Saiba detalhes da auditoria que revelou informações financeiras do Bahia
A divulgação do relatório de movimentações financeiras realizado nas contas do Bahia, que revelou uma dívida de R$ 83,2 milhões por parte do clube baiano, também aponta para uma série de irregularidades nos últimos dois anos. As ações com pouca clareza envolvem superfaturamento, venda de jogadores promissores, pagamentos sem comprovação, além de evasão fiscal e de ingressos.
Em suas primeiras páginas, o relatório depositado no Tribunal de Justiça da Bahia é taxativo quanto à falta de clareza na gestão anterior o que, segundo o próprio documento, atrapalhou o andamento da auditoria. "O ambiente geral de controle interno do Esporte Clube Bahia é bastante deficiente, não existindo políticas, normas e procedimentos formalizados que garantam o adequado controle e registro das operações e, particularmente, que garantam a elaboração de informações contábeis fidedignas", lê-se no documento, que foi construído com base em informações colhidas no clube e junto a alguns funcionários da agremiação.
A falta de transparência na gestão se verificou mesmo durante a intervenção do clube, uma vez que muitos funcionários do setor financeiro, que não foram demitidos após a destituição de Guimarães Filho, não compareceram ao trabalho.
Segundo o documento, essas dificuldades impediram a construção de uma análise mais profunda e completa acerca do real quadro administrativo tricolor. Assim, por mais de um mês, os auditores não tiveram acesso aos balancetes da temporada 2013. A falta de documentação mais aprofundada, inclusive, impede que se possa chamar o relatório de auditoria. “Os procedimentos aplicados não representam uma auditoria sobre as demonstrações contábeis do Esporte Clube Bahia”, lê-se no relatório.
As informações contábeis deste ano só chegaram às mãos dos responsáveis no último dia de investigações, pouco antes do processo eleitoral que elegeu Fernando Schmidt. O documento destaca que boa parte das informações foram obtidas com base em amostragens esporádicas – por exemplo, a auditoria não obteve a relação de processos judiciais e administrativos em que o Bahia é a parte ativa ou passiva. Deficiências estruturais do clube também impediram a localização de documentos que poderiam dar suporte à investigação de operações financeiras realizadas na segunda gestão do ex-presidente.
Funcionários do clube e folha salarial
Entre os muitos empréstimos, adiantamentos, pagamentos e cheques de alto valor sem comprovação ou a fonte desconhecida, destacam-se uma ordem de pagamento nominal no valor de R$ 32 mil emitida para um office boy do clube, e a devolução de empréstimos feita pelo ex-funcionário do clube, Sérgio Beserra, o Kabrocha, no valor de R$ 165 mil e R$ 67 mil. Kabrocha, que recebia R$ 11 mil, segundo o documento, teve, ainda, o imposto de renda de 2012, no valor de R$ 3,6 mil, pago pelo clube.
O recebimento de honorários por parte de funcionários do clube de maneira indevida também foi apontado pelo documento no que diz respeito aos conselheiros. Como já havia sido apontado pelo Terra, alguns conselheiros e diretores do alto escalão do Bahia constavam na folha salarial e, conforme o antigo estatuto do clube, não havia qualquer indicação sobre se estes cargos deveriam ou não ser remunerados. Irmãos do ex-presidente e de outros membros da antiga diretoria executiva, além de conselheiros, também constavam na folha de pagamentos do Bahia.
Entre os citados nominalmente como exemplos pelo documento, estão o ex-presidente do Conselho Deliberativo, Ruy Accioly, que aparece como superintendente na lista de funcionários, Sacha Mamede, além das irmãs do ex-presidente Marcelo Guimarães Filho, que ocupavam cargos no departamento jurídico, como diretora e gerente. Luciana de Medeiros Guimarães e Renata de Medeiros Guimarães recebiam, respectivamente, R$ 15 mil e R$ 8 mil mensais pelo trabalho.
Dentre os 378 nomes da folha, o relatório ressalta que seis funcionários constam como servidores na sede de praia do clube, que foi vendida à Prefeitura de Salvador em dezembro de 2012 e já foi demolida.
