Como a maior loja de discos da América Latina ajuda a preservar a história da seleção brasileira
LPs com registros de conquistas do Brasil na Copa do Mundo estão disponíveis para audição no Casarão do Vinil, na Mooca, oferecendo narrações históricas e resgate de memória afetiva
No fim dos anos 1960, ainda garoto, o santista Manoel Jorge Dias aproveitava toda oportunidade para assistir a Pelé em ação na Rua Javari, na Mooca, quando o Santos atuava por lá. Era jovem demais para ter presenciado o gol que o próprio Edson Arantes do Nascimento classificou como o mais bonito de sua carreira, marcado em 1959, contra o Juventus. Mas ele acompanhou de perto outras atuações memoráveis do Rei. "Eram sempre goleadas, uma coisa maravilhosa", lembra. O que aquele menino não poderia imaginar é que, décadas mais tarde, a apenas 150 metros da Javari, na Rua dos Trilhos, ele se tornaria o guardião de histórias que ajudam a manter viva a memória do principal jogador de futebol de todos os tempos.
Manoel é o idealizador do Casarão do Vinil, a maior loja do gênero na América Latina e destino fundamental em São Paulo, com mais de 1 milhão de discos em suas dependências. Conhecido como "Manézinho da Implosão", ele divide as atividades no estabelecimento implodindo pontes e prédios pelo Brasil, alguns deles de notória importância, como o Carandiru e o antigo estádio da Fonte Nova, em Salvador.
Mas quando se trata de vinil, não há destruição envolvida e sim preservação. Reduto de garimpeiros musicais, o Casarão também abriga LPs históricos sobre a seleção brasileira e que estão disponíveis para consulta do público durante a Copa do Mundo de 2026. A maior parte das obras é focada nas conquistas de 1958, 1962 e 1970, reunindo registros levemente chiados, porém plenamente compreensíveis, de tom épico, nostálgico e celebratório.
Dentre os destaques está Brasil Bi-Campeão Do Mundo, peça da gravadora Odeon que trilha a memorável campanha no Mundial de 1962, no Chile. "Os discófilos vão reviver as mesmas emoções, o mesmo sofrimento, de quando nos deram mais este pomposo galardão, o Bi-Campeonato Mundial de Futebol", enaltece o texto contido na contracapa do produto.
Ao pousar a agulha sobre o bolachão, encontram-se transmissões apaixonadas do locutor carioca Oduvaldo Cozzi, que irradiava pela Rádio Guanabara. "Pelé ultrapassou o primeiro, insiste Pelé, ultrapassou o segundo, ainda Pelé... Gol maravilhoso de Pelé! Gol de Pelé, a jeito de Pelé, com cheiro de Pelé e com gosto de Pelé!", narrou Cozzi o único gol do atleta naquela competição, contra o México, antes de ele se lesionar na partida diante da Tchecoslováquia e ver de longe Amarildo, Garrincha e companhia conduzirem o Brasil ao título.
"Todas as atividades humanas estão presentes no vinil. É um objeto representativo de todas as manifestações da civilização moderna. Quando nos debruçamos sobre essas relíquias, nos conectamos com um País inteiro que estava sendo torcendo pela geração que ganhou nossos primeiros títulos", afirma Manoel. "Há todo um simbolismo que traz à tona essa memória afetiva dos brasileiros que vivenciaram aquele período, mas também quero que os jovens se interessem por isso".
Tri Campeão Brasil, lançado pela Copacabana, e Brasil Tri-Campeão do Mundo, da Philips, transportam o ouvinte de volta à campanha vitoriosa da seleção na Copa de 1970. Os discos preservam narrações de nomes marcantes do rádio esportivo brasileiro, como Doalcei Bueno de Camargo, Haroldo Fernandes, Antônio Porto, Joseval Peixoto, Pedro Luiz e Fiori Gigliotti, registradas por Bandeirantes, Jovem Pan, Nacional e Super Rádio Tupi. Na ocasião, havia um "pool" (acordo de cooperação) das emissoras, com os locutores se revezando em rodízio.
"Atenção, ouvintes da Bandeirantes. Félix, Carlos Alberto, Brito, Piazza e Everaldo. Clodoaldo, Gerson e Rivellino. Jair, Tostão e Pelé, o rei dos campos do mundo. É esta a equipe do Brasil", anunciou, em tom solene, uma das vozes daquela transmissão, o esquadrão inesquecível que, sob o comando de Zagallo, goleou a Itália por 4 a 1 na final do torneio.
O ufanismo salta aos ouvidos e aos olhos do ouvinte. Em um dos álbuns, a contracapa exibe uma fotografia da delegação tricampeã ao lado do presidente Emílio Garrastazu Médici, imagem que simbolizava a associação da conquista esportiva ao discurso nacionalista da ditadura militar. O LP também inclui a canção Pra Frente Brasil, feita pelo compositor e publicitário Miguel Gustavo, que embalou a trajetória verde e amarela.
Apesar de alguns desses exemplares serem vendidos a mais de R$ 1 mil na internet, Manoel diz que eles não estão à venda. "Se eu colocar um preço, um gringo vem e compra logo. O Brasil é muito admirado lá fora", explica, indicando que mais vale deixar o material rodando na vitrola do que escondido em alguma coleção no exterior. Afinal, assim como a seleção brasileira, esses discos são capazes de emocionar o País do futebol.
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