Safra menor e carnes mais caras: como devem se comportar os preços dos alimentos em 2026
Depois de a inflação sobre a comida ter sido contida em 2025, a pressão volta a aumentar, sobretudo por causa das proteínas animais
RIO E BRASÍLIA - As primeiras projeções para a safra brasileira indicam colheita menor do que a de 2025, mas ainda farta o suficiente para evitar pressão sobre os preços ao consumidor. Contudo, a cesta de alimentos tende a ficar mais cara em 2026, sobretudo por causa das proteínas animais.
Maria Andreia Parente Lameiras, técnica de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vê "uma pressão vinda de carnes".
"Dentro do que se espera, vai ser uma safra bem parecida com a de 2025, um pouquinho menor, mas nada muito diferente. Agora, a pecuária, não", disse. "Vai ter uma queda de produção de proteínas, principalmente de proteínas de origem bovina. Já se sabe que 2024 e 2025 foram anos em que se abateu muita fêmea. Vai levar um tempo até repor. Tenho visto projeção para abate na pecuária para 2026, as pessoas estão falando em queda de 10%. Não é nada catastrófico, mas não é pequeno."
A tendência, diz Lameiras, é de contaminação inflacionária nos demais tipos de proteína, via aumento da demanda.
"O preço da carne fica caro porque a produção está menor, e as pessoas vão fazer o quê? As pessoas vão para outras proteínas. Vai para frango, vai para suíno, vai para ovo. Tem uma demanda maior, e esses outros produtos acabam subindo também", explicou a pesquisadora do Ipea.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) calcula inflação da alimentação no domicílio de 2,05% em 2025, ante 8,23% em 2024. Para 2026, o índice deve avançar para 4,78% (no gráfico abaixo, compare com as projeções para a carne bovina, para a soja e para o milho).
"Temos estimativa de incremento de produção em boa parte das cadeias, à exceção do algodão, da laranja e do café, em virtude de preço", disse o diretor técnico da CNA, Bruno Lucchi. Na análise da entidade, as commodities (matérias-primas negociadas no mercado internacional) devem iniciar 2026 em nível mais baixo de preço.
A Leme Consultores projeta inflação de alimentos de 6,1% em 2026, em cenário de câmbio controlado, ante 2,5% em 2025. O economista-chefe da Leme, José Ronaldo Souza Júnior, ressalta que espera maior pressão inflacionária dos alimentos em 2026, porém menor do que a vista em 2024.
"Em 2025, tivemos inflação de alimentos contida. Para 2026, volta a ser força levemente para cima, puxada pelas carnes, em nível a depender do câmbio. Uma eventual desvalorização do real sugere alta mais expressiva de alimentos", disse.
Sócio-diretor da consultoria MB Agro, José Carlos Hausknecht vê pressão moderada dos alimentos sobre a inflação, mas admite impulso vindo das carnes. "A tendência é de preços controlados com safra maior, à exceção da carne bovina", apontou.
Quais são os números esperados para a safra
O segundo prognóstico para a safra aponta produção de 335,7 milhões de toneladas em 2026, queda de 3,0% em relação a 2025 — 10,2 milhões de toneladas a menos —, apurou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa, porém, supera em 2,9 milhões de toneladas o primeiro prognóstico.
Segundo Carlos Barradas, gerente de agropecuária no IBGE, o principal motivo da redução anual é a base de comparação elevada em 2025, quando a colheita foi recorde. Ainda assim, espera-se novo pico para a soja, alta de 1,0%, totalizando 167,6 milhões de toneladas.
Por ora, o recuo geral da safra é puxado pelo milho, com produção 6,8% menor do que a de 2025, ou 9,6 milhões de toneladas a menos. Para o pesquisador, a projeção atual é suficiente para manter os preços dos alimentos em patamar confortável.
Barradas diz que a safra de verão, em andamento, está bem promissora. "A expectativa é de que ela seja muito boa no País inteiro", disse Barradas.