Cidade Tricolor precisou de mais do que o previsto para sair do papel
Entre a série de transações com pouca transparência indicadas pelo relatório da Performance, algumas se destacam, no processo de rápido endividamento do clube. Uma delas é relativa à troca do centro de treinamentos do Bahia.
Nos próximos meses, o Bahia trocará o Fazendão, em Lauro de Freitas, pela Cidade Tricolor, localizada em Dias D’Ávila – ambas cidades da região metropolitana de Salvador. À época, o ex-presidente afirmou que o clube abriria mão do antigo CT e gastaria mais R$ 4 milhões para a realização da obra. O relatório da auditoria mostra números diferentes e indica que o Bahia precisará pagar R$ 9 milhões, mais do que o dobro aprovado em assembleia geral.
"No aditivo contratual ao Protocolo de Intenções e Outras Avenças firmado com a OAS para a venda do novo Fazendão e aquisição do novo Centro de Treinamento, o Esporte Clube Bahia se compromete a ceder o equivalente a 8.038 m² de Transcon (Transferência do Direito de Construir) que deverão, portanto, corresponder a 18.667,26 INCCs – base fevereiro/2013 ou R$ 9.875.521,89. Esta cessão ainda não foi concretizada, pois a referida aquisição ainda não foi formalizada", lê-se no documento divulgado.
Evasão de ingressos foi detectada por auditoria
Nos últimos meses da gestão de Guimarães Filho, a Arena Fonte Nova foi inaugurada e, como parte do acordo firmado entre o Bahia e a Fonte Nova Participações (FNP), o clube teria direito a 300 ingressos no setor Lounge Premium, no valor de R$ 165, cada, e mais dois camarotes. Era prática comum da diretoria anterior trocar os ingressos por outros mais baratos, de forma a distribuir mais gratuidades.
Segundo o relatório, o contrato entre Bahia e FNP previa que 60% dos ingressos retirados pelo clube deveriam ser destinados à torcida, enquanto 30% ficavam para patrocinadores, e os 10% restantes eram destinados a outros parceiros, funcionários, presidência, etc.
Porém, de acordo com o relatório divulgado, em todas as partidas realizadas até o dia 25 de agosto, o Bahia distribuiu mais ingressos do que o previsto em contrato. Com isso, o valor que excedia o montante acordado se transformava em desconto da quantia que a Arena teria de pagar ao clube. Somente no clássico Ba-Vi que inaugurou o estádio, na final do Campeonato Baiano, o clube distribuiu 6.450 bilhetes a mais do que o previsto em contrato.
Apenas a distribuição indevida dos ingressos no Ba-Vi correspondeu a uum desconto de R$ 321.750 no valor que o Bahia teria que receber da FNP. Durante todo o período investigado pela auditoria, o clube deixou de receber R$ 1.213.690.
Hoje, clube deve à empresa da família do presidente destituído
Ao longo dos anos, uma prática que foi indicada pelo documento entregue pela Performance foi o envolvimento do Bahia com empresas pertencentes à família Guimarães. A empresa Consultiva, que aparece como beneficiária do repasse de parte de uma dívida de crédito do Bahia com a Protector Segurança e Vigilância, ambas de propriedade de Marcelo Guimarães, pai do presidente destituído e também ex-presidente do Bahia.
A Protector fez um empréstimo de R$ 200 mil ao Bahia, há 13 anos, e repassou seus direitos de crédito para a Consultiva – em janeiro de 2009, a mesma Protector já havia cedido seus créditos com o Bahia para a empresa Pósdata Serviços e Gestão de Saúde LTDA, que também é da família Guimarães.
Tanto a Protector quanto a Pósdata foram indiciadas no relatório final produzido pelo Ministério Público Federal na operação Jaleco Branco, de 2006. Naquela época, Marcelo Guimarães e outros 15 suspeitos foram presos temporariamente, sob a acusação de envolvimento por crimes de corrupção e formação de quadrilha.
Hoje, a dívida do Bahia com a empresa da família Guimarães ultrapassa os R$ 3,2 milhões, por conta dos juros anuais de 2,5%. O Bahia pagou parte dessa dívida com dois cheques. Um de R$ 1,5 milhão, emitido ao portador, e outro de R$ 200 mil, que a auditoria não conseguiu identificar quem foi o favorecido.
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