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Parreira prega Seleção "sem erros" na Copa e avalia momento de Neymar

Treinador campeão mundial em 1994 falou ao LANCE! sobre a mentalidade da Seleção e o fracasso do "quadrado mágico" em 2006

18 mai 2022 06h22
| atualizado às 08h54
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Faltando pouco mais de seis meses para a estreia da Seleção Brasileira na Copa do Mundo do Qatar, em novembro, a torcida já começa a projetar o que esperar do time do técnico Tite. Nome histórico do futebol nacional, Carlos Alberto Parreira agora vive o lado de fora. Em entrevista exclusiva ao LANCE!, o treinador campeão do mundo em 1994 projetou um favoritismo do Brasil para o Mundial.

"Nossa expectativa, como brasileiros, é sempre positiva. Eu acho que mais uma vez a gente vai chegar como um dos favoritos. Tem futebol para isso, tem jogador, tem história, tem tradição, tem peso. Agora, a Copa do Mundo é muito imprevisível. Tanto é que o Brasil ficou 24 anos sem ganhar, depois venceu em 1994. Se não ganhar agora já vai para 20 anos. Olha como é complicado. Não é fácil, é uma competição muito especial. Mas a gente chega bem. Eu respeito sempre Argentina e Alemanha, acho que são os grandes adversários."

Se não for campeão, o Brasil chegará a 24 anos sem um título da Copa, igualando o maior jejum da história, com cinco edições. O intervalo ocorreu duas vezes. O primeiro entre 1930, no Uruguai, e 1954, na Suíça, quatro anos antes da primeira conquista. Neste período, o Mundial não foi disputado em 1942 e 1946 pela Segunda Guerra Mundial. A outra vez foi após o tricampeonato em 1970, no México. A Seleção passou em branco entre 1974, na Alemanha, e 1990, na Itália, voltando a festejar em 1994, nos Estados Unidos.

"A Copa do Mundo é uma competição que você não pode errar. Errou? Volta. Este foi o nosso lema em 1994. A gente não pode errar. Se errar vai para 24 anos (sem título). São sete jogos só, não pode errar. Nosso lema era "eficiência máxima, erro zero". Para ganhar a Copa é isso aí. Errou uma vez, volta", afirmou o ex-treinador.

"A partir das oitavas de final, são quatro jogos. É foco total. Por isso que tem ter um time no mínimo experiente, com jogadores já rodados, que tenham participado. Esse equilíbrio é muito importante. Quando nós ganhamos em 1970, tínhamos seis jogadores que atuaram em 1966. Quando ganhamos em 1994, vários tinham jogado em 1990 e já tinham passado pela experiência, do que tem que ser feito. Isso ajuda muito. Agora vamos ter jogadores que participaram da Copa de 2014, de 2018 e agora vão para 2022", completou.

Parreira foi campeão com a Seleção em 1994 (Foto: GABRIEL BOUYS/ AFP)
Parreira foi campeão com a Seleção em 1994 (Foto: GABRIEL BOUYS/ AFP)
Foto: Lance!

"NEYMAR TEM QUE ESTAR FOCADO"

A principal esperança da Seleção Brasileira em mais uma Copa é Neymar. O atacante vai para o terceiro Mundial depois dos fracassos em 2014, quando acabou lesionado antes da fatídica semifinal contra a Alemanha, e 2018. Na Rússia, o jogador chegou longe do auge físico após se recuperar de lesão e chegou a virar piada pelas quedas. O Qatar, porém, pode ser a última chance de levantar uma taça. O jogador admitiu que pensa em se aposentar da Seleção após a Copa.

"O Neymar já está com 30 anos, na próxima Copa ele estaria com 34. Eu não vejo a idade como um problema maior, é ele estar motivado o suficiente para jogar mais uma Copa e tudo o que representa: Eliminatórias, cobranças... O Pelé jogou a última Copa com 30 anos, em 1970 (tinha 29, mas estava perto de completar 30). E depois, inteligentemente, disse que não queria mais. Foi tricampeão do mundo como jogador. Quem na história do futebol conquistou três títulos de Copa do Mundo como jogador? Ninguém", disse Parreira.

"O que ele tinha a ganhar indo para a Copa de 1974? Eu acho que ele fez muito bem, saiu no auge. Deu sua colaboração, ajudou a Seleção, ganhou três títulos e saiu no auge. Então o Neymar tem que estar muito focado e muito motivado em querer estar em mais uma Copa. Eu respeito qualquer decisão dele. O importante é que ele esteja bem nesta Copa agora, no fim do ano", completou.

TRAUMAS DA SELEÇÃO

Carlos Alberto Parreira é especialista em Copas do Mundo. Como treinador, esteve em 1982 no Kuwait, em 1990 e 1998 nos Emirados Árabes, em 1994 conquistou o tetracampeonato com o Brasil, onde também foi técnico em 2006, e em 2010 comandou a África do Sul. Também foi preparador físico no tri em 1970 e coordenador técnico em 2014. Essa última passagem acabou sendo a mais decepcionante com o inesquecível 7 a 1 para a Alemanha na semifinal em casa.

"Aquilo (2014) foi difícil para todos. Eu já não trabalhava com futebol, foi minha última função. O Felipão acabou se recuperando, óbvio, tinha um laço muito grande. Mas os próprios jogadores, a comissão, foi um peso muito grande tomar de 7 a 1 em casa. Foi muito difícil. Eu diria que só o Brasil consegue de uma Copa para a outra levar sete e chegar em 2018 como favorito. Só o futebol brasileiro. Pela potência, a força, o vigor e a capacidade de renovação", afirmou Parreira.

