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Do tetra ao caos: o passo a passo do fracasso da seleção italiana nos últimos 20 anos

Itália fica fora da terceira Copa do Mundo consecutiva, depois de duas eliminações na fase de grupos

2 abr 2026 - 08h11
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Desde o tetracampeonato em 2006, a Itália fracassa em Copas do Mundo. Seja na fase de grupos, como em 2010 e 2014, ou até mesmo em não conseguir se classificar, como nas últimas três (2018, 2022 e 2026).

Como nas últimas duas edições, a seleção italiana caiu na repescagem europeia. Desta vez, a algoz foi a Bósnia e Herzegovina, nos pênaltis, depois de um empate por 1 a 1.

Foi o Calciopoli, um esquema de manipulação de resultados envolvendo Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio na temporada 2004/05. Quem teve a pior pena foi o clube de Turim, que precisou jogar a Série B italiana.

Na época, grampos telefônicos flagraram o então diretor da Juventus, Luciano Moggi, escolhendo árbitros que apitariam jogos da Série A. Buffon e Del Piero jogaram a Série B, mas o time de Turim não conseguiu manter, por exemplo, Ibraihmovic, que rumou para a Inter de Milão. O capitão do tetra, Cannavaro, foi para o Real Madrid. Thuram, para o Barcelona.

O futebol italiano tinha, antes, 15 vencedores de Bola de Ouro em 25 anos: Platini, Van Basten, Baggio, Ronaldo, Zidane, Shevchenko e Kaká (sendo o último, em 2007). Desde então, não teve mais.

Claro que há o fator Messi-Cristiano Ronaldo. Entretanto, em um ato de exceção na Itália, a Juventus contou com o português, uma estrela que destoou do nível de astros da liga.

O escândalo foi o começo de uma era sem novos talentos. Foi como se o Calciopoli tivesse roubado também o futuro, de forma figurativa.

Ainda foram alguns anos com as potências Juventus, Milan e Inter de Milão com força. Os Nerazzurri ainda conquistaram a Champions League na temporada 2009/10.

O time campeão, contudo, tinha 11 estrangeiros: Júlio Cesar, Maicon e Lúcio (Brasil), Walter Samuel, Javier Zanetti, Esteban Cambiasso e Diego Milito (Argentina), Chirstina Chivu (Romênia), Wesley Sneijder (Holanda), Goran Pandev (Macedônia do Norte) e Samuel Eto'o (Camarões). No banco da final, apenas o goleiro Toldo e o atacante Mario Balotelli eram italianos.

A partir daquele ano, o fair-play financeiro da Uefa limitou os aportes dos donos dos clubes.

No cenário europeu, os italianos ficaram para trás. Em casa, a Juventus vive uma hegemonia entre 2012 e 2020. A diferença do clube estava, entre outros pontos, na moderna arena, o Allianz Stadium, que gerava mais receitas que estádios obsoletos.

A campanha ruim na Copa de 2010, com eliminação no grupo de Paraguai, Eslováquia e Nova Zelândia, ligou um alerta. O diretor técnico da Federação Italiana de Futebol (FIGC) na época, o lendário Roberto Baggio, elaborou um relatório propondo inovações. Ele foi ignorado.

"Apresentei meu projeto em dezembro de 2011, mas eles continuaram com palavras vazias. Eu não gosto de ficar apenas sentado em uma cadeira, mas de fazer coisas. Portanto, relutantemente, decidi sair (da federação), lamentou o ex-jogador em entrevista à televisão italiana, em 2013.

Título da Eurocopa não serve como combustível para Copas

Apesar do fracasso em 2010, a Itália não demonstrava que entraria numa derrocada como se vê hoje. A seleção italiana foi finalista da Eurocopa de 2012.

Em 2016, o time bateu a campeã Espanha no mata-mata, mas caiu para a Alemanha. Longe de amenizar a má campanha no Brasil, em 2014.

O título de 2020 poderia ser um ponto de virada, mas não serviu para mudanças que melhorassem o futebol italiano e garantissem uma Copa melhor em 2022.

Nesse meio tempo, a Itália chegou a ocupar a 21ª posição no ranking da Fifa, em agosto de 2018. Hoje, os italianos são os 12º.

"Os resultados de hoje são consequência (da nossa atitude) de vinte anos atrás, quando nos apoiávamos em nossas forças, em Buffon, Cannavaro e Totti, pensando que seriam eternos", opinou recentemente o ex-goleiro e atual diretor da seleção, Gianluigi Buffon.

"Já naquele momento deveríamos ter repensado os modelos técnicos e táticos, mas fomos como a cigarra" da fábula, lamentou.

Novo fracasso aumenta pressão na federação e em Gattuso

Por causa da Liga das Nações, a Itália começou as Eliminatórias já com a Noruega líder e com folga. Gattuso teve missão ingrata. Ele chegou para substituir Luciano Spalletti após um 3 a 0 sofrido para os noruegueses em Oslo.

Depois de ter uma repescagem pela frente mais uma vez, o técnico conseguiu que a Itália passasse pela Irlanda do Norte. A desconfiança, porém, manteve-se antes da decisão contra a Bósnia. "Seria para mim uma decepção, um golpe enorme, e eu deveria assumir as responsabilidades", disse Gattuso antes do jogo sobre não ir à Copa.

No ciclo, ele teve desempenho melhor que Roberto Mancini (técnico de 2018 a 2023) e que Spalletti (2023 a 2025). Em nove jogos, foram seis vitórias, com 22 gols marcados. A pressão depois de um novo fracasso, contudo, vai além da performance.

O ministro do Esporte da Itália, Andrea Abodi, pediu a renúncia de Gabriele Gravina, presidente da FIGC, após a queda para a Bósnia. "É evidente para todos que o futebol italiano precisa ser reconstruído", escreveu ele em um comunicado divulgado um dia após a traumática derrota da seleção italiana nos pênaltis (4 a 1, após um empate em 1 a 1 nos 120 minutos) contra a Bósnia e Herzegovina na final de uma das repescagens europeias.

Segundo o ministro, "esse processo deve envolver uma renovação na cúpula da FIGC", que é presidida por Gravina desde 2018. O antecessor dele, Carlo Tavecchio, renunciou após a não classificação para a Copa da Rússia.

Somente em 2025 a FIGC anunciou um diretor técnico. Foi o ex-técnico da Itália Cesare Prandelli. Ele acredita que a formação de talentos é o problema.

"Se há dez anos tivéssemos tido a sorte de contar com um talento como Lamine Yamal, nós o teríamos feito fugir", afirmou. "Nossos treinadores teriam tirado dele a alegria de jogar e de se divertir, sufocando-o com esquemas de jogo e ocupação de espaços".

Ainda antes de perder a vaga para a Bósnia, a FIGC anunciou um programa de formação para os treinadores responsáveis por seus 700 mil federados entre 5 e 15 anos. A ideia tenta melhorar quesitos técnicos e teve como um dos idealizadores o ex-jogador Simone Perrotta.

Estadão
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