Ex-F1 Lucas di Grassi encerra carreira no automobilismo após 32 anos
O fim da jornada foi acompanhado por uma reflexão sobre tudo o que viveu nas pistas e, principalmente, sobre os próximos capítulos de sua vida
Lucas di Grassi colocou um ponto final em uma trajetória de mais de três décadas no automobilismo. Aos 42 anos, o brasileiro disputou no último domingo (17) as duas corridas do ePrix de Londres, no Reino Unido, pela temporada 2026 da Fórmula E, e encerrou oficialmente sua carreira como piloto profissional. O fim da jornada foi acompanhado por uma reflexão sobre tudo o que viveu nas pistas e, principalmente, sobre os próximos capítulos de sua vida.
Antes de entrar no carro pela última vez, Di Grassi já havia confirmado que a temporada seria sua despedida. Depois da rodada dupla londrina, o piloto da Lola-Yamaha terminou o campeonato na 17ª colocação, acumulando 32 pontos. Nas duas provas realizadas no fim de semana, porém, não conseguiu completar nenhuma delas.
Após a última participação, o brasileiro publicou uma fotografia ao lado do filho e compartilhou uma carta aberta nas redes sociais. No texto, relembrou os ensinamentos adquiridos ao longo de sua carreira e destacou que a aposentadoria não representa apenas o encerramento de uma história, mas também o início de uma nova fase.
UMA DESPEDIDA MARCADA PELA REFLEXÃO
Em sua mensagem, Di Grassi ressaltou que o automobilismo foi responsável por moldar sua personalidade e apresentou os desafios enfrentados durante os anos de competição. Para o brasileiro, chegar ao mais alto nível exigiu muito mais do que capacidade técnica ou talento natural.
— Depois de 30 anos no automobilismo, é hora de pendurar o capacete. Mas, quando olho para esta foto, não penso no fim da minha carreira. Isso é sobre o que vem a seguir. Durante três décadas, as corridas me ensinaram que talento nunca é o suficiente. — iniciou o piloto brasileiro.
— É preciso determinação para continuar quando as coisas não estão funcionando, quando o carro não é rápido o bastante, quando as pessoas duvidam de você, quando você perde, quando você falha. É preciso uma vontade quase irracional de vencer. E, acima de tudo, é preciso foco extremo e a capacidade de ignorar o barulho, comprometer-se completamente com um objetivo e continuar avançando muito depois do que a maioria das pessoas teria parado — acrescentou.
O piloto também direcionou parte da mensagem ao filho. A nova geração aparece como símbolo da mudança de ciclo na vida de Di Grassi, que agora pretende acompanhar de perto o crescimento da criança e transmitir os valores que aprendeu durante sua caminhada esportiva.
Essas qualidades me levaram de uma criança que sonhava em correr de carro a competir no mais alto nível do automobilismo por 20 anos. Agora, olho para o meu filho. Meu tempo atrás do volante está chegando ao fim. A geração dele está apenas começando.
A declaração representa uma das principais marcas da despedida do brasileiro: a consciência de que uma carreira construída ao longo de décadas chega ao fim justamente quando uma nova etapa familiar começa a ganhar ainda mais importância.
PASSAGEM PELA FÓRMULA 1 E PROTAGONISMO NA FÓRMULA E
A carreira internacional de Di Grassi ganhou um dos seus momentos mais importantes em 2010, quando o brasileiro chegou à Fórmula 1 para defender a Virgin Racing. Apesar de disputar a temporada completa, ele não conseguiu marcar pontos, principalmente pelas limitações do carro utilizado pela equipe.
A passagem pela principal categoria do automobilismo mundial, entretanto, foi apenas uma parte da história. Antes e depois da Fórmula 1, o brasileiro construiu uma trajetória relevante em diferentes campeonatos e categorias de monopostos e endurance.
Na Fórmula E, Di Grassi esteve entre os pilotos que participaram da primeira temporada da história da competição, em 2014. Mais do que competir, o brasileiro também teve participação no processo de desenvolvimento do GEN1, primeira geração de carros utilizada pela categoria elétrica.
Ao longo de 12 anos na Fórmula E, o piloto acumulou números expressivos: foram 13 vitórias, 41 pódios e quatro pole positions. O principal resultado veio na temporada 2016-17, quando conquistou o campeonato e entrou definitivamente para a história da categoria.
O título foi decidido em uma disputa com o suíço Sébastien Buemi, também com passagem pela Fórmula 1. Di Grassi levou a melhor na última corrida e garantiu o campeonato, consolidando-se como um dos principais nomes dos primeiros anos da Fórmula E.
A regularidade também chama atenção. Nas cinco primeiras temporadas da competição, o brasileiro terminou sempre entre os três melhores do campeonato. Além do título de 2016-17, foram dois vice-campeonatos, nas temporadas 2015-16 e 2017-18, e dois terceiros lugares, em 2014-15 e 2018-19.
EXPERIÊNCIA ALÉM DOS MONOPOSTOS
A carreira de Di Grassi também passou pelo Mundial de Endurance (WEC). Depois de sua passagem pela Fórmula 1, o brasileiro participou de provas da categoria e chegou a representar a Audi em quatro edições das 24 Horas de Le Mans, uma das corridas mais tradicionais e difíceis do calendário mundial.
