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Campeonato Carioca

Cacique chora ao revelar elenco histórico de clube que vai jogar no Campeonato Carioca

Cacique e presidente chora ao ver sonho de representatividade virar realidade, com o E.C Originários disputar o Carioca em Maricá.

23 abr 2026 - 08h03
(atualizado às 08h03)
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Tupã Nunes, cacique da Aldeia Mata Verde Bonita e presidente do Originários
Tupã Nunes, cacique da Aldeia Mata Verde Bonita e presidente do Originários
Foto: André Durão / ge / Esporte News Mundo

Um clube de futebol de Maricá, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, vai fazer história no futebol brasileiro ao estrear na Série C do Campeonato Carioca no dia 3 de maio contra o Barcelona. O Esporte Clube Originários é o primeiro time do país a reunir um elenco formado exclusivamente por atletas indígenas, representando pelo menos 15 etnias de aldeias espalhadas por todo o Brasil.

À frente do projeto está Tupã Nunes, cacique dos Guarani Mbya de Maricá e presidente do clube. Com o cocar de penas de mutum sobre a cabeça, ele recebeu a reportagem emocionado, a duas semanas da estreia. "Todos esses guerreiros foram preparados para estar aqui. Eles sabem onde estão, sabem o que vieram fazer", afirmou o líder de cerca de 300 indígenas no distrito de Itaipuaçu.

A semente de um povo em campo

O elenco reúne jogadores Xekriabá, Potyguara, Pataxó, Guarani, Tupinikim, Kamaiurá, Terena, Shanewana e de outras etnias. Cada atleta chegou a Maricá por conta própria ou com ajuda do clube para passagens. O goleiro Sávio Conrado, da etnia Mura, enfrentou quase quatro dias de viagem saindo de Autazes, no interior do Amazonas, lancha, estrada sinuosa, outra lancha e carro de aplicativo até chegar a Manaus, de onde embarcou ao Rio:

- Eu nunca tive uma oportunidade como essa. Sou o único da minha comunidade que saiu para jogar em um clube profissional -, orgulha-se o goleiro.

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Foto: André Durão / ge / Esporte News Mundo

O treinador Huberlan Silva, que no ano passado comandou a Seleção Indígena de Futebol do Brasil e das Américas, foi o responsável por mapear o país em busca dos atletas. Uma peneira com mais de 400 inscrições nas redes sociais reuniu os convocados, todos obrigatoriamente indígenas:

- A minha dificuldade foi mapear o Brasil inteiro para procurar esses atletas. Porque é só indígena, é 100% indígena. Não pode ser outro -, esclareceu o treinador.

No sacolejar do ônibus escolar que leva os jogadores aos treinos duas vezes por semana, o lateral Jefter da Silva Pêgo, 20 anos, canta em tupi-guarani. Vindo de uma aldeia Tupinikim em Aracruz, no Espírito Santo, ele aceita jogar a quinta divisão carioca de olho em uma carreira profissional e no irmão caçula que o acompanha de longe. No campo, o ponta-direita Edílson Karai Mirim chama atenção ao entrar em campo com o rosto pintado e tem Everton Cebolinha como inspiração. Ele afirma que apesar de estar jogando no clube, não vai deixar a cultura que deve sempre permanecer, ele mantém um perfil nas redes sociais com mais de 50 mil seguidores compartilhando a rotina na aldeia.

Resistência dentro e fora das quatro linhas

A estrutura do clube ainda engatinha. O Originários se mantém com o patrocínio de uma empresa de proteção veicular de Maricá e tem conversas em andamento com a prefeitura e a Loterj, mas o dinheiro público ainda não chegou. O registro oficial do clube custaria R$ 1,3 milhão; R$ 500 mil à Federação do Rio e R$ 800 mil à CBF, valor inviável para a equipe. A saída foi fechar acordo com o Ceres, de Bangu, que não montaria time nesta temporada, e disputar o Carioca sob a inscrição do clube parceiro.

Por trás do projeto está Anderson Terra, presidente do Instituto Terra do Saber, que trabalha com os Guarani Mbya de Maricá há cinco anos e é o principal articulador do Originários. De fala pausada e postura firme na defesa da causa indígena, ele enxerga o futebol como ferramenta social:

- Existe um contexto social em volta da aldeia muito pouco observado. Um deles é a droga, o outro é o alcoolismo. O esporte é canalizador para que o menino tenha uma ocupação e se sinta parte da sociedade - , explica Anderson, que já planeja um time feminino.

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Foto: André Durão / ge / Esporte News Mundo

A inspiração do projeto é o Gavião Kyikatejê, do Pará, pioneiro no futebol indígena brasileiro. O Originários, porém, vai além: enquanto o clube paraense precisou recorrer a jogadores de outras etnias ao longo dos anos, o time de Maricá jamais abriu mão do elenco 100% indígena e ainda é o primeiro a disputar uma competição oficial nessa condição. Os jogos serão disputados no Estádio Municipal João Saldanha, no distrito de Ponta Negra.

O projeto ganha ainda mais peso quando se observa o território onde nasceu. Foi na região que compreende hoje Cabo Frio, São Pedro da Aldeia e Saquarema que ocorreu em 1575 um dos maiores genocídios registrados no Brasil, com a morte de aproximadamente 10 mil indígenas na chamada Confederação dos Tamoios:

- Nesse mesmo local onde houve o maior massacre, guerreiros estão revertendo a história e trazendo alegria no pé, na alma e no coração -, afirma Anderson.

Tupã Nunes, aos 51 anos, chegou a querer ser jogador na adolescência, mas aos 16 precisou escolher a militância pelo seu povo. Hoje, vê nos atletas do Originários o sonho que não pôde viver. O cacique disse que se emociona, porque não teve essa oportunidade de escolher ser jogador; ele continua dizendo que a família dele precisava resistir no seu território pela invasão, o desrespeito e preconceito.

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Foto: André Durão / ge / Esporte News Mundo

O cacique projeta um futebol à altura da história que o clube carrega. Apaixonado pela seleção brasileira tetracampeã de 1994, Tupã quer ver arte dentro de campo. O cacique completa dizendo que o depósito foi feito por cada um deles, e, agora eles têm a responsabilidade de não apenas jogar bem, mas mostrar a arte e cultura de como é o Brasil para o mundo.

Esporte News Mundo
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