'Revolução gigantesca': Como os bioinsumos estão transformando a produção agrícola
No Brasil, segmento cresce mais do que a média mundial, motivado por eficiência, redução de custos e sustentabilidade ambiental; tema estará em evidência na Agrishow
O agricultor Ricardo Gontijo Eleoterio produz cana-de-açúcar, soja e amendoim em 15 mil hectares nos municípios de Ituverava (SP), Tupaciguara (MG), Cachoeira Alta (GO) e Paranaíba (MS). Há cinco anos, começou a testar bioinsumos no combate a pragas. O resultado agradou e o uso vem sendo ampliado gradativamente.
Os bioinsumos são produtos de origem biológica utilizados na agricultura para promover o crescimento das plantas, melhorar a fertilidade do solo e auxiliar no controle de pragas e doenças, permitindo reduzir a dependência de insumos químicos convencionais.
Obtidos a partir de microrganismos, extratos vegetais ou outras substâncias naturais, bioinsumos incluem biofertilizantes, inoculantes e agentes de controle biológico. Têm ganhado espaço no campo por favorecer sistemas produtivos mais equilibrados, com menor impacto ambiental e potencial de aumento da produtividade agrícola com redução de custos. Para especialistas, têm potencial para revolucionar a produção de alimentos e energia em todo o planeta.
Durante a 31ª edição da Agrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, de 27 de abril a 1º de maio, em Ribeirão Preto (SP), eles devem ganhar evidência como uma das principais tendências para a agricultura dos próximos anos.
Em algumas etapas da produção de Eleoterio, os biológicos já representam até 70% dos insumos aplicados. E ele não planeja parar por aí. "As pesquisas estão avançando bastante. Inclusive com aporte de capital privado. Tenho acompanhado a alta quantidade de lançamentos, o que abre caminho para que a gente possa expandir o percentual de biológicos nas fazendas", afirma.
Além de eficácia similar aos químicos, o agricultor destaca que os custos dos biológicos são mais baixos. No tratamento da soqueira da cana — parte da planta que rebrota após o corte e origina novas safras —, por exemplo, o valor médio caiu de R$ 250 para R$ 60 por hectare.
Eleoterio avalia que a relação custo-benefício é interessante. "O uso de biológicos de estímulo traz incremento de produtividade. Já os de controle têm desempenho semelhante aos dos químicos, sendo que, em algumas situações, os químicos ainda são um pouco melhores. E, no quesito sustentabilidade, a produção dos biológicos demanda menos água e carbono. Então, no geral, acaba sendo vantajoso."
O produtor não acredita, porém, que conseguirá substituir 100% dos químicos no curto prazo. "Culturas comerciais dependem de fatores climáticos. Na cana, por exemplo, para que o biológico persevere, precisa ter a palhada e um ambiente mais úmido. Em épocas de clima seco ou de muitas queimadas, como aconteceu em 2024, o biológico tem muita dificuldade de fazer o controle. Por isso, ainda é necessário conjugar com os químicos."
Crescimento
A estratégia adotada por Eleoterio é uma tendência observada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), por consultorias internacionais e por instituições nacionais que atuam com bioinsumos, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a Associação Brasileira de Bioinsumos (Abbins), além do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
Relatórios da Fortune Business Insights, MarketsandMarkets e Allied Market Research indicam que o mercado global de bioinsumos movimentou cerca de US$ 15 bilhões em 2023 e pode triplicar até 2032. Os produtos voltados ao controle de pragas e doenças respondem por 57% das vendas.
O Brasil é um dos países que mais avançam no uso de biológicos. Na safra 2024/25, o mercado movimentou R$ 7 bilhões, colocando o País entre os três maiores do mundo, com participação de 15% a 18% no consumo global e metade do mercado latino-americano. Enquanto o crescimento mundial gira entre 13% e 14% ao ano, no Brasil está em torno de 20%.
Além da eficiência e da redução de custos, o sistema regulatório e o domínio tecnológico ajudam a explicar esse avanço, segundo Almir Torcato, diretor executivo da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Canaoeste).
Em 2023, a entidade criou sua própria fábrica de biológicos, com capacidade para produzir cepas específicas voltadas às demandas dos associados. No início, houve desconfiança, que vem sendo superada com o trabalho de extensão rural. Dos 120 mil hectares atendidos, 80 mil receberam bioinsumos na última safra.
"Além de ser uma tecnologia acessível, conseguimos fazer o produto chegar mais barato ao agricultor, porque somos uma associação e não temos objetivo de lucro, apenas de cobrir custos", afirma Torcato.
Desde a inauguração, a unidade disponibiliza três biodefensivos e prepara o lançamento de um quarto produto. "Queremos ampliar, cada vez mais, o uso. Por enquanto, os agricultores têm trabalhado de forma conjugada com os químicos, mas os biológicos são uma tendência. Eles vão criando um equilíbrio na lavoura até chegar um tempo em que sozinhos eles podem ser suficientes", explica o diretor executivo.
Na avaliação dele, os bioinsumos refletem uma transformação mais ampla. "Fazem parte de uma revolução na forma como a humanidade encara a vida."
Solução dentro de casa
"Revolução gigantesca" é a expressão usada pelo diretor executivo da Abbins, Reginaldo Minaré, para definir o impacto dos bioinsumos. A entidade avalia que, com políticas estruturadas voltadas à ciência e tecnologia, o Brasil pode reduzir a dependência de fertilizantes importados, que hoje respondem por 95% da demanda nacional.
"É uma situação que impõe ao governo brasileiro, à Frente Parlamentar da Agropecuária e outras instituições da agricultura uma política de Estado, não iniciativas isoladas", diz.
Minaré observa que, apesar dos R$ 7 bilhões movimentados, o segmento ainda é pequeno frente ao mercado de defensivos químicos (cerca de R$ 98 bilhões) e fertilizantes (mais de R$ 100 bilhões). Ainda assim, a agricultura regenerativa tem acelerado a adoção dos biológicos.
"Antes restritos a nichos, os bioinsumos passaram a ganhar escala à medida que os agricultores perceberam os resultados. Países como Áustria, Inglaterra, Estados Unidos, Nova Zelândia e Japão já adotam modelos inspirados no Brasil. Seja fornecendo os bioinsumos prontos, seja fornecendo os inóculos para que os agricultores produzam seus próprios bioinsumos", explica Minaré.
Entre os benefícios, ele destaca a recuperação do solo por meio de remineralizadores obtidos de rochas disponíveis no País. "Recuperar os solos é uma urgência para a agricultura brasileira e mundial; e os bioinsumos são fundamentais nesse aspecto, inclusive para melhorar a qualidade nutricional."
Segundo Minaré, os bioinsumos também devem alterar a dinâmica da indústria. "Sai um modelo concentrado em grandes multinacionais com patentes de moléculas e entra outro, mais competitivo, baseado em microrganismos da biodiversidade, que não podem ser patenteados."
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