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Era de ouro de Deschamps na França terminará após mais uma decepção, mas seu legado permanece intacto

14 jul 2026 - 21h48
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A reta final da passagem de Didier Deschamps, durante a qual ele pareceu ter o toque de ‌Midas, se transformou em um tormento tantalizante após a França sofrer uma derrota ampla por 2 x 0 para a Espanha na semifinal da Copa do Mundo, mas as recentes decepções dos Bleus não mancharão um legado sem precedentes.

A França perdeu a final da Copa do Mundo de 2022 para a Argentina e agora foi derrotada pela Espanha em três semifinais consecutivas em grandes competições: na Eurocopa de 2024, na Liga das Nações e nesta terça-feira pela Copa do Mundo.

No entanto, Deschamps, que assumiu o comando em 2012 com o futebol francês ainda marcado pelo motim e pela humilhação da Copa do Mundo da África do Sul dois anos antes, será lembrado acima de tudo como o técnico que levou ⁠a França ao seu segundo título mundial em 2018, duas décadas depois de ter sido o capitão do primeiro em solo francês.

Com um recorde de 20 vitórias em Copas do Mundo como ‌treinador, ele colocou a França nas semifinais em três edições consecutivas, com duas decisões, e a consolidou como a força mais consistente do futebol internacional em grandes competições.

A disputa pelo terceiro lugar, no próximo sábado, será uma despedida anticlimática para o técnico de 57 anos, que anunciou no ano passado que deixará o cargo quando seu contrato expirar após o ‌torneio.

Seu sucessor — o ex-companheiro de seleção Zinedine Zidane é o favorito há muito tempo — herdará um elenco talentoso e ‌um desafio familiar: transformar o que talvez seja o maior reservatório de talentos da história do país na máquina vencedora que ele deveria ser.

A FRANÇA RARAMENTE É EXUBERANTE

As ⁠seleções de Deschamps raramente foram associadas à exuberância. Ele às vezes foi criticado por priorizar equilíbrio, disciplina e eficiência em detrimento do espetáculo, mesmo contando com alguns dos jogadores de ataque mais talentosos do futebol mundial.

Mas os resultados várias vezes justificaram os seus métodos.

Ele levou a França às quartas de final da Copa do Mundo de 2014, na qual a seleção perdeu por uma diferença mínima para a Alemanha, que acabou se sagrando campeã, antes de conduzir os anfitriões à final da Eurocopa de 2016. A derrota para Portugal na prorrogação foi dolorosa, mas lançou as bases para a conquista do título mundial na Rússia, dois anos depois.

A França venceu a Croácia por 4 x 2 na final de 2018, tornando Deschamps ‌o terceiro homem, depois do brasileiro Mario Zagallo e do alemão Franz Beckenbauer, a conquistar a Copa do Mundo como jogador e como técnico.

A seleção também ganhou a Liga das Nações em ‌2021 e esteve a uma disputa de pênaltis de revalidar ⁠o título da Copa do Mundo no Catar, ⁠recuperando-se de uns primeiros 80 minutos desastrosos para empatar em 3 x 3 com a Argentina em uma das melhores partidas da história do torneio.

RESERVA DE CRÉDITO

Essas conquistas deram a Deschamps uma reserva ⁠de crédito que poucos treinadores poderiam igualar.

Ele sobreviveu às repercussões da decepcionante campanha da França na Eurocopa de 2020, ‌aos debates recorrentes sobre seu estilo de jogo cauteloso e ‌ao longo e polêmico afastamento do atacante Karim Benzema.

Sua autoridade permaneceu intacta porque ele continuou montando times capazes de chegar longe nos torneios.

O ex-volante havia construído uma carreira marcada pelas vitórias muito antes de assumir o comando da França.

Nascido em Bayonne em 1968, ele estreou na primeira divisão pelo Nantes ainda adolescente, antes de se juntar ao Olympique de Marselha, com o qual conquistou dois títulos do campeonato nacional e foi capitão do primeiro clube francês a levantar a Liga dos Campeões, em 1993.

Ele ⁠se transferiu para a Juventus no ano seguinte. Em Turim, Deschamps conquistou três títulos da Serie A e mais uma Liga dos Campeões, consolidando-se como o discreto organizador no coração de uma das equipes dominantes da Europa.

Eric Cantona certa vez o descreveu de forma desdenhosa como um "carregador de água", mas esse rótulo acabou por capturar as qualidades que definiam Deschamps: disciplina, inteligência, abnegação e uma compreensão instintiva do que as equipes vencedoras exigiam.

Ele disputou 103 partidas pela seleção e foi o capitão da equipe que conquistou a Copa do Mundo no Stade de France em 1998, antes de completar uma histórica dobradinha na Eurocopa realizada dois anos depois.

O ‌sucesso o acompanhou na carreira de técnico.

Deschamps levou o Monaco à final da Liga dos Campeões de 2004, guiou a Juventus de volta à Serie A imediatamente após seu rebaixamento no escândalo do Calciopoli e pôs fim à espera de 18 anos do Olympique de Marselha por um título do Campeonato Francês em 2010.

Quando ele sucedeu seu ex-companheiro ⁠de seleção Laurent Blanc, em julho de 2012, a França ainda tentava reconstruir sua reputação após a greve dos jogadores na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

ORDEM, CONFIANÇA, SUCESSO

Deschamps restaurou a ordem em primeiro lugar, a confiança em segundo e o sucesso logo em seguida.

Seus críticos argumentavam que o elenco talentoso da França exigia um futebol mais ofensivo. Sua resposta era geralmente a mesma: os torneios eram vencidos por meio da adaptabilidade, da determinação defensiva e da aceitação de que o estilo importa menos do que a sobrevivência.

Por mais de uma década, foi difícil contestar esse argumento.

A maneira como ocorreu a derrota desta terça-feira, no entanto, vai doer. A França chegou como favorita após seu poder ofensivo carregá-la durante a competição, mas acabou sendo superada técnica, tática e fisicamente pela Espanha em Dallas.

Deschamps admitiu que sua equipe precisava estar no seu melhor para competir e ficou bem aquém disso.

A França não conseguiu impor sua força, seu badalado ataque foi neutralizado e seu meio-campo foi dominado — um capítulo final sombrio para um técnico cujas equipes costumavam encontrar uma saída, mesmo quando jogavam mal.

"Não quero jogar fora tudo o que fizemos", disse Deschamps após a derrota. "Mas, nesta partida, a Espanha mostrou que tinha algo a mais."

Foi uma avaliação adequadamente ponderada vinda de um homem que raramente permitia que triunfos ou desastres alterassem sua postura pública.

Deschamps partirá sem a despedida gloriosa que tanto almejava, mas com um histórico que o coloca ao lado das figuras mais influentes da história do esporte francês.

Ele ergueu a Copa do Mundo como capitão, levantou-a novamente como técnico e passou 14 anos garantindo que a França estivesse quase sempre presente quando os maiores prêmios do esporte fossem decididos.

Uma noite dolorosa em Dallas não pode apagar isso.

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