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Wall Street teme tensões com a Groenlândia, mas vê 'Taco' e Suprema Corte como barreiras

A guerra de narrativas em torno da ilha no Ártico pesou no humor dos investidores na volta dos negócios em Wall Street, após o feriado em homenagem a Martin Luther King Jr

20 jan 2026 - 19h22
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CORRESPONDENTE EM NOVA YORK - A escalada das tensões entre Estados Unidos e Groenlândia reduziu o apetite por ativos de risco nos mercados globais. Investidores temem uma nova guerra comercial capaz de comprometer o crescimento econômico mundial, já abaixo do potencial nos últimos anos.

Analistas apontam três barreiras: uma versão reformulada do "Taco Trump" - expressão usada para descrever o vaivém do presidente Donald Trump no tema das tarifas —, uma eventual decisão contrária da Suprema Corte ao poder do republicano de taxar o planeta e a própria reação de Wall Street.

No fim de semana, o chefe da Casa Branca ameaçou impor tarifas adicionais de 10% a partir de 1º de fevereiro sobre produtos importados da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Países Baixos, Finlândia e Reino Unido caso não avancem as negociações para a compra da Groenlândia. Como esses países já são taxados, a alíquota total subiria para 25%.

A ameaça catapultou uma reação em cascata de líderes europeus. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou nesta terça-feira, 20, que a sinalização de Trump de aplicar novas tarifas a essas nações é um "erro", especialmente considerando que os EUA e os países da Zona do Euro são aliados históricos.

Ameça ao vinho francês

O presidente da França, Emmanuel Macron, classificou como "inaceitável" qualquer taxação adicional por parte dos EUA. Ele se pronunciou no Fórum Econômico Mundial (WEF), em Davos.

A fala ocorreu depois de Trump divulgar trechos de uma conversa privada com o chefe de Estado francês, que o chamou de "amigo" e disse: "Não entendo o que você está fazendo na Groenlândia". Trump, então, ameaçou taxar vinhos e champanhes franceses em 200%.

Enquanto isso, também nos Alpes Suíços, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, reforçou a fala de Trump nesta terça-feira, ao afirmar, em entrevista à CNBC, que outro país reivindicará o controle da Groenlândia se os EUA não o fizerem. Segundo ele, a ilha é um objetivo de Trump de longo prazo e é "vital" para o funcionamento do sistema antimísseis proposto pelo republicano.

A guerra de narrativas em torno da Groenlândia pesou no humor dos investidores na volta dos negócios em Wall Street, após o feriado em homenagem a Martin Luther King Jr, segunda-feira.

Analistas preveem que os mercados globais sigam sob forte volatilidade enquanto não houver desescalada nas tensões entre EUA, Dinamarca e Europa que afaste o risco de ruptura na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Efeito sobre os papéis americanos

O economista-chefe de mercados da Capital Economics, John Higgins, questiona se os mercados poderiam levar Trump a mudar seus planos para a Groenlândia. Mas, para ele, só uma liquidação tripla — ainda mais intensa — de ações, Treasuries (títulos de dívida do governo americano) e dólar convenceria o republicano a recuar.

"Em abril passado, foram necessários movimentos muito maiores nos mercados", avalia Higgins, referindo-se à época do "Dia da Libertação", em que Trump lançou as tarifas recíprocas para parceiros comerciais do mundo todo.

Foi justamente a preocupação com a velocidade e a escala da venda de títulos do Tesouro americano que levou a Casa Branca a voltar atrás em suas políticas comerciais. Agora, afirma Higgins, uma saída massiva de investidores estrangeiros de ativos dos EUA talvez convença Trump.

É um 'Taco Trump'?

Para a TS Lombard, a grande questão em jogo é se este é mais um "Taco Trump" ou não. O cenário-base da consultoria britânica é de uma trégua pendente de mais negociações, com uma suspensão temporária das tarifas.

"No entanto, uma trégua não garantiria que toda essa crise se dissipasse com Trump abandonando sua exigência por completo", alerta o diretor-geral de pesquisa política Global da TS Lombard, Christopher Granville. Esse seria um "Taco de verdade", diz.

Trump afirmou que concordou em participar de uma reunião com líderes europeus em Davos sobre a Groenlândia no mesmo post em que disse que teve uma conversa "muito boa" com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Mas reforçou: "Não há como retroceder". Trump embarca nesta terça-feira para os Alpes Suíços.

Por ora, economistas estão preferindo manter suas previsões à espera dos acontecimentos em Davos. Mas, se os EUA cumprirem sua ameaça e taxarem a Europa em 25%, o potencial de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) americano poderia ser reduzido em 1%, calcula a Oxford Economics. A Zona do Euro teria efeito similar, mas mais prolongado, prevê.

"Dada a dimensão de ambos os mercados, isso levaria a repercussões moderadas no crescimento em outros lugares, reduzindo o crescimento do PIB global para 2,6%", afirma o diretor de Pesquisa Macroeconômica Global da Oxford Economics, Ben May. Segundo ele, trata-se de um nível abaixo da faixa de crescimento de 2,8% a 2,9% dos últimos três anos e seria a pior taxa de expansão desde 2009, excluindo o ano da covid-19 em 2020.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de elevar sua previsão para o crescimento do PIB global em 2026 para 3,3% de 3,1%. O organismo alertou, contudo, para a existência de diversos riscos de baixa para o desempenho da atividade econômica como, por exemplo, tensões geopolíticas e comerciais.

À espera da Suprema Corte

A crise nas relações com a Groenlândia também pode ser influenciada pela decisão da Suprema Corte dos EUA sobre o poder de Trump de taxar o mundo, valendo-se da Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês). Nesta terça-feira, novamente, não houve posicionamento. A Suprema Corte entra em recesso nas próximas semanas, e a data mais próxima para uma decisão é 20 de fevereiro.

"Eu não sei o que a Suprema Corte irá decidir sobre as tarifas, mas daremos um jeito", disse Trump a jornalistas nesta terça-feira, durante coletiva de imprensa que marcou o primeiro ano de seu segundo mandato.

Para economistas do ABN Amro, uma decisão negativa é "mais provável" e, caso a Suprema Corte rejeite as tarifas de Trump, a taxação poderia ser substituída imediatamente pelas chamadas tarifas da Seção 122, que permitem uma alíquota máxima de 15% por 150 dias.

Na prática, isso colocaria em risco uma escalada para taxar produtos europeus em 25%. "Se os EUA realmente prosseguirem com a tarifa adicional de 10% em 1º de fevereiro, é provável que haja alguma resposta formal da União Europeia, mas a agressividade dessa resposta permanece incerta", concluem.

Estadão
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