Atletas mulheres precisam de atenção na alimentação de olho na fertilidade
Nutricionista destaca procedimentos a serem seguidos, estendidos para quem não pratica esportes também
A alimentação influencia a fertilidade ao fornecer energia e nutrientes para a regulação hormonal e ovulatória, mas não age sozinha nem garante a gravidez. Segundo especialistas, padrões equilibrados baseados em alimentos in natura são mais eficazes do que dietas milagrosas ou exclusões sem respaldo médico. A fertilidade envolve múltiplos fatores biológicos, como idade e saúde masculina, exigindo um cuidado nutricional amplo e sustentável, sem restrições severas ou promessas irreais.
"Sim, a alimentação pode interferir na fertilidade. Só que essa resposta precisa de uma vírgula; ela participa do processo, não decide sozinha". A afirmação da nutricionista Amanda Figueiredo, do Grupo Cult, ajuda a compreender tanto a relação entre dieta e saúde reprodutiva quanto os limites do que se pode prometer à mesa - tanto de atletas mulheres quanto também das quem não pratica esporte. O estado nutricional e o metabolismo fazem parte dessa discussão, mas não explicam, isoladamente, as chances de uma gestação. Formada em Nutrição pela USP, Amanda atua na área clínica, tem pós-graduação em Saúde da Mulher e Reprodução Humana pela PUC e extensão em Nutrition and Lifestyle in Pregnancy pela University of Munich, na Alemanha.
O organismo precisa de energia e nutrientes para manter suas funções, inclusive aquelas ligadas à reprodução. Alterações no consumo alimentar, deficiências nutricionais e condições metabólicas podem repercutir no ciclo menstrual, na ovulação e na preparação do corpo para uma gestação.
Esse vínculo não transforma um ingrediente em tratamento. A pesquisa científica costuma encontrar respostas mais consistentes quando observa padrões alimentares completos. Dietas com presença de vegetais, frutas, leguminosas, grãos e fontes de gorduras insaturadas aparecem associadas a alguns resultados reprodutivos, enquanto uma rotina marcada pelo consumo frequente de ultraprocessados recebe atenção por seus efeitos sobre a saúde.
A dieta mediterrânea se tornou uma das referências estudadas nesse campo. Seu nome descreve um modelo, não um menu que precise ser reproduzido fora do contexto de quem o criou. Princípios semelhantes podem ser encontrados em refeições brasileiras compostas por alimentos in natura ou pouco processados, escolhidos de acordo com acesso, cultura e rotina.
Revisões científicas recentes apontam associações entre determinados padrões e alguns desfechos ligados à fertilidade. Ao mesmo tempo, reconhecem que os estudos ainda não sustentam a indicação de uma dieta específica como garantia de concepção, gravidez clínica ou nascimento.
"Na consulta, eu não procuro o alimento culpado nem aquele que supostamente salvará o ciclo. Observo se há energia suficiente, como as refeições se distribuem durante o dia, quais nutrientes podem estar em falta, o que mostram os exames e se alguma condição clínica exige cuidado. A resposta costuma estar no conjunto, não em um item retirado da despensa", explica Amanda.
Depois da vírgula
A ciência ainda trabalha com lacunas. Pesquisas sobre laticínios, soja, pescados, cafeína e nutrientes isolados nem sempre chegam às mesmas conclusões. Diferenças entre os participantes, causas de infertilidade, métodos de avaliação e tratamentos realizados dificultam a comparação dos resultados.
Esse espaço de incerteza costuma ser preenchido nas redes sociais por listas de proibições. Glúten, açúcar, café e leite podem desaparecer do cardápio sem que exista diagnóstico ou análise da rotina. A tentativa de ampliar as chances de engravidar acaba produzindo refeições cercadas por medo.
"A promessa de controle encontra terreno em uma fase marcada pela espera. Se alguém afirma que basta eliminar determinado alimento, é compreensível que a mulher queira tentar. O problema aparece quando ela passa a interpretar cada escolha como uma ameaça à gravidez. Além da restrição, surge uma culpa que não corresponde à complexidade da fertilidade", afirma a nutricionista.
Retirar um grupo alimentar pode ser necessário diante de alergia, intolerância, doença celíaca ou outra indicação identificada no atendimento. Fora dessas situações, a exclusão exige avaliação. Diminuir a variedade sem um plano de substituição pode comprometer a ingestão de nutrientes e tornar a alimentação difícil de sustentar.
Os suplementos também precisam permanecer depois da vírgula. Algumas vitaminas e minerais têm lugar definido no cuidado anterior à gestação, mas essa função não os transforma em indutores de fertilidade. Necessidade, dose e duração devem considerar alimentação, exames, histórico e orientação da equipe responsável.
"Um nutriente importante para o período de pré-concepção não vira, por esse motivo, um medicamento para engravidar", resume Amanda.
O que não cabe no prato
Idade, reserva ovariana, condições hormonais, anatomia do sistema reprodutivo, qualidade dos gametas e fatores masculinos continuam presentes, ainda que a rotina alimentar esteja organizada. O cuidado nutricional pode atuar sobre partes modificáveis desse cenário, sem substituir a investigação médica.
Na síndrome dos ovários policísticos, por exemplo, o acompanhamento pode considerar metabolismo, ciclo menstrual, sintomas e relação com a comida. Na endometriose, as necessidades mudam conforme manifestações clínicas, tolerâncias e tratamento adotado. Usar o mesmo protocolo para todas as mulheres apaga diferenças que interferem na conduta.
A responsabilidade também não deve ficar concentrada no corpo feminino. A alimentação de quem produz os espermatozoides integra a saúde do casal, embora as pesquisas ainda não permitam definir uma fórmula nutricional capaz de melhorar os resultados clínicos da fertilidade masculina.
Amanda defende que o plano seja construído para atravessar a vida real. Horários de trabalho, disponibilidade dos alimentos, preferências, sintomas e momentos sociais entram na conversa. A proposta precisa oferecer suporte durante a tentativa de engravidar e preparar o organismo para as etapas seguintes, caso a gestação aconteça.
"Meu trabalho não é entregar à paciente uma dieta que faça cada refeição parecer decisiva. É construir uma rotina que sustente o corpo, caiba nos dias possíveis e possa ser mantida sem vigilância o tempo inteiro. Quando comer se transforma em outra fonte de culpa, uma parte importante do cuidado se perde", conclui.
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