Script = https://s1.trrsf.com/update-1789154714/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

'Se não nós, então quem? Se não agora, então, quando?', diz Barbosa, sobre investigações do Master

Um dos mais respeitados executivos brasileiros diz que o País carece de liderança inspiradora nos Três Poderes, mas que primeiros passos estão sendo dados e sociedade saberá reagir na hora certa

11 set 2026 - 16h41
Compartilhar
Exibir comentários
Resumo
O executivo Fábio Barbosa celebrou o fim do sigilo nas apurações sobre o Banco Master, enfatizando a urgência de transparência nas denúncias que envolvem o STF. Ele nega apatia popular e aponta uma sociedade indignada que carece de referências éticas nos Três Poderes. Defendendo que ninguém está acima da lei, o gestor convoca a sociedade civil à mobilização e afirma que o país necessita, prioritariamente, de uma urgente reforma de valores e de líderes inspiradores para combater a impunidade.

Um dos executivos mais respeitados do País, Fábio Barbosa diz ter ficado contente, apesar da gravidade dos fatos, com a retirada formal do sigilo das investigações sobre o Banco Master, em atendimento à determinação do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin. "Não dá mais para esconder embaixo do tapete", diz ele. "Fico satisfeito em ver uma sociedade indignada e revoltada, não apática, mas um pouco perdida, que saberá como se expressar na hora certa, seja no voto ou seja nas ruas."

Esse movimento da sociedade civil, diz ele, vai depender de como as lideranças do País comandarão a investigação das denúncias que envolvem os ministros da Corte. "Nos Três Poderes, a gente carece do que é o objetivo de uma liderança: que ela seja inspiradora, uma referência de ética, de transparência, para que a população como todo também entre nesse jogo", diz ele. "O exemplo vem de cima e a gente está carecendo dele."

Barbosa entende do tema. Deixou sua marca em cada uma das empresas que comandou. No Real ABN Amro, foi pioneiro em colocar a sustentabilidade no mundo das finanças, ainda na década de 90. No Santander, persistiu em carregar esse selo para uma instituição maior. Na Natura, voltou ao básico, quando a empresa precisava simplificar e cortar dívidas.

"Fui gestor de empresas com dezenas de milhares de funcionários e, em sua grande maioria, a sociedade brasileira busca fazer as coisas corretamente", diz ele, que hoje faz parte do conselho de administração de três companhias com faturamentos bilionários. "Agora, precisa ter um líder inspirador que leve a isso."

Barbosa assinou o manifesto 'Pela lei e pelo Brasil'
Barbosa assinou o manifesto 'Pela lei e pelo Brasil'
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Com o Estadão, Barbosa fez a curadoria da série de debates "Brasil Adiante", nos quais foram discutidos em profundidade temas que já têm diagnóstico e cujas ações serão levadas ao vencedor das eleições. Com os escândalos mais recentes, assinou o manifesto "Pela lei e pelo Brasil", que pede a apuração das denúncias e pode ser assinado aqui. "Se não nós, então quem? Se não agora, então quando?", pergunta ele. Leia a entrevista, a seguir:

O que os mais recentes acontecimentos revelam sobre a situação do País?

Revelam que as denúncias muito sérias que têm vindo a público precisam ser apuradas. Temos feito uma mobilização grande para que o Supremo Tribunal Federal e o Congresso trabalhem com mais transparência, investiguem o que tem de ser investigado e deixem de lado aquilo que não tem fundamento nem base. Há muito tempo a gente vem se mobilizando por mais transparência. Em dezembro, fizemos uma mobilização pelo Código de Conduta. Com o desenrolar dos fatos, sempre aparece essa possibilidade de que denúncias muito sérias não sejam apuradas. Essa avaliação tem de ser feita por juristas e não por nós. Mas, nós, como sociedade, queremos transparência. O que vi, nos últimos dias, foram alguns avanços. A ideia era respaldar o presidente do STF, que é quem convoca, julga e coloca em votação no plenário, assuntos que não vinham sendo colocados. Por isso, acredito que evoluiu positivamente: agora, estamos falando de temas que devem ser levados ao plenário na terça-feira, 15, e que a gente gostaria que fosse, obviamente, aberto ser acompanhado. Vamos ver qual vai ser a decisão do presidente. Não dá mais para jogar debaixo do tapete. O volume de informação a ser esclarecida é tão grande que fica difícil dizer: 'Não aconteceu nada, vamos engavetar tudo'. A gente está avançando no sentido de fazer julgamentos e avaliações que antes não estavam sendo colocados na mesa.

É comum relatos de empresários sobre a demanda da contratação de escritórios que tenham parentes de ministros do Supremo em seus quadros, quando há uma causa importante em jogo. O sr. chegou a perceber essa situação em sua atividade empresarial?

Categoricamente, não. Já ouvi falar, mas nunca vi isso acontecer. Também sei que essas coisas acontecem com quem está, digamos assim, mais vulnerável e aberto a esse tipo de situação. Trabalho em conselhos de empresas extremamente grandes, bem estruturadas em termos de compliance (regras de comportamento) e nunca vi isso. Pregamos exatamente esse tipo de transparência para todos: que o Judiciário, a PGR (Procuradoria Geral da República), o Congresso e quem quer que seja trabalhe com transparência. O que é democracia? Democracia no fundo é isso: ninguém acima da lei. Todo mundo tem de estar submetido à lei, sem privilégios. Todo mundo tem de ser julgado dentro das provas que existem. Ninguém está pré-julgando, mas as denúncias precisam ser levadas a fato, a uma análise a fundo e não serem escondidas. Esse é o primeiro passo que a gente gostaria: uma limpeza naquilo que precisa ser limpo. O segundo ponto são as autoridades, no Poder Executivo, Judiciário ou Legislativo, sejam exemplo de boa conduta. Isso está faltando. A gente não tem, nos Três Poderes, exemplos de condutas dos quais se fale: 'Poxa, que admiração pela conduta de tais e tais pessoas'. Nos Três Poderes, a gente carece daquilo que é o objetivo de uma liderança: que ela seja inspiradora, uma referência de ética, de transparência, para que a população como todo também entre nesse jogo. O exemplo vem de cima e a gente está carecendo dele.

