Relembre a carreira de conquistas e recordes de Oscar Schmidt, o "Mão Santa"
Ex-atleta morreu aos 68 anos em Santana de Parnaíba, em São Paulo; relembre a carreira nacional e internacional do maior atleta da história do basquete brasileiro
Oscar Schmidt morreu na tarde desta sexta-feira (17), aos 68 anos, em Santana de Parnaíba, na Região Metropolitana de São Paulo, deixando um legado concreto e indiscutível no basquete nacional e mundial. O atleta, que por anos deteve o posto de maior pontuador da história do esporte (49.973 pontos), teve conquistas nacionais e internacionais de destaque, assim como feitos históricos com a camisa da seleção brasileira.
Individualmente, em jogos olímpicos, é um dos jogadores de basquete com mais participações (5), maior pontuador em uma partida olímpica (55), jogador mais vezes cestinha (3), maior pontuador de três pontos, dois pontos e lances livres e o maior pontuador da história dos jogos de verão (1.093).
Ainda com o Brasil, é o segundo a vestir mais vezes a camisa verde e amarela em jogos (33) e o maior cestinha, com 7.963 pontos nos 19 anos em que defendeu o país.
Em clubes, foi multicampeão em equipes como o Palmeiras, Sírio e Flamengo, além de consolidar a carreira internacional na Itália, por Juvecaserta e Pavia e recusando a entrada na NBA, mesmo draftado.
Confira abaixo a biografia de Oscar Schmidt e seu legado para o basquete brasileiro.
Primeiros passos no basquete
Oscar Daniel Bezerra Schmidt nasceu em 16 de fevereiro de 1958 em Natal, Rio Grande do Norte. Desde pequeno, foi incentivado pelo pai, militar, a praticar esportes, sendo apaixonado pelo futebol.
No entanto, de acordo com a biografia de Oscar, seus rumos mudaram quando ele se mudou para Brasília e, com 13 anos, foi incentivado por Zezão, seu treinador no Salesiano, a mudar para o basquete. Laurindo Miura (1953-2021), seu primeiro treinador no Clube Vizinhança e responsável por lançá-lo ao esporte, foi quem o desenvolveu em treinamentos que aprimoraram coordenação e lançamentos.
Início no Palmeiras e na seleção brasileira
Oscar foi para a equipe de basquete infantojuvenil do Palmeiras em 1974, após se mudar para São Paulo. Nela, teve grande destaque a ponto de ser convocado para a seleção juvenil e na principal do Brasil, a partir de 1977.
Com o Palmeiras, foram 2033 pontos marcados de 1975 a 1978, nas 83 partidas que o pivô disputou pelo alviverde. Dos títulos, conquistou o Campeonato Paulista de 1974, a Copa Interamericana e o Campeonato Brasileiro em 1977, além de três edições seguidas do Campeonato Paulistano (1974, 1975 e 1976) duas do Torneio de Preparação da FPB (1976 e 1977) e um Torneio de Aniversário da FPB (1976).
No mesmo período, com o Brasil, conquistou o sul-americano juvenil sendo o melhor pivô e, na principal, também conquistou o torneio continental em 1977, no Chile, além de ajudar o Brasil na conquista da medalha de bronze no mundial de 1978, nas Filipinas.
Ida para o Sírio e primeiro Mundial Interclubes
Cláudio Mortari (1948-2025), treinador do Palmeiras entre 1976 e 1977, assumiu o comando do Esporte Clube Sírio, de São Paulo, no ano seguinte. Ele levou Oscar para o clube após o bom desempenho do pivô no clube anterior e com o Brasil.
A passagem de Oscar no clube paulista, de 1978 a 1982, rendeu títulos de expressão nacionais e internacionais no ano de 1979: um Campeonato Paulista - também conquistado em 78 -, um campeonato Brasleiro, o Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões e, por fim, o Mundial de Clubes da FIBA, à época batizado de "Copa Intercontinental William Jones", enfrentando equipes da Iugoslávia, Porto Rico, Itália e Estados Unidos.
Em 1981, na edição de São Paulo do Mundial de Clubes, o Sírio foi o terceiro colocado da competição. Ao todo, foram 4.351 pontos de Oscar em 146 partidas pela equipe paulistana.
Primeiro Pan e primeira olimpíada
Oscar Schmidt participou da primeira edição dos Jogos Pan-Americanos em 1979, em San Juan, Porto Rico, onde o Brasil conquistou o bronze.
Depois, participou de sua primeira edição dos Jogos Olímpicos de Verão em 1980, em Moscou. O pivô fez 169 pontos nas sete partidas que disputou, levando o Brasil ao quinto lugar. Na campanha, o Brasil enfrentou a União Soviética, a Tchecoslováquia e a Índia na primeira fase, além de enfrentar Cuba, Espanha, Itália e Iugoslávia na fase de grupos semifinal.
Ida para o basquete italiano
Os impactos de Oscar Schmidt no final dos anos 70 seguiram repercutindo de modo que o treinador Bogdan Tanjević tirou o brasileiro do América-RJ, equipe que havia integrado em 1982, para levá-lo para o Juvecaserta, do Sul da Itália.
Schmidt ficou no Juvecaserta de 1982 a 1990, conquistando uma Coppa Itália em 1988 e chegando às finais da mesma competição em 1984 e 1989, perdendo ambas para o Virtus Bologna. Também foi vice-campeão do Campeonato Italiano nos anos de 1986 e 1987, da Taça Korać de 1986 e da Taça dos Campeões de 1989, quando perderam para o Real Madrid.
Ao todo, foram 9.143 pontos marcados pelo "Mão Santa" em 284 jogos no Caserta. O pivô brasileiro foi para o Pavia em 1990, onde fez 4 814 pontos em 119 jogos. Somados os pontos nas duas equipes, o brasileiro fez 13.957 pontos em 11 anos, tornando ele o primeiro a ultrapassar 10 mil pontos no basquete italiano.
Draft da NBA e a recusa de Oscar Schmidt
Ainda no início da passagem pelo Juvecaserta, em 1984, Oscar Schmidt participou do Draft da NBA e foi a escolha 131, na sexta rodada, para o New Jersey Nets (atualmente Brooklyn Nets).
No entanto, Oscar recusou a concretização do draft por conta da restrição que a Federação Internacional de Basquetebol (FIBA) colocava na época: jogadores da NBA não podiam representar suas seleções. A prioridade de Schmidt foi o Brasil neste caso, o que também o levou a recusar outras propostas em anos seguintes para manter o status de "amador", mesmo após o fim da restrição, em 1989.
Era vitoriosa e a maior conquista pela seleção brasileira
Os anos 80 foram mágicos para o basquetebol brasileiro e Oscar Schmidt foi uma das lideranças dos grandes feitos da década em questão.
O Brasil foi vice-campeão no Sul-Americano de 1981, no Uruguai, e foi campeão em 1983, em casa. Nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, apesar do nono lugar na competição, Oscar Schmidt se destacou pelo Brasil, o que levou ao caso do draft anteriormente citado. O feito do Sul-Americano se repetiu em 1985, levando o Brasil a uma crescente que levaria à maior glória dois anos depois: os Jogos Pan-Americanos de 1987, em Indianápolis (EUA).
A campanha pan-americana, treinada por Ary Vidal, liderada pelos pontos de Oscar Schmidt e contando com peças como Marcel, Gerson, Guerrinha, Israel e Paulinho Villas Boas, envolveu um terceiro lugar do Brasil na primeira fase, se classificando no grupo B com sete pontos atrás de Canadá e Porto Rico e à frente do Uruguai. As Ilhas Virgens Americanas, em último lugar, não passaram de fase.
Nas fases eliminatórias, os brasileiros venceram a Venezuela por 131 a 84 e o México por 137 a 116. O adversário final era justamente a seleção anfitriã.
Os Estados Unidos estavam com 60 partidas de invencibilidade e nunca tinham perdido em casa. Não até aquela final do Pan. O time de Keith Smart, Fennis Dembo, Keith Robertson e outros até saiu na frente no primeiro tempo, abrindo 20 pontos que foram reduzidos para 14 e fechando a metade em 68 a 54. A virada épica brasileira veio na segunda metade, com sete cestas de três de Oscar e um total de 46 pontos na partida inteira, fechando a virada épica do Brasil em 120 a 115 (66 a 47 no segundo tempo).
A derrota estadunidense, liderada pela atuação de Oscar, foi um pilar para que os estadunidenses, com a quebra da restrição da FIBA, levassem seus melhores jogadores da NBA para a conquista das Olimpíadas de Barcelona, em 1992, no que ficou conhecido como "Dream Team".
Em 1988 o Brasil, com Oscar Schmidt, repetiu o feito de Moscou e ficou na quinta colocação, repetindo a posição em 1992. Foi nesta edição que o Mão Santa fez a maior pontuação de um jogador em uma partida de basquete da competição, com 55 pontos contra a Espanha.
