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Marcos Caetano
Domingo, 11 Novembro de 2001, 19h26
terraesportes@terra.com.br

O Pelé do futebol


Durante muitos anos as pessoas vêm discutindo e tentando descobrir quem é o Pelé do basquete, o Pelé do vôlei, o Pelé do golfe, o Pelé da política, do cinema – e talvez até o Pelé do jogo de bolachas de cerveja da saideira do Bar Jobi, no Baixo Leblon.

Por alguma razão insondável, nossos vizinhos do andar de baixo acharam por bem decretar que o Pelé do futebol chama-se, na verdade, Maradona. Para isso, apóiam-se numa eleição eletrônica mal organizada – daquelas que costumam apontar O Pequeno Príncipe como o livro do século, ou consagrar a Perseguida do Funk como a mulher mais linda do planeta.

Morei em Buenos Aires e observei El Diego em ação muitas vezes, o suficiente para concluir o seguinte: foi um gênio absoluto. Incrível domínio de bola, visão de jogo quase mediúnica, carismático, valente, um verdadeiro príncipe dos gramados. Ganhou uma copa do mundo praticamente sozinho, foi césar em Nápoles – e quantas vezes o vi pacificar ou incendiar, com um gesto mínimo, a apaixonada torcida do Boca Juniors. Era capaz de incríveis malabarismos – até com uma bolinha de papel, como demonstrou quando foi homenageado pelos universitários de Oxford. Mas acima de tudo Maradona foi um apaixonado pela arte de jogar futebol com classe, hoje em via de desaparecimento.

Maradona foi um grande, mas não duvidem: compará-lo com Pelé é o mesmo que querer sentar Deus e o apóstolo Paulo em pratos de uma balança e tentar tirar disso alguma conclusão. Pelé foi incomparável. A perfeição em forma de jogador de futebol. Medi-lo com qualquer atleta, de qualquer modalidade, seria mais do que uma injustiça – seria um linchamento. Mas, já que os argentinos – e o próprio Maradona – foram os primeiros a tentar semelhante heresia, sinto-me compelido a transformar em números e palavras as diferenças entre ambos.

Vamos começar pelo que menos me atrai: os números. Pela fria e covarde matemática, Pelé ganhou três copas, contra uma do argentino. Os 354 gols que Maradona fez, se equivalem ao troco, à sobra, aos quebrados dos mil e tantos que o Rei deixou nas redes adversárias. Ou seja: mesmo no outono da carreira, depois do milésimo gol, Pelé fez tantos gols quanto Dieguito em toda a sua vida. Pelé fez mais gols de cabeça, de falta, de pé direito, de peito, de bico, de canela, sem querer e, creiam-me, até mesmo de pé esquerdo que o canhoto Maradona.

Falando de sentimentos, que em futebol importam mais, a verdade é que nenhum outro jogador deu mais alegria ao mundo do que o nosso Pelé. Digo mundo porque enquanto Maradona sempre foi argentino, Pelé tornou-se patrimônio da humanidade. Pelé interrompeu guerras, uniu nações, derrubou fronteiras políticas e raciais. Pelé transcendeu o futebol, algo que Maradona jamais esteve perto de experimentar.

Entretanto, a maior façanha de Pelé foi o fato ter sido Pelé e ter sobrevivido a isso. Um homem que possui o rosto mais conhecido do planeta há tantas décadas, tão venerado, tão visado, ter permanecido mentalmente são é algo que está além do meu entendimento. Maradona não suportou a pressão de ser Maradona. Foi demais para ele conviver com o massacre psicológico da idolatria de bilhões de pessoas ao redor do mundo. Como tantos outros mitos do esporte, Diego não suportou o peso da fama e desabou.

Aquele jovem de 41 anos, com aspecto de ancião, que sábado na Bombonera desfilou sua tragédia pessoal diante dos olhares de compaixão de torcedores e jogadores, inevitavelmente me fez recordar Garrincha em seu jogo de despedida. Caricaturas, paródias de si mesmos. Fantasmas. Minha filha achou graça do gordinho da camisa 10. Chamei sua atenção: – Não ria. Aquele homem foi um dos maiores gênios do esporte, e aliviou as dores de muitos dos que buscam no futebol a cura para as mazelas cotidianas.

Talvez aqui resida a derradeira prova da supremacia do Rei sobre seus súditos. Aos 61 anos, 20 a mais que Diego, Pelé continua a luzir o mesmo físico de quando abandonou os campos. Só essa imagem, o senhor preservado e atlético contraposto ao jovem devastado, já seria suficiente para provar o óbvio: Pelé não jogou mais que Maradona apenas enquanto esteve na ativa. Pelé joga mais que Maradona ainda hoje. O Pelé do futebol foi mesmo Pelé. E ele provou isso sábado, quando foi à Argentina desfilar sua majestade com discrição, em respeitosa homenagem ao anjo caído Diego Armando Maradona – “o homem que queria ser rei”, e que se deixou destruir por não haver conseguido.

 

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