F1 2026: Como uma guerra de egos aniquilou a dominância da Red Bull
Da morte do fundador à saída de peças importantes, entenda como brigas internas transformaram a equipe dos sonhos em uma gigante vulnerável
A Red Bull Racing, agora sob nova gestão, mergulha em um declínio técnico alarmante, decorrente de guerras internas e saídas que fortaleceram diretamente as rivais. Mas como a equipe mais dominante da história recente permitiu que os ocorridos nos bastidores destruíssem tudo em tão pouco tempo? Entenda a sequência de eventos que transformou o "time dos sonhos" em uma verdadeira bola de neve
O falecimento de Dietrich Mateschitz, fundador e dono da marca Red Bull
A morte de Dietrich Mateschitz, em outubro de 2022, removeu a única pessoa que Horner respeitava dentro da Red Bull e que mantinha o equilíbrio entre o lado esportivo e o comercial. Sem o "chefe", Horner viu a oportunidade de crescer, acumulando funções de CEO e controle total nos moldes que Toto Wolff leva na Mercedes. Ele passou a questionar a influência de Helmut Marko internamente. Horner queria que a equipe fosse "dele", o que criou uma barreira imediata com o herdeiro Mark Mateschitz e o CEO Oliver Mintzlaff, que passaram a ver o britânico como alguém que estava tentando "sequestrar" a marca para benefício próprio.
No início de 2024, o conflito silencioso se tornou público da pior forma. Uma funcionária da Red Bull acusou Horner de comportamento inadequado.
A parte austríaca da equipe (dona de 49% das ações) viu no caso a chance legal de remover Horner do time. Eles chegaram a preparar um comunicado de demissão oficial que foi barrado pelo sócio majoritário Chalerm Yoovidhya, dono de 51% das ações da Red Bull. O tailandês bloqueou a demissão e impôs uma investigação interna por um advogado "independente". Horner foi absolvido na investigação.
Apenas 24 horas após Horner ser declarado inocente pela investigação interna, um drive anônimo foi enviado a centenas de jornalistas e figuras da F1 dias antes do GP do Bahrein de 2024. O arquivo continha capturas de tela de supostas conversas íntimas e fotos de Horner. A intenção era clara: destruir a reputação de Horner publicamente, já que ele era intocável juridicamente graças ao apoio tailandês. Suspeitas caíram sobre Jos Verstappen e Helmut Marko, sugerindo que eles estavam dispostos a "queimar a casa" para tirar Horner de lá.
Durante o GP da Arábia Saudita, Horner tentou revidar investigando quem teria vazado as imagens, colocando Helmut Marko na mira de uma suspensão por "vazamento de informações confidenciais".
Max Verstappen, que até então estava em silêncio, deu um ultimato direto à Horner: "Se o Helmut sair, eu saio no minuto seguinte". Max declarou lealdade total ao legado de Mateschitz e ao homem que o trouxe para a F1, isolando Horner politicamente dentro da própria garagem.
Saídas importantes
Em meados de 2023, Rob Marshall, ex-diretor de engenharia da Red Bull, anunciou que estava partindo para a McLaren, iniciando no cargo de projetista chefe a partir de 2024, levando consigo segredos fundamentais que transformaram o carro laranja no melhor do grid.
Adrian Newey, cansado da "toxicidade" do ambiente, decidiu que seu ciclo na equipe havia acabado. A saída dele para a Aston Martin não foi apenas a perda de um projetista, mas o sinal para todo o grid de que o navio da Red Bull estava afundando. Sem Newey, o "escudo" técnico da equipe desapareceu.
Logo depois, Jonathan Wheatley, o diretor esportivo e "mestre das regras", anunciou sua ida para a Audi. Wheatley era quem garantia que a equipe quase nunca cometesse erros táticos ou procedimentais. Com ele, o time perdeu sua "enciclopédia" de pista.
Ao final de 2024, foi anunciado que Sergio Pérez deixaria a Red Bull para dar lugar a Liam Lawson, piloto neozelandês que, até aquele determinado momento, sequer havia completado uma temporada inteira na F1.
No entanto, Lawson foi rebaixado para a Racing Bulls após disputar apenas duas corridas pela Red Bull Racing em 2025. Com zero pontos marcados e um DNF na Austrália, ele fez com que o chefe de equipe, Christian Horner, percebesse que talvez o tivesse promovido cedo demais. Com isso, a equipe finalmente deu uma chance a Yuki Tsunoda no segundo assento do time principal.
Porém, Yuki também não performou. Ele terminou o campeonato na 17ª posição, enquanto Max disputou o título até a última corrida do ano, sendo superado por Lando Norris, da McLaren, por apenas dois pontos. Dessa maneira, Tsunoda não renovou com a Red Bull e ficou de fora do grid da categoria para 2026. Em seu lugar, o francês recém-estreante Isack Hadjar foi promovido ao segundo assento da RBR.
A quase saída de Verstappen
Piorando ainda mais o clima interno, surgiram rumores de que Max Verstappen estaria disposto a acionar uma cláusula contratual que permitia sua saída imediata caso não estivesse entre os três primeiros colocados no campeonato de pilotos até a pausa de verão (summer break). Diversas fontes relataram que Verstappen e Toto Wolff estavam com conversas avançadas para um acordo com início imediato em 2026, o que forçaria a Mercedes a decidir quem dividiria a garagem com Max: George Russell ou Kimi Antonelli.
Entretanto, o summer break chegou e Max Verstappen ocupava a terceira colocação no campeonato, o que impossibilitou sua saída imediata e fez com que a Mercedes renovasse com ambos os seus pilotos para a temporada seguinte.
O estopim de Horner no comando
Após insistir em manter o controle enquanto via a equipe despencar para a quarta posição no campeonato, Christian Horner foi finalmente destituído do cargo com efeito imediato antes do GP da Bélgica. A Red Bull, cansada dos danos à imagem da marca e da falta de resultados, promoveu Laurent Mekies (ex-Ferrari e então chefe da Racing Bulls) para assumir o comando da Red Bull Racing. Mekies chegou com a missão de tentar reconstruir uma cultura de trabalho destruída pela guerra de egos dos anos anteriores.
Fim da parceria entre Verstappen e Lambiase; e a frustação do tetracampeão
A confirmação de que Gianpiero Lambiase (GP) deixará a equipe rumo à McLaren em 2028 é o golpe que pode significar algo muito maior. GP é a única pessoa em quem Max confia plenamente no rádio; é ele quem controla e conhece como ninguém o tetracampeão. A ida de GP para a McLaren praticamente completa a transferência do "cérebro operacional" da Red Bull para a rival, mas o problema de Verstappen vai além da garagem.
O holandês tem demonstrado um profundo descontentamento com o regulamento técnico da categoria, declarando diversas vezes este ano que os carros atuais não são divertidos de dirigir. Para Max, a essência da pilotagem foi perdida em meio à gestão de energia. Somado a isso, a visível falta de competitividade da Red Bull criou a tempestade perfeita. Diante de tamanha frustração, a permanência de Verstappen na Fórmula 1 torna-se incerta, com Max sinalizando que pode tirar um ano sabático da categoria.
O colapso da Red Bull Racing em 2026 marca o fim de uma hemegonia que ruiu por disputas de poder. Entre um regulamento que Max Verstappen abomina e um carro que perdeu sua essência, o reinado de Christian Horner, agora sob o comando de Laurent Mekies, terminou de maneira melancólica. A saída de figuras importantes sinaliza que o sucesso na Fórmula 1 não depende apenas do carro, mas da harmonia interna que a Red Bull não soube manter.
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