Passagem pela Espanha
Oscar Schmidt jogou pelo Forum Valladolid entre 1993 e 1995. Na equipe espanhola, ele não conquistou títulos, mas fez 2.009 pontos em 71 partidas que disputou em dois anos, encantando o país e a imprensa local. Foi o último clube fora do Brasil no qual Oscar jogou em sua carreira.
A volta para o Brasil e a última olimpíada
Seu retorno em solo brasileiro se deu em 1995, quando integrou a equipe do Corinthians. Foram 4.270 pontos em 131 jogos e um título: o Campeonato Brasileiro de 1996. Oscar jogou no coringão até 1997.
Sua última olimpíada com o Brasil foi um ano antes, em 1996, na cidade de Atlanta, feito que garantiu dois recordes: o de mais participações em Olimpíadas (5), que divide com Andrew Gaze e Teófilo Cruz; e o de maior cestinha do basquete nos jogos de verão, com 1.093 pontos no total. O Brasil caiu nas quartas de final para os EUA, em derrota por 98 a 75, vencendo a Croácia na disputa de quinto a oitavo e ficando na sexta posição após perder para a Grécia na disputa de quinto lugar.
Passagens por Bandeirantes e Mackenzie
Após a passagem pelo Corinthians, Oscar Schmidt passou pelo Banco Bandeirantes (atual Grêmio Recreativo Barueri) entre 1997 e 1998, com 117 jogos e 3.570 pontos no total. Depois, entrou para a equipe do Mackenzie/Microcamp, uma parceria do Bandeirantes com a Universidade Mackenzie e o grupo Microcamp, onde conquistou o Campeonato Paulista e anotou 4.613 pontos em 120 partidas.
As últimas danças e últimos recordes com o rubro-negro
O último clube defendido por Oscar Schmidt na carreira foi o Flamengo, entre 1999 e 2003. Foram duas edições do Campeonato Carioca conquistadas, em 99 e 2002, além de 219 jogos e 7 241 pontos em quatro anos, sua maior marca de pontuação em um clube.
Foi no Flamengo, também, que Oscar ultrapassou Kareem Abdul-Jabbar como o maior cestinha da história do basquete. Foram 49.737 pontos na carreira contra os 46.725 de Kareem. A marca foi ultrapassada por LeBron James em 2024.
Em 2002, Oscar jogou com seu filho, Felipe Schmidt, em uma partida. Um tinha 44 anos, enquanto o outro, 16.
Seu último jogo como profissional de basquete foi em 14 de maio de 2003, no jogo do Flamengo contra o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte. Apesar da derrota por 101 a 89, os 32 pontos marcados garantiram, pela última vez, o posto de cestinha de uma partida e, também, o alcance de mil pontos no campeonato nacional.
Vida após a aposentadoria e homenagens pós-carreira
Ainda quando era jogador, em 1998, chegou a participar das eleições para o Senado de São Paulo daquele ano, pelo PPB (atual Progressistas ou PP). Ficou em segundo lugar, com 36,93% dos votos, perdendo para Eduardo Suplicy (PT), que obteve 43,13%.
Schmidt virou dirigente esportivo após se aposentar e fundou o Telemar/Rio que, mesmo existindo somente de 2004 a 2006, conquistou o Campeonato Carioca de 2004 e o Campeonato Brasileiro de 2005. Ele chegou a fundar e presidir uma liga alternativa de basquete, a Nossa Liga de Futebol, que funcionou até 2008.
Oscar enfrentou problemas de saúde. No ano de 2011, foi diagnosticado com um tumor cerebral no qual se recuperou e venceu a doença em 2022. Em 2014, chegou a sofrer uma arritmia cardíaca e, mais recentemente, passou por uma cirurgia não divulgada e passava por recuperação.
Oscar foi homenageado em vida em duas oportunidades de destaque. A primeira foi em 2013, quando foi induzido ao Hall da Fama do Basquetebol e recebeu o prêmio das mãos de Larry Bird. O segundo caso foi no último dia 08 de abril, no Hall da Fama do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), em cerimônia que não pôde comparecer por conta da recuperação de uma cirurgia. Seu filho, Felipe, foi quem recebeu a homenagem em nome do pai e chegou a mencionar aquele reconhecimento como o "último capítulo de uma vida de vitórias".
Oscar deixa dois filhos e a esposa. Além disso, era irmão do apresentador Tadeu Schmidt e tio do jogador de vôlei de praia Bruno Schmidt.
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