Seu melhor resultado em Le Mans foi conquistado em 2014, quando terminou a prova na segunda posição. Naquele mesmo período, o brasileiro também iniciava sua trajetória na Fórmula E, competindo pela Audi Sport ABT.
A passagem pela montadora alemã na categoria elétrica se estendeu até a temporada 2020-21, quando a Audi decidiu deixar oficialmente a Fórmula E. A mudança abriu espaço para uma nova etapa na carreira do piloto, que passou por diferentes equipes nos anos seguintes.
Depois da saída da Audi, Di Grassi competiu por Venturi, Mahindra e ABT Cupra. Em 2024, iniciou uma nova fase ao chegar à Lola-Yamaha, equipe que defendeu até sua despedida das pistas em Londres.
DO KART AO TOPO DO AUTOMOBILISMO
A história de Di Grassi nas competições começou ainda na juventude, no kart. O salto para os carros aconteceu em 2002, quando disputou a Fórmula Renault 2.0 Brasil e terminou o campeonato na segunda colocação.
A partir dali, o paulista passou a buscar espaço no cenário internacional. Durante os anos seguintes, participou de diferentes versões da Fórmula 3, incluindo a Sudamericana, a Britânica e a Euro Series.
Em 2006, o brasileiro chegou à GP2 Series, principal categoria de acesso à Fórmula 1 naquele período e antecessora da atual Fórmula 2. Foram quatro temporadas na competição, com resultados de destaque. Di Grassi terminou como vice-campeão em 2007 e conquistou duas terceiras colocações, em 2008 e 2009.
O desempenho na GP2 foi determinante para sua chegada à Fórmula 1. Em 2010, o piloto teve a oportunidade de disputar a temporada pela Virgin Racing e realizou o sonho de competir no principal campeonato do automobilismo mundial.
Embora não tenha conseguido pontuar, a experiência colocou Di Grassi em um grupo restrito de brasileiros que chegaram à Fórmula 1.
APOSENTADORIA JÁ HAVIA SIDO ANTECIPADA
A decisão de deixar as pistas não foi uma surpresa completa. Em abril deste ano, Di Grassi havia revelado, em entrevista exclusiva ao ge.globo, que planejava encerrar sua carreira no fim de 2026.
Com o fim das competições, o brasileiro agora começa a estudar novas possibilidades profissionais. Entre os caminhos considerados está a possibilidade de assumir uma função de chefia em uma equipe de automobilismo, aproveitando a experiência acumulada durante mais de 30 anos no esporte.
Além da eventual atuação nos bastidores das competições, Di Grassi também pretende dedicar mais tempo à família e acompanhar o crescimento do filho. A mudança representa uma transição importante para alguém que passou boa parte da vida viajando pelo mundo e vivendo a rotina intensa das corridas.
CONFIRA A CARTA ABERTA DE DI GRASS
Essa foto vale mais do que mil palavras. Hoje corro na Fórmula E pela última vez. Depois de 30 anos no automobilismo, é hora de pendurar o capacete. Mas, quando olho para esta foto, não penso no fim da minha carreira. Isso é sobre o que vem a seguir. Durante três décadas, as corridas me ensinaram que talento nunca é o suficiente.
É preciso determinação para continuar quando as coisas não estão funcionando, quando o carro não é rápido o bastante, quando as pessoas duvidam de você, quando você perde, quando você falha. É preciso uma vontade quase irracional de vencer. E, acima de tudo, é preciso foco extremo e a capacidade de ignorar o barulho, comprometer-se completamente com um objetivo e continuar avançando muito depois do que a maioria das pessoas teria parado.
Essas qualidades me levaram de uma criança que sonhava em correr de carro a competir no mais alto nível do automobilismo por 20 anos. Agora, olho para o meu filho. Meu tempo atrás do volante está chegando ao fim. A geração dele está apenas começando.
Não sei o que ele vai escolher fazer, e não precisa ser automobilismo. Mas, seja o que for, espero que ele se entregue com tudo o que tenha. Espero que ele sonhe grande, aprenda a perder, se levante, trabalhe mais duro e nunca aceite que algo é impossível simplesmente porque ninguém fez antes.
Uma geração eventualmente precisa sair do caminho para que a próxima possa ir mais longe. Hoje, tiro o capacete. E, olhando para esta foto, sei exatamente para onde está meu foco agora.
UM NOVO CAPÍTULO FORA DAS PISTAS
Com a despedida em Londres, Lucas di Grassi encerra uma trajetória que atravessou diferentes gerações do automobilismo. Do kart às principais categorias internacionais, o brasileiro passou por Fórmula 3, GP2, Fórmula 1, Mundial de Endurance e Fórmula E.
O campeonato conquistado em 2017 e a longevidade na Fórmula E são alguns dos principais capítulos de uma carreira marcada pela busca por competitividade e pela capacidade de permanecer no mais alto nível por muitos anos.
Agora, sem o compromisso de disputar corridas, o brasileiro terá pela frente o desafio de construir uma nova rotina. O volante deixa de ser o centro de sua vida profissional, mas a experiência acumulada durante décadas pode abrir espaço para uma atuação diferente no automobilismo, especialmente em funções de gestão e liderança.
A última bandeirada, portanto, não representa apenas uma despedida. Para Di Grassi, o encerramento de sua trajetória como piloto também simboliza a oportunidade de acompanhar de perto a próxima geração e transformar tudo o que aprendeu nas pistas em novos projetos.
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