O pior pesadelo da história brasileira começou aos 11 minutos do primeiro tempo, com Thomas Müller. Até o intervalo foram mais quatro gols. Klose aos 23, Kroos aos 24 e 26 e Khedira aos 29. No vestiário, Parreira relembra o clima de incredulidade diante da expectativa de o Brasil ser campeão em casa.

"Está marcado na história das Copas o 7 a 1. Nunca aconteceu em uma semifinal, uma seleção nunca perdeu de sete. Explicação? Não tenho. São coisas próprias do futebol. A melhor definição foi do Júlio César, o mais experiente do elenco. Quando acabou o jogo perguntaram como explicava o 7 a 1. Ele disse que não se explica o inexplicável. Definiu. Um a zero, dois, olhava para o Felipão, três, estava dando a saída e já foi gol. Estava conversando para comentar o jogo, em cinco minutos foram três gols. Muito rápido, não deu tempo. Voltamos para o vestiário e estava 5 a 0", lembrou.

"Imagina isso. Voltar para o vestiário em uma semifinal de Copa do Mundo, em casa, 5 a 0 para o adversário. É uma coisa impensável, inimaginável. Cheguei perto disso uma vez. Estávamos perdendo para a Argentina por 3 a 0 no intervalo em Buenos Aires, mas no segundo tempo quase empatamos, foi 3 a 2. Mas 5 a 0 em uma semifinal, a Seleção Brasileira... O vestiário estava em clima de perplexidade. "É verdade? Aconteceu mesmo? Está acontecendo?" Fazer o quê? Ninguém acreditava. Mas a realidade é essa. Não adianta falar "vamos virar o jogo", fazer 6 a 5, não vai acontecer. Vamos terminar o jogo com dignidade. Foi o que o Felipão fez."

Parreira era coordenador técnico da Seleção em 2014 (Foto: PEDRO UGARTE/AFP)
Parreira era coordenador técnico da Seleção em 2014 (Foto: PEDRO UGARTE/AFP)
Foto: Lance!

Outra seleção que guardava muita expectativa era a de 2006, do famoso "quadrado mágico" de Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Kaká. No fim, decepção com a eliminação nas quartas de final da Copa para a França e craques que não renderam nem perto do que era esperado.

"Quando não dá certo é porque faltou alguma coisa. Qualidade não era um problema (em 2006) porque tinha demais. Tinha uma série de coisinhas de ordem interna que se começarmos a falar vai parecer que estamos procurando desculpas. A verdade é que o time não rendeu o que era esperado. Rendeu na Copa América, na Copa das Confederações, nos amistosos. No momento mais importante ficamos devendo."

Parreira foi treinador da Seleção em 2006 (Foto: Divulgação)
Parreira foi treinador da Seleção em 2006 (Foto: Divulgação)
Foto: Lance!

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NEYMAR

"Já atingiu a maturidade. O Neymar joga desde os 16 anos no Santos. Foi campeão paulista, da Copa do Brasil, da Libertadores... não falta experiência. Jogou no Barcelona no auge daquele time com Messi e aquela turma toda. Acho que ele está maduro e pronto para explodir nesta Copa. Bola de Ouro eu acho que é mais complicado porque tem gente que saiu na frente. Falta pouco para o fim da temporada e o time dele saiu cedo (Champions League). Se vai até as semifinais ou final ajudaria muito, a visibilidade é muito grande. Para a próxima Bola de Ouro eu acho que pode, sem dúvida nenhuma."

PREPARAÇÃO EM 2006

"Foi uma preparação diferente. Em 1970 nós treinamos cinco meses. Depois em 1994 treinamos uma semana no Brasil e 35 dias na Califórnia. Em 2006 tivemos 15 dias. Foi uma preparação curta, um time que não estava definido. Ganhamos a Copa das Confederações e um ano depois o time era quase o mesmo, mas os jogadores não. O Ronaldo estava parado há três meses, o Adriano com problemas de peso. Tivemos que recuperá-los. Não era um time que estivesse na ponta dos cascos. Tinha muito nome, experiência, mas o rendimento não foi o esperado, ficou faltando alguma coisa."

ELIMINAÇÃO EM 2006

"Se olhar o jogo contra a França foi equilibrado. Eles tiveram uma chance, aproveitaram e depois se trancaram atrás. Eram experientes, tinham jogadores ali na terceira Copa. Ficou difícil furar o bloqueio e mudar o resultado. Ganhou de 1 a 0, o Zidane tinha descansado um jogo antes, tinha sido expulso, estava suspenso. Entrou endiabrado e fez uma diferença enorme. Estava bem fisicamente, animicamente, tecnicamente. É complicado. Por que não parou o Zidane? Vai parar como? Só dando um tiro, né (risos). Não tinha uma posição definida, ele passeou no campo. A gente realmente não se encontrou. Não fomos massacrados, mas para virar foi complicado."

DESGASTE NA COPA

"Não acho que será um problema esse ano porque eles estarão em forma. Em junho, julho eles estão desgastados, é um problema muito sério. Então nossa preparação aqui no Brasil é recuperá-los, não treinar. Isso não vai acontecer, vão estar no auge da preparação. Vai ser muito bom na parte física. Em dezembro no Brasil estão de férias, mas são poucos na Seleção."

* Estagiário, sob a supervisão de Luiza Sá.

Lance!
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