Flamengo expõe futebol pobre de Leonardo Jardim
Flamengo transforma a semifinal da Libertadores em uma demonstração de seus próprios limites
Em análise assinada pelo jornalista Wilson Pimentel, sócio-fundador da Agência RTI Esporte, destaca-se a atuação do Flamengo ao evidenciar as fragilidades e a pobreza tática do modelo de jogo apresentado pelo técnico Leonardo Jardim.
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Flamengode Leonardo Jardim começa a produzir uma contradição incômoda: tem elenco para assumir o protagonismo, mas joga como se a principal obrigação fosse evitar problemas. O empate por 0 a 0 com o Estudiantes, em La Plata, pela semifinal da
Libertadores, não é condenável por si só.
O que constrange é a pobreza da proposta, a incapacidade de construir uma atuação convincente e a aparente naturalidade com que o time aceita passar longe do gol adversário. Há uma diferença considerável entre administrar uma partida e abrir mão de disputá-la.
O Flamengo parece cada vez mais disposto a confundir as duas coisas. A cautela, recurso legítimo em jogos eliminatórios, perde o sentido quando deixa de ser circunstancial e passa a determinar o comportamento coletivo.
O resultado é uma equipe que pensa primeiro em não sofrer e só depois, quando sobra espaço, considera a possibilidade de atacar. Não se trata de exigir espetáculo em toda partida. Trata-se de cobrar coerência entre investimento, qualidade técnica e ambição.
O Flamengo reúne jogadores capazes de controlar a posse, acelerar o jogo e desequilibrar adversários, mas não consegue transformar essas possibilidades em uma identidade ofensiva reconhecível. A equipe circula pouco a bola com propósito, encontra dificuldades para conectar os setores e depende excessivamente de iniciativas individuais.
As ausências de Arrascaeta e Jorginho são relevantes, mas também expõem outro problema. Um elenco montado para disputar os principais títulos não pode perder completamente a capacidade de criação quando dois titulares ficam indisponíveis.
Se não existem alternativas funcionais, cabe questionar tanto a montagem do grupo quanto as soluções oferecidas pela comissão técnica. Leonardo Jardim, por sua vez, precisa responder pelo modelo que escolheu implementar.
A organização defensiva tem valor, mas não pode servir de justificativa universal para um time que abdica de pressionar, criar e impor condições ao adversário. O Flamengo não contratou um treinador apenas para tornar o sistema mais cauteloso. Contratou alguém para conduzir um elenco com obrigação de competir pelo título.
O empate não absolve o desempenho
O problema vai além de uma noite ruim. Quando a proteção do resultado ocupa o centro de todas as decisões, o time corre o risco de perder justamente as características que deveriam diferenciá-lo. O Flamengo pode ser pragmático sem ser passivo; pode respeitar o adversário sem entregar a iniciativa.
A decisão no Maracanã exigirá outra postura. A torcida não pode ser tratada como solução para aquilo que o trabalho tático não entrega. Jardim precisa demonstrar que consegue organizar uma equipe capaz de defender e atacar, não apenas administrar riscos.
O 0 a 0 mantém a vaga em disputa, mas não representa uma conquista esportiva. Para um clube que exige títulos e investe para dominar competições, sobreviver não basta. O Flamengo continua na semifinal. Seu futebol, porém, ainda não convenceu de que sabe por que merece chegar à final.
(*) Wilson Pimentel é jornalista, radialista, empresário e sócio-fundador da Agência RTI Esporte.
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