Essa fragilidade na Justiça interfere nos negócios?

Sei de casos de menores, pessoas físicas e coisas do gênero, que têm direito e razão e acabam perdendo causas, lamentavelmente, porque houve alguma distorção no processo. Isso não é exclusividade do Brasil e a mudança na aposentadoria compulsória dos juízes já melhorou muito a situação. A ideia é sempre acender a luz e ver o que está acontecendo. A gente deixou passar no Brasil, durante algum tempo, muitos fatos que deveriam ter sido analisados, deveriam ter sido identificados dentro da lei. Isso leva à ideia de impunidade. Desvios acontecem em todos os países. O que é feito para mitigar esses problemas e punir os casos indicados é o que importa. O Brasil precisa caminhar para isso. Costumo dizer que o País precisa de várias reformas. Precisa da reforma tributária (que está acontecendo), da reforma previdenciária, da reforma trabalhista. Mas ele precisa, sobretudo, de uma reforma de valores. Esse é o problema principal. A questão é que somos uma sociedade que comete e tolera pequenos delitos. A gente precisa ver uma inspiração de cima, precisa trabalhar com educação, precisa ter a punição também para desvios, para que valores que são importantes - a melhor forma de controlar uma sociedade - sejam os corretos. Acabei de voltar do Japão. Lá, a sociedade não transige, enquanto no Brasil, na América Latina e até aqui nos Estados Unidos, onde estou (no momento da entrevista), o pessoal transige. Aí fica difícil. A gente precisa de uma reforma de valores, precisa de uma sociedade que entenda que é no seu dia a dia, no que ela faz, que ela constrói o Brasil. Quem se deixa corromper é, de certa maneira, tão nocivo para o País quanto aquele que procura corromper o agente público. Quem foi o agente corrompedor, tem tanta culpa quanto quem corrompe.

O desânimo nessas eleições é reflexo dessa situação?

Muita gente tem me procurado para falar que está achando a sociedade apática. Eu contesto. A sociedade não está apática, a sociedade está indignada, incomodada, sem saber o que fazer. Apático seria achar que está bom do jeito atual. Não, não é assim. O desânimo se dá em relação a, toda vez que a gente acha que vai melhorar, não melhora. Daí fica a indignação, sem saber o que fazer. Essa ideia de que o voto vai sempre para o menos pior. Por quê vivemos isso? Porque está faltando um líder inspiracional, especialmente com relação a essa ideia de valores, ética, transparência. A sociedade brasileira busca - e eu tive larga experiência disso ao ser gestor de empresas com dezenas de milhares de funcionários - fazer a coisa corretamente. A maioria das pessoas é assim. Agora, precisa ter um líder inspirador que leve a isso. Infelizmente, não temos isso no momento. Fica a ideia: como cidadão, o que posso fazer com relação a isso? Costumo dizer que a elite, no sentido de mobilização e educação, tem o privilégio de poder levar o Brasil para melhores caminhos. É isso que a gente precisa fazer, seja por meio do Manifesto, seja pelo trabalho que tive aí com o Estadão, do Brasil Adiante. É pouco a ideia de que 'se não nós, então quem? E se não agora, então quando?'. A gente mobiliza, mas não gosto de chamar essa movimentação de responsabilidade, porque se não, parece peso. A gente tem o privilégio - e não a responsabilidade - de poder ajudar o Brasil.

Esse momento pode acender uma fagulha de mudança?

A gente está num ambiente com indignação e tensão suficientes para que uma fagulha possa despertar. Mas, para ter uma fagulha de mudança, é preciso ter uma liderança com alcance popular. Não temos expectativa nesses movimentos, seja no Brasil Adiante ou seja no 'Pela lei, pelo Brasil', de fazer uma mobilização de milhões de pessoas. Mas uma liderança que fosse capaz de captar esse momento poderia, sim, fazer uma mobilização nas ruas e tudo mais. Não sei se vai acontecer, faltam pouco mais de 20 dias para as eleições. Certamente, existe uma preocupação dos órgãos governamentais, dos Três Poderes, de que a situação está tensa o suficiente para que não se jogue debaixo do tapete os indícios apontados até agora. Para que a única saída seja a da transparência. Os Três Poderes estão sentindo que o calor está aumentando e a sociedade está manifestando isso a todo instante. O que importa é: desistir, jamais.

É uma mensagem de esperança?

Não dá para ficar embaixo do tapete. Não dá mais. Não sei se o limite chegou, mas fico satisfeito em ver uma sociedade indignada, que no devido momento saberá como se expressar, seja no voto, seja nas ruas, a depender da liderança que venha a sintetizar essa movimentação. Mas é, sim, uma mensagem esperançosa, sempre. Luto, na minha vida inteira, por uma causa, que é fazer a coisa certa, do jeito certo. O Brasil precisa de referências, seja na vida privada, pessoal, nas empresas, no setor público. Precisamos de referências de que pode dar certo, sem transigir, sem cooptar ou ser cooptado. Isso existe e acontece, mas a gente precisa de mais referências para isso, que é o que eu estou chamando de uma reforma de valores, que acho que é o mais importante. Esse fim do sigilo é um pequeno passo. Não importa o tamanho, é preciso caminhar na direção certa. É isso que eu quero.

Estadão
Compartilhar
TAGS

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra