Como se constrói uma estrela global: os bastidores que levaram Vini Jr. e Endrick ao Real Madrid
Para Frederico Pena, presidente da Roc Nation Sports Brasil, o talento sozinho nunca foi suficiente para produzir uma estrela global
O atacante Endrick deve ser emprestado pelo Real Madrid no início de 2026 por seis meses, segundo seu empresário, Freddy Pena. A medida visa garantir minutos em campo após o jogador perder espaço com lesões e a chegada de Kylian Mbappé. O objetivo principal da transferência temporária é manter o brasileiro em ritmo competitivo para assegurar sua convocação para a Copa do Mundo de 2026 pela seleção brasileira.
Quando um jovem talento brasileiro chega ao Real Madrid, o público costuma enxergar apenas o capítulo final da história. Por trás da assinatura de contrato, porém, existe um trabalho que começa anos antes, envolvendo identificação de talentos, planejamento de carreira, desenvolvimento pessoal e negociações complexas entre atletas e clubes.
Esse é o modelo adotado pela Roc Nation Sports, braço esportivo da empresa fundada pelo rapper e empresário Jay-Z, que hoje representa alguns dos principais jogadores brasileiros da nova geração, como Vinícius Júnior, Endrick e Gabriel Martinelli.
À frente da operação brasileira está Frederico Pena, CEO da Roc Nation Sports no país, responsável por liderar uma estrutura que vai muito além da tradicional figura do empresário de futebol.
A diferença entre um agente e uma agência de elite
Segundo Pena, a Roc Nation não funciona como uma assessoria aberta ao público. Ao contrário: a empresa escolhe cuidadosamente quais atletas deseja representar.
O processo começa pela identificação do potencial. Uma equipe especializada de scouts, os chamados "olheiros", monitora partidas, analisa vídeos e acompanha jovens promessas para identificar quem pode se tornar um atleta de elite nos próximos anos.
Depois de identificar um talento, a agência busca convencer o jogador e sua família a embarcarem no projeto. A remuneração da empresa depende diretamente do sucesso do atleta. A Roc Nation não cobra mensalidades pelos serviços prestados. Seu ganho vem de comissões sobre contratos, transferências e acordos comerciais.
"Eu me vendo para trabalhar para ele", resumiu Frederico Pena ao explicar a lógica da relação com seus clientes.
Como Vini Jr. e Endrick chegaram ao Real Madrid
Apesar do sucesso das duas operações, Pena afirma que Vinícius Júnior e Endrick não foram para o Real Madrid por conta de uma relação privilegiada entre a agência e o clube espanhol.
Segundo ele, a explicação está na política esportiva do próprio Real Madrid. O clube adota há anos uma estratégia clara de mercado: contratar o jogador mais promissor de cada geração antes que ele atinja seu valor máximo.
Foi exatamente por esse motivo que o Real apostou em Vinícius Júnior, quando ainda defendia o Flamengo, e anos depois repetiu a estratégia com Endrick, revelado pelo Palmeiras. A mesma filosofia levou o clube a investir em nomes como Rodrygo, Arda Güler e Franco Mastantuono.
"O Real Madrid busca ter o melhor jogador do mundo de cada geração", explicou Pena.
Antes da definição final, porém, a Roc Nation conduz negociações com diversos clubes. O papel da agência é defender os interesses do atleta e encontrar o melhor caminho dentro de um plano de carreira previamente estabelecido.
O mercado de transferências funciona como um jogo de estratégia
O trabalho de um agente vai muito além de negociar salários. No futebol, existe um elemento que diferencia a modalidade de quase todos os outros esportes: o mercado de transferências.
Ao contrário da NBA ou da NFL, onde as movimentações seguem regras diferentes e os atletas possuem maior controle contratual, o futebol internacional gira em torno de negociações envolvendo taxas de transferência, empréstimos e vendas de direitos econômicos.
Por isso, agências como a Roc Nation mantêm relacionamento constante com clubes do mundo inteiro. Diretores esportivos, executivos e departamentos de scouting se encontram regularmente para discutir oportunidades de mercado, monitorar jogadores e entender necessidades futuras.
Para Pena, ter uma rede global de contatos construída ao longo de décadas é um dos principais diferenciais competitivos da agência.
O cuidado com o atleta vai muito além do campo
Se a negociação é uma das partes mais visíveis do trabalho, o desenvolvimento do atleta é o que ocupa a maior parte do dia a dia. Segundo o executivo, uma agência moderna precisa atuar em praticamente todos os aspectos da carreira do jogador.
No caso dos atletas que deixam o Brasil para atuar na Europa ainda muito jovens, o trabalho de adaptação se torna fundamental. Aprender uma nova língua, compreender uma nova cultura e lidar com a pressão da exposição internacional são fatores considerados decisivos para o sucesso da carreira.
O desafio de transformar talento em longevidade
Para Frederico Pena, o talento sozinho nunca foi suficiente para produzir uma estrela global. Ele cita características como disciplina, ambição, resiliência, competitividade e capacidade de sacrifício como elementos indispensáveis para o sucesso.
O executivo afirma que um dos momentos mais delicados acontece justamente quando o atleta faz a transição da base para o profissional e passa a ter sua primeira estabilidade financeira.
Muitos jogadores relaxam após alcançar essa primeira conquista, enquanto outros usam o momento como combustível para seguir evoluindo. É nesse contexto que agências especializadas atuam para manter o foco do atleta e ajudá-lo a pensar em objetivos de longo prazo.
Caso Endrick: quando o plano precisa ser ajustado
A trajetória de Endrick ilustra bem como o planejamento de carreira precisa ser flexível. A transferência para o Real Madrid foi fechada cerca de 18 meses antes da chegada do atacante à Espanha. Nesse intervalo, surgiram fatores que ninguém poderia prever.
O principal deles foi a contratação de Kylian Mbappé pelo clube espanhol, aumentando significativamente a concorrência no setor ofensivo. Além disso, uma lesão prejudicou a sequência do brasileiro e abriu espaço para outros jogadores da base.
Diante desse cenário, a estratégia passou a considerar novas alternativas para acelerar seu desenvolvimento, incluindo a possibilidade de um período de empréstimo para garantir mais tempo em campo. O que acabou se concretizando com sua ida por empréstimo ao Lyon, onde ficou até o fim da temporada e depois retornou ao time espanhol. Para Pena, administrar esse tipo de imprevisto faz parte da função de uma agência de alto nível.
O modelo Roc Nation
Criada por Jay-Z, a Roc Nation nasceu como uma empresa de entretenimento, mas se transformou em um ecossistema que integra música, esporte, cultura, consultoria e produção de conteúdo. A proposta é utilizar a força dessas diferentes áreas para potencializar a relevância cultural de seus representados.
No esporte, o foco está na construção de carreira de longo prazo. Mais do que intermediar contratos, a empresa busca desenvolver atletas capazes de se transformar em marcas globais. É justamente essa visão que ajudou a consolidar nomes como Vinícius Júnior e Endrick entre os principais ativos do futebol brasileiro.
No mercado atual, marcado por negociações cada vez mais complexas e atletas que se tornam marcas desde a adolescência, o papel de uma agência deixou de ser apenas negociar transferências. O objetivo passou a ser construir carreiras inteiras. E, nesse processo, Frederico Pena se tornou um dos brasileiros mais influentes dos bastidores do futebol mundial.
O Dentro da Arena é um programa quinzenal que traz entrevistas exclusivas com grandes nomes do esporte e dos negócios. Os episódios serão publicados sempre às terças-feiras, às 11h.
A primeira temporada contará com oito episódios exclusivos, disponíveis no portal Terra, no Spotify e no YouTube.
Calendário da primeira temporada
11/08: Bruno PlayHard (fundador da LOUD)
25/08: Arnon de Mello (Vice-President and Managing Director da NBA Latin America and Canada)
08/09: Vinicius Azevedo (superintendente de Marketing do Corinthians)
22/09: Luiz Martinez (diretor-geral da NFL no Brasil)
06/10: Francisco Mattos (diretor executivo da Fórmula 1 no Brasil)
20/10: Frederico Pena (presidente da Roc Nation Sports Brazil)
03/11: Felipe Funari (sócio-fundador do Fluxo W7M)
17/11: André Rocha (CEO do Red Bull Bragantino)
Assista a entrevista completa com Frederico Pena
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