no qual fez cinco partidas pela 'Azzurra'.
Ghiggia iniciou sua carreira de jogador no Sud América, e três anos depois se transferiu para o Peñarol, pelo qual foi duas vezes campeão nacional. Mais tarde, o ex-atacante foi para a Itália, onde jogou por Roma e Milan antes de retornar ao Uruguai para pendurar as chuteiras pelo Danúbio, onde se aposentou com 42 anos.
"É preciso fazer as homenagens em vida. Depois elas não servem", disse o ex-jogador em maio do ano passado, após descobrir um selo que o Correio do Uruguai emitiu em sua honra, um dos vários reconhecimentos que recebeu ao longo da vida.
Até mesmo o Maracanã fez as pazes com o carrasco brasileiro em 2009, quando Ghiggia foi imortalizado na "calçada da fama" do lendário estádio.
"Viva ao Brasil! Nunca pensei que seria homenageado no Maracanã, estou muito emocionado", disse durante a cerimônia.
Sua opinião era sempre consultada nas vésperas de cada torneio internacional disputado pela 'Celeste'.
Em 2012, já com 85 anos, Ghiggia sofreu um grave acidente de trânsito que o deixou em coma induzido. Na época, o filho do jogador disse que seu pai ainda tinha que marcar outros gols importantes além daquele que determinou o Maracanazo.
E o atacante não decepcionou, prolongando sua vida em uma "prorrogação" de quase três anos, uma "partida" concluída hoje por uma parada cardíaca enquanto fala exatamente de futebol com